domingo, 12 de agosto de 2018

A Procura das Coerências Espirituais


Os modelos técnico-científicos e instrumentais inventados, produzidos e utilizados para a construção de um mundo mais justo para todos os seres nele existentes, parecem esgotados, pese embora todo o potencial humano, direcionado na busca de melhores condições de vida material, para todos os indivíduos da natureza planetária conhecida, na circunstância, o planeta Terra.
O homem tem consciência que vive um pouco num equilíbrio de “terror”, porque: conhece, relativamente bem, as suas próprias intenções; que resultados pretende alcançar com certas atitudes, instrumentos e materiais utilizados; nos planos que vai elaborando e desenvolvendo na prática da vida concreta, física e objetivada para determinados alvos.
Um tal equilíbrio de “terror” tem, sistematicamente, ignorado outras alternativas, por sinal, bem, muito bem mais compatíveis com a superior inteligência humana, e com a dignidade inigualável e inquestionável que resulta da condição de ser pessoa humana.
Colocar ao serviço da guerra, da destruição, do sofrimento, da dor e da morte, todo este potencial humano e os recursos naturais que Alguém criou para o benefício de todos, constitui um comportamento “bestialmente selvagem”, contra a Natureza e contra Deus, qualquer que seja a Divindade que O represente, em cada homem, em cada cultura, em cada povo.
Sempre que um homem, um grupo, uma comunidade invoca o princípio, segundo o qual, “todos nascem livres e iguais”, significará pretender agir em conformidade ou, pelo contrário, tal manifestação apenas procura encobrir a hipocrisia de quem tenciona agir, precisamente, ao inverso e desrespeitando o seu semelhante?
Salvaguardando-se as felizes exceções, assiste-se, atualmente, à mais desenfreada e despudorada destruição dos princípios e valores instituídos, desde sempre pelo Deus Universal, consubstanciados em meia dúzia de virtudes, cada vez mais ignoradas pelo homem.
Uma parte significativa das pessoas vive, para além da materialidade do mundo concreto, preocupada e em busca das soluções que, da transcendência do divino, poderá ter para algumas situações, ainda não resolvidas pela Ciência e pela Técnica.
A virtude da adoração a um Deus n’O qual se acredita, constitui uma possibilidade de momentos felizes, calmos e profundos, suscetíveis de repetições, tantas quantas se queiram, contribuindo para um comportamento mais solidário, porquanto: «Adorar ao Deus verdadeiro ajuda a evitar um modo de vida puramente egocêntrico. (…) A verdadeira adoração é boa para você porque o ajuda a se tornar uma pessoa melhor. À medida que se pratica a adoração verdadeira você desenvolve uma personalidade que resulta em relacionamentos mais felizes. Você aprende de Deus e de seu Filho sobre como agir com honestidade, falar de modo bondoso e ser uma pessoa responsável.» (in: SENTINELA, 2006: Vol.127, nº 17)
O Homem deste novo século, independentemente das suas convicções político-filosóficas e religiosas, não tem que se submeter a quaisquer complexos e/ou preconceitos para manifestar, livremente, o seu pensamento acerca de um tema, por muito melindroso que ele possa ser.
Cada religião tem os seus valores, rituais, liturgia, processos de intervenção na sociedade, e condução dos seus crentes, alegadamente, para uma situação de plena felicidade espiritual. Aliás, só com estratégias que visem a dinamização, o intercâmbio e o diálogo inter-religiões, se poderá construir um mundo mais consensual, mais tolerante, porque mais eclético, com tudo o que de bom e dignificante cada religião comporta.
Certamente que não haverá religiões em que os seus crentes sejam bandos de marginais e/ou de malfeitores, excluindo aqui, ainda que pontualmente, os fundamentalismos e toda a espécie de radicalismos que, ao longo da história, se têm verificado com intervenções condenáveis, à luz dos valores da vida, da dignidade e do humanismo.
A importância e influência de cada religião, também, mas não só, resultam da adesão e da fé que os respetivos crentes nela depositam, sendo certo que é muito mais difícil acreditar nos valores religiosos e práticas ritualistas de uma religião, que promover e defender o mal, a guerra, a desgraça e a morte.
O homem “sapiens” e “tecnologicus”, deste novo milénio, tem condições para compreender, harmonizar e elaborar novas regras de boa-convivência interpares, adotar atitudes tolerantes, solidárias, com a elevação espiritual que o caracteriza.
A dimensão religiosa poderá ser mais um traço distintivo que eleva o homem a uma condição superior, relativamente aos restantes animais, estimulando-se, por isso mesmo, o seu empenhamento nas práticas e intercâmbios religiosos.
A consciência religiosa de cada indivíduo humano, certamente que contribui para se atingir uma certa paz espiritual, se se preferir, a verdadeira felicidade, naquilo que ela tem de mais sublime: a amizade pura, baseada num verdadeiro Amor, qualquer que este seja, a lealdade, o carinho, a cumplicidade, a sinceridade, a tolerância, a gratidão, a humildade, a coesão entre as pessoas, a tranquilidade, a harmonia e uma profunda autoconfiança nos valores divinos.

Bibliografia

SENTINELA, 2006: Vol.127, nº 17

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Jornal: “Terra e Mar”

domingo, 5 de agosto de 2018

O Homem: Místico e Concreto


É reconfortante ter a capacidade de acreditar que existe mais Mundo, para além do mundo físico, na circunstância, o universo dos planetas, astros e outros corpos celestes e, concretamente, o planeta Terra que o homem habita, desde tempos que não consegue localizar e quantificar objetivamente.
A possibilidade, sempre em aberto, para os que acreditam num mundo metafísico, pelo menos diferente daquele que, parcialmente, se conhece, em perspectivar uma forma de existência, sobrenatural, inefável, espiritualmente eterna, deve estimular o homem para, enquanto residente na Terra, assumir-se como um ser excecional, dotado de características únicas, superiormente privilegiado, porque algo lhe foi acrescentado, que o distingue, o eleva e dignifica, acima de quaisquer outros seres, pelo menos, tanto quanto é possível conhecer-se, no atual estádio de desenvolvimento da humanidade. O homem, na sua dimensão espiritual, continua a ser um mistério.
O homem (aqui e de ora em diante referido à humanidade, isto é, homem e mulher), um ser inigualável, único, irrepetível, infalsificável, superior, não deve contentar-se, apenas, com as explicações científicas, técnicas e esotéricas, sobre a sua constituição e importância material, no planeta em que vive.
É possível que exista mais homem para além do homem físico, biologicamente estudado e conhecido. Há uma outra realidade que as ciências, a técnica e a maquinaria ainda não conseguiram explicar pela linguagem científica, rigorosa e objetiva. Este é o grande drama do cientista, do técnico, do especialista, do político, do religioso, enfim, de toda a humanidade.
A incerteza, o drama, a ansiedade e o mistério que envolvem o ser humano, poderão ser utilizados numa perspectiva positiva, sem receios de quaisquer fracassos, sejam estes quais forem: sociais, cognitivos, éticos, políticos, religiosos ou outros. Bem pelo contrário, há uma possibilidade do homem eliminar este sofrimento, provocado pela ignorância acerca do sentido e destino para a sua vida, globalmente considerada, onde se completam as dimensões física e espiritual.
E se quanto à primeira, o conhecimento do seu destino e fim – morte e desaparecimento -, são relativamente conhecidos; no que à espiritualidade se refere, aqui, para os positivistas, materialistas, agnósticos e outros descrentes, as dificuldades em refletir e aceitar alguns sinais divino-naturais são, praticamente, insuperáveis.
A desorientação: que tanto incomoda a humanidade em geral; e os cientistas e técnicos em particular, pode ser ultrapassada se se vencerem certos complexos, quanto ao valor de outros conhecimentos, sentimentos e emoções que, estes sim, o homem, ao longo da sua vida, vai vivenciando, relacionando-os, depois, com factos concretos, experimentados durante o percurso físico no Planeta, que lhe foi dado para viver.
O próprio homem, objetivo, mensurável, racionalista, quantitativamente rigoroso, concreto e material, confirma que, em algum momento da sua vida, sentiu ou julgou sentir, sensações estranhas, cientificamente inexplicáveis, cuja origem não sabe compreender e as consequências também não foram determinadas, com o rigor da ciência e da técnica. Ficou-lhe, apenas, a verificação da sua incapacidade, da sua impotência, para esclarecer e resolver tais situações.
O homem, superiormente iluminado, impulsionado por um outro sentimento, que lhe é exclusivo e constitui um privilégio, vence, finalmente, o drama, a angústia, o sofrimento e a incerteza quando, invocando a ajuda Divina, uma sensação de tranquilidade e de esperança o invade, e o liberta daquele desconforto. É este homem superior, gerado e criado à imagem e semelhança do seu Deus, e nos preceitos da sua religião, que se determina em função do ente Divino que o justifica.
Aceite-se, então, como proposta de reflexão, a existência deste homem humano, que é pessoa integral, composta pelas dimensões material e espiritual que, fisicamente, está limitado, desde logo, pela própria natureza que o envolve, que não a vence em definitivo, que a aproveita conforme pode e que, destruindo-a por um lado, também por ela vai sendo destruído.
Reconhece-se, portanto, a existência deste lado fraco, efémero e mortal do homem. Congregue-se e valorize-se a dimensão espiritual do homem, na sua vida quotidiana, utilizando-se a fé, que pela via espiritual o liga a Deus, de Quem recebe todo o conforto, entusiasmo e vontade para O imitar e prosseguir na caminhada pelo infinito, pelo perpétuo, até encontrar Aquele que o compreende e colabora com toda a natureza: «Longe, portanto, de nos apartarmos do que a fé nos ensina, propomos uma doutrina mais bela, mais grandiosa, mais lógica e racional, que nos dá, por outra parte, uma ideia mais exacta dos atributos de Deus, sobretudo da sua bondade infinita e da sua omnipotência soberana.» (BUJDANDA, 1956:191).
A humanidade alcançará a Paz e a Felicidade pela fé, pelas boas-práticas religiosas, no diálogo inter-religiões, no respeito pelo Deus Universal, através das divindades invocadas por cada povo, por cada cultura, por cada pessoa humana.

Bibliografia

BUJANDA, Jesus, S.J., (1956). A Origem do Homem e da Teologia, Edição Portuguesa, Porto: Livraria Apostolado da Imprensa.


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

domingo, 29 de julho de 2018

A Altivez de quem já não precisa de um amigo especial

Por vezes pensamos que determinada pessoa é nossa sincera amiga e então, nela confiamos tudo da nossa vida, solidarizamo-nos com ela, sempre que houver injustiças; somos leais, educados, atenciosos, generosos e, se for necessário, até nos incompatibilizamos com outras pessoas que foram injustas e/ou incorretas com o nosso amigo. Tudo se faz por uma amizade incondicional.

Acontece que se a pessoa que consideramos ser nossa amiga, pela qual tudo demos e fizemos, ela não tem igual procedimento, quando somos nós os alvos de injustiças e, pelo contrário, até se relaciona com outras pessoas que, em dado momento, nos ofenderam, magoaram ou foram incorretas connosco, será aquela pessoa, verdadeiramente nossa amiga, quando se junta aos que nos ofenderam e magoaram?

Onde estão a solidariedade, a amizade, a lealdade, a reciprocidade? Será correto que um amigo pactue com pessoas que humilharam o meu amigo? Cabe aqui a sabedoria popular: “Quem não se sente não é filho de boa gente”, ou então: “Quem é amigo do meu adversário, não pode ser meu amigo”, ou ainda: “quem é amigo de quem não é meu amigo, não será amigo meu”. Para as consciências bem-formadas, não se pode “Amar a Deus e ao Diabo” ao mesmo tempo. Se se estiver dos dois lados, então tudo não passa de falsidade, hipocrisia, traição. Nestas circunstâncias, não poderá existir amizade verdadeira, pura, solidária. Não existe amigo incondicional.
Em boa consciência e honestidade intelectual, quando os valores e sentimentos em que acreditamos e os oferecemos, generosamente, à pessoa que consideramos nossa amiga, que pela amizade desta pessoa, lhe abrimos o nosso coração, confiamos os nossos desejos, projetos, dificuldades, às vezes, as mais íntimas, e dela, mais tarde, recebemos a indiferença, a rejeição, a desconsideração, a falta de estima, de carinho e de amizade, tal comportamento provoca profunda mágoa, tristeza, dor, sofrimento e desgosto. Pode conduzir, a emoções fortíssimas, a uma ansiedade tão acentuada e, finalmente, eclodir em situações irreversíveis.
Nestas conjunturas, o amigo que se doou a quem pensava que também era seu amigo, sente-se traído nos seus valores e sentimentos não retribuídos e, pior do que isso, a dor da humilhação, da rejeição, da ridicularização a que fica submetido, pode conduzir à doença: primeiro, do foro psicológico, apatia, depressão; depois, fisicamente, caminhando, inexoravelmente, para a degradação, para a morte inglória, por uma amizade que deixou de ser correspondida e acabou por ser atraiçoada.
Sem dúvida que o mundo é demasiado pequeno: 1) tem imensas “esquinas” e, em muitos momentos da vida, ao dobrarmos uma dessas esquinas, encontramo-nos com pessoas que foram nossas amigas, que nos apoiaram, mas que depois nós abandonamos, desprezamos e humilhamos; 2) Deus é imenso, - e para quem não é crente – Ele, fica representado pelo Tribunal da Consciência, ao qual não temos escapatória possível, que sancionará todos os nossos atos; 3) a vida ensina-nos muito do que precisamos para sobreviver num mundo de falsidades: desde hipocrisias, deslealdades, faltas de solidariedade, desconsideração, mágoas, desgostos, tudo nos vai caindo em cima e assim vamos aprendendo; 4) o passado fica inscrito para sempre na nossa consciência e tudo o que tivermos feito, de bom e de mal, nos será premiado ou censurado, até que a morte nos leve; 5) finalmente, vai surgir a maturidade, o bom senso, alguma sabedoria, a tranquilidade. Aqui haverá uma réstia de esperança na reconciliação e, quem sabe, a retoma de uma amizade que estaria “enferma”; 
Poderá, então, surgir a humildade, a gratidão, a paz de espírito, porém, quantas vezes, estes nobres sentimentos chegam tarde, muito tarde. Restará, então, desejar ao amigo que nos abandonou que siga o seu rumo, que vá com Deus. Numa frase bem sentida, diremos então: “Vai, vai com Deus, Querido Amigo. Vai, vai com Deus, meu Amor-de-Amigo. Deus te proteja.”
Este amigo, que nos abandonou, que nos trocou, que traiu as nossas esperanças numa amizade duradoura, quantas vezes com argumentos injustos, com a frieza de uma racionalidade cirurgicamente orientada para outras pessoas, outros interesses, outras situações, um dia sofrerá, também ele, a hipocrisia de algumas dessas mesmas pessoas com as quais nos traiu. Então saberá valorizar a grandeza dos nossos valores, sentimentos e dedicação que tivemos para com ele. Surgirá aqui a Reconciliação?
Amigo do coração, especial, responsável por promessas de “Amor-de-Amigo”, para sempre, juras de solidariedade, de amizade, de lealdade, do: “estar do seu lado” e nunca do lado do “Amo e do Servo”, ou “em cima do muro”, onde estás amigo exclusivo, verdadeiro, incondicional? Mas esse amigo existe e todos nós poderemos ter a oportunidade de ganhar um amigo assim, o que é um privilégio, diria mesmo, uma Dádiva Divina e que, por isso mesmo, tudo, mesmo tudo, deveremos fazer para nunca o perder.

Como é maravilhoso, então, podermos ouvir de uma pessoa que consideramos nossa verdadeira amiga, frases como: «Querido Amigo, a minha amizade por si continua a mesma, não estou do lado de Deus e do Diabo ao mesmo tempo, estou sempre do mesmo lado (Deus), em particular do seu, poderá sempre contar comigo, seja a nível pessoal, familiar ou profissional em projetos futuros. Também lhe lanço um desafio, aguardo que no próximo ano lance um Manual de Ciências Sociais (por um especialista em CS)! Aguardo este manual e outros livros que venha a comunicar! Obrigado pela sua amizade pura, sincera e incondicional. Muitos beijos para um amigo especial!» (2012).
É de um amigo puro que precisamos. Um amigo, com as dimensões já identificadas, é suficiente para sermos felizes no campo da amizade. Quem conseguir conquistar e consolidar um amigo destes, não morrerá sozinho no hospital, nem na cadeia, nem no infortúnio e terá as dificuldades da vida muito amenizadas.
Eu quero um amigo destes! Onde encontrá-lo? Onde estás amigo especial? Eu sei onde está: tal amigo reside em quem me quer bem, em quem me é solidário, naquela pessoa que me tem amizade, que me é leal, que confia em mim e que, inequivocamente, está incondicionalmente do meu lado, tanto: na alegria, na felicidade, na prosperidade; como na tristeza, na adversidade e nas contrariedades da vida. Esse amigo existe, certamente, e eu acredito nele.


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal


domingo, 22 de julho de 2018

Confraria de São Bento, Homenageia Fé dos Seixenses


Há cerca de mais de sete anos (abril de 2011) fui confrontado com um repto que me deixou muito aflito e amedrontado. O desafio que me foi colocado primeiro, por um colega de trabalho, depois confirmado e reforçado por uma instituição de imenso prestígio local, nacional e internacional, representativa de valores religiosos que ultrapassam a minha condição de simples mortal, de um pecador que, eventualmente, nem seria merecedor de tal privilégio por parte de quem o convocou para esta nobre missão.
Com efeito, o meu colega Dr. Rui Ramalhosa, teve a gentileza de me sondar sobre a possibilidade de eu escrever "umas coisas", sobre a vida e obra de São Bento de Seixas, conjugadamente com a história da Confraria do venerando Santo, no contexto de uma população residente e emigrante que, convictamente, professa a sua fé em São Bento, tendo, ainda, em atenção quatro grandes dimensões que os escritos deveriam abarcar: religiosa, histórica, profana e filosófica.
Confesso que fiquei, num primeiro momento, bastante confuso e, desde logo, fui invadido pelo receio de que tal exigência poderia ser incompatível com as minhas capacidades, para além de poder vir a resvalar para algum tipo de profanização o que, de todo, eu teria o dever de evitar. Além do mais, eu nunca escrevi nada com a exigência, rigor e fé a que ficaria obrigado, caso aceitasse a "provocação" que então me era dirigida.
Claro que fiquei a pensar no convite, para mim, muito aliciante e, antecipadamente, gratificante, para além de muito honroso, porque eu também sou crente, acredito na santificação de São Bento, por Quem manifesto respeito e crença, apelo à sua intercessão, nos momentos de maior aflição na vida.
Entendi, ainda, este repto como uma oportunidade para galardoar e dignificar São Bento, por tudo o que Ele tem feito por mim, pela minha família e pelas pessoas minhas amigas, para as quais, e sempre que julgo necessário, peço proteção, orientação e sorte na vida. Tenho sido atendido, por isso, também tenho de retribuir.
Este será um primeiro motivo para amadurecer a decisão de aceitar o convite que, amavelmente, me foi, posteriormente, endereçado por todos os membros da Confraria de São Bento de Seixas, numa reunião para o efeito realizada.
Aconselhei-me, entretanto, com algumas pessoas da minha inteira confiança: família, que rejubilou com este dignificante convite e me entusiasmou a aceitar a tarefa. Tive o cuidado de, numa postura ético-cultural, conversar com outro colega da escrita que, numa atitude de grande humildade e solidariedade me deixou à-vontade para iniciar o "trabalho". Troquei, igualmente, impressões com colegas de trabalho que, desde logo, não só me incentivaram como se disponibilizaram para me ajudar no que fosse preciso. Estavam reunidas as condições para avançar.
Desde já devo agradecer todo o apoio que me foi dado pelos membros da Confraria de São Bento, ao me disponibilizarem toda a documentação que tinham em seu poder, pelo acompanhamento que ao longo do trabalho me deram, de forma muito compreensiva, solidária e com permanente incentivo. Sem esta ajuda, provavelmente, não chegaria a este resultado. A estes ilustres membros da Confraria de São Bento de Seixas, aos irmãos e a todos os seixenses, muito obrigado.
Uma palavra de grande gratidão devo-a ao Senhor Padre Ricardo, digníssimo Pároco de Seixas que, me honrou com um prefácio que, na verdade, ultrapassou todas as minhas expetativas, porque não serei a pessoa assim tão merecedora de elogios que, apesar disso, sei serem sinceros, mas devo confessar-lhe que, a sua análise psicológica e religiosa, a meu respeito, corresponde à verdade. Já li imensas vezes o seu generoso prefácio que, a partir de então, passa a ser uma referência na minha vida, que terei muito orgulho em apresentá-la em quaisquer circunstâncias. Muito Obrigado Senhor Padre Ricardo.
Penso que é importante realçar, aqui e agora, a adesão manifestada pelas mais diversas personalidades da nossa vida societária. Registo com muita emoção e orgulho a presença de pessoas que, desempenhando várias e elevadas funções no seio da nossa comunidade local e nacional, também me fazem a gentileza de serem minhas amigas e que eu, humildemente, procuro retribuir. É gratificante sabermos que temos amigos, que eles respondem positivamente aos nossos apelos, para os bons e para os maus momentos da vida. Hoje, é um bom ensejo para todos nós festejarmos S. Bento, e por isso agradeço a vossa generosa presença. Obrigado, estimada/o/s amiga/o/s.
Algumas, muito breves, referências ao "livrinho" que então foi lançado. Nele coloquei, sem qualquer preconceito: toda a minha sensibilidade religiosa; as minhas dificuldades existenciais, as quais e invocando a sabedoria de um dos maiores filósofos de todos os tempos, Sócrates, que tendo vivido entre os anos 469-399 antes de Cristo, portanto há mais de 2.400 anos, manifestava dúvidas, aparentemente, tão simples como estas: "Quem sou, de onde venho, o que faço e para onde vou?". Que cada pessoa reflita profundamente e dê a resposta.
Hoje, em pleno século XXI, não temos a certeza de que a Ciência, a Técnica, a Tecnologia e todos os avanços cognitivos do homem, possam dar respostas concretas, objetivas, observáveis e validadas àquelas interrogações! O HOMEM continua a ser um mistério para si próprio. Ele vive atormentado porque não consegue controlar tudo o que está à sua volta, muito menos dentro de si próprio, nem sequer consegue saber qual será o seu fim último, e quando este vai ocorrer.
Em todo o caso, este mesmo HOMEM, insatisfeito, porque ainda não totalmente realizado, ele continua a considerar-se um ser superior, concebido à imagem do seu Criador, independentemente das suas convicções religiosas, que, no presente livrinho, houve o cuidado de respeitar. É possível que, numa situação-limite, de vida ou de morte, todos nós tenhamos, um pensamento, dirigido a Deus suplicando-Lhe proteção. Não tenhamos vergonha nem preconceitos com os valores religiosos e com eles recorrer à Divindade.
É este HOMEM que, neste livrinho, se invoca, consubstanciado na figura insigne de São Bento, também Este, com todas as suas dificuldades e incompreensões, até dos próprios monges que Ele sempre defendeu, ensinou e repreendeu, quando tinha de o fazer. Também Ele, um homem imperfeito, porém, determinado a seguir o caminho de Deus, um exemplo para a humanidade, padroeiro da Europa Livre e Democrática.
Entretanto e antes de concluir, tenho o dever de vos dizer que, enquanto crente, estou sempre disponível para colaborar com as instituições religiosas, para a realização de trabalhos desta natureza, em prol da defesa de valores que, de alguma forma, e nas mais diversas circunstâncias da vida, por vezes, todos comungamos, com mais ou menos Fé, mas com a esperança na obtenção de soluções que contribuam para a resolução dos nossos problemas.
Quero com isto afirmar que terei muito gosto em trabalhar com as pessoas responsáveis pelas Paróquias, Comissões Fabriqueiras, Confrarias, Juntas de Freguesia e outras instituições ligadas à divulgação e preservação da nossa cultura, dos nossos valores, das nossas tradições, especialmente aquelas de cariz religioso. Penso que Religião, Razão, Ciência, Tecnologia, Ordem e Progresso não são incompatíveis, pelo contrário, complementam-se e dão ao ser humano a sua dimensão superior.
Não poderei deixar passar esta oportunidade para vos confessar que estou muito empenhado em contribuir para que o nosso concelho continue a ser uma referência nacional, nos diversos domínios que mais o caracterizam: o turismo religioso, com as suas festas e romarias, dimensões sagradas e profanas, a gastronomia, as belíssimas paisagens, desde o maravilhoso Rio Minho (ao qual nos referimos neste livrinho que acabamos de lançar com um artigo intitulado: "A Lenda do Rio Minho"), a nossa orla marítima, todo o contexto da serra D'Arga, o artesanato, as tradições seculares das desfolhadas, matança do porco, jogos populares, a pesca, a caça, a agricultura de minifúndio, enfim, um manancial a não se perder, que constitui o nosso mais valioso património natural e construído.
Em consequência e na qualidade de cidadão, natural, criado e residente no Concelho de Caminha, também tenho o dever cívico de dar o meu contributo para engrandecer, ainda mais, este recanto minhoto e manifestar a disponibilidade para prestar a minha cooperação sincera e empenhada.
Nesse sentido tenciono lançar, ainda este ano, 2012 um novo livrinho relacionado com os Direitos Humanos e a Cidadania Participativa, tentando demonstrar a importância da autêntica Cidadania e que, segundo o conceito que me foi ensinado por um meu formando, de 75 anos de idade, eu passei a adoptar, sem reservas. Cidadania é então: «A adaptação da consciência ao exercício de direitos e deveres, em liberdade e com responsabilidade».
Concluo esta minha breve intervenção com um muito e sincero obrigado a todos vós que, cada um à sua maneira, me ajudou a realizar esta obra, a qual, de ora em diante, passa a ser de todos nós; pedir-vos desculpa por, certamente, não corresponder às vossas expetativas, mas também vos garanto que fiz o melhor que sabia e podia; solicitar-vos que adquiram o livrinho, afinal o produto reverterá, integralmente,  para melhoramentos que a Confraria de São Bento irá fazer e, por fim, formular um pedido a São Bento para que nos ilumine a todos nós, que interceda por nós e nos proteja.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal


domingo, 15 de julho de 2018

A Velha Sabedoria

Muitos pensadores têm definido a Filosofia, como a “Velha Sabedoria” ao longo de mais de dois milénios. Alguns responsáveis políticos, e educadores, com maior ou menor ênfase, procuram manter esta área do saber, algumas vezes, em função das intencionalidades ideológicas dos regimes políticos, consagrando-lhe os instrumentos legais e as orientações que em cada época são mais adequados, às situações e aos regimes que as suportam.
Naturalmente que a organização curricular e seus programas, devem obedecer a uma política de educação, delineada nas suas grandes linhas, na Constituição Política do País, nas leis específicas e sua regulamentação. A Filosofia deve inserir-se, inequivocamente, em qualquer política da educação, com objetivos bem definidos e que possam conduzir o homem para as atividades reflexivas, críticas, construtivas e responsáveis, sem demagogias, nem aproveitamentos político-partidários e ideológicos.
O curso elementar de Filosofia, elaborado por A. Ribeiro da Costa e cuja segunda edição data de 1866, da qual se resumiu o capítulo consignado à Filosofia do Direito – Direito Natural, certamente teve em conta as disposições constitucionais portuguesas da época e, possivelmente, os valores e princípios que foram proclamados na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 em França.
Ao longo do período compreendido entre a Revolução Francesa de 1789 e a correspondente tradução na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, do mesmo ano, e a segunda década do século XIX, ou seja, durante cerca de cem anos, Portugal procurou sempre ampliar e aperfeiçoar o seu Direito, através dos instrumentos legais ao dispor dos seus Governantes, quer ao nível constitucional, quer no âmbito educacional.
Filosofia e Direito, parecem “condenados” a complementarem-se, independentemente de setores/áreas de atividade da sociedade humana, aos quais se poderia acrescentar um outro pilar que, de resto, já vem, igualmente, da antiguidade: a Religião. Verifica-se, inclusivamente, nas Constituições Portuguesas, uma forte referência legal ao instituto da religião, ainda que, por vezes, a imparcialidade do Estado não seja uma realidade, quando defende como religião oficial a “Católica, Apostólica, Romana”, não proibindo, embora condicionando quaisquer outras, pelo menos aos estrangeiros, conforme prescreve o «Artº 26º – A Religião Católica, Apostólica, Romana continuará a ser a religião do Reino. Todas as outras religiões serão permitidas aos estrangeiros com o seu culto doméstico, ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de Templo.» (in: PEREIRA, 1993:74)
Acontece que, pese embora o esforço para se compreender a mentalidade da época, hoje, primeiro quarto do século XXI, não é correto conceber uma tal situação discricionária, designadamente no contexto da defesa dos Direitos Humanos e, efetivamente, através do Direito, da Filosofia e da Religião, evolui-se para uma sociedade moderna, tolerante, aberta aos valores e princípios que devem reger, em harmonia, as comunidades restritas e as sociedades alargadas.
A Organização Curricular e Programas de Filosofia para o Ensino Secundário, vem na linha dos grandes Valores e Princípios Constitucionais, em matérias que de facto podem contribuir para o desanuviamento e bem-estar da humanidade, contudo, há a sensação que a Filosofia não estará a ser devidamente considerada por alguma tecnocracia reinante, na medida em que, cada vez mais, há quem valorize as ciências exatas e a técnica, em detrimento das áreas socioculturais. Isto nota-se, de uma forma privilegiada, nas Escolas Profissionais e nos debates e avaliações que nelas ocorrem.
Em todo o caso, parece oportuno e justo destacar, no âmbito deste trabalho, alguns conteúdos programáticos, do Programa de Filosofia para o Ensino Secundário: I – Unidade Inicial – A Intenção Filosófica e a Diversidade dos Saberes: Do vivido ao Pensado; O lugar da Filosofia: II- Unidade Antropológico-Axiológico - A Dinâmica do Ser Humano no Mundo; A Acção e a Questão dos Valores: A Ação Humana; Os Valores; Multiplicidade dos Campos de Valores; Situações/Problemas do Mundo Contemporâneo: Conflito de Gerações; Responsabilidade Ecológica; Busca de Felicidade; Direitos Humanos; Violência e Agressividade; Manipulação e Mass Media; III - Unidade Histórico-Problemática - A Filosofia no Tempo: O Problema da Filosofia e da sua História; Tradição e Inovação em Filosofia
Pode-se aceitar que se trata de um programa interessante, contudo, dificuldades de vária ordem, nomeadamente: carga horária insuficiente, saídas profissionais excessivamente reduzidas (praticamente, para o ensino e que não abrange todos os licenciados), demasiada tecnocracia; maior importância dada ao saber fazer em detrimento do saber-ser e saber-estar, têm contribuído para que a Filosofia em Portugal não ocupe o lugar que por mérito, tradição ancestral e necessidade lhe cabe, de direito e de facto, nas atuais sociedades contemporâneas.
Importa incluir nesta reflexão justamente o que de mais importante sugere a advertência da 2ª. Edição, feita pelo autor do compêndio que se acaba de analisar, destacando-se, a título de reforço da defesa da vitalidade filosófica, a dimensão insubstituível da formação do homem, no início de um novo milénio. Refere A. Ribeiro da Costa: «o corpo da obra encontrarão também os leitores alguns acrescentamentos, tais como, na Introdução, a doutrina relativa à utilidade e relações de Philisophia com as outras sciências, e às condições e elementos da sciência;» (bid.:1)
Depois, mais à frente, sob a epígrafe “Índole e ponto de visa superior da Philosophia”, Ribeiro da Costa, reforça, obviamente, com total autoridade, praticamente, a século e meio do tempo atual, o que se pretende defender na Filosofia, ou seja, a faculdade superior que ela encerra na condução das vidas humanas, e, invocando a necessidade da divisão das ciências, refere a dado passo: «As explicações parciais não satisfazem plenamente; de porquê em porquê o espírito humano vai subsistindo, até chegar à razão última, à unidade ao que se chama synthese. É este ponto de vista superior, esta unidade, esta explicação ou synthese mais geral dos seres, que sempre a philosophia teve por missão achar. Neste sentido, a philosophia, para nos servirmos de uma imagem, é como o espectador que do alto da montanha, abraça com a vista as diversas porções do território, que se estendem até ao horizonte, e sem distinguir a diversidade dos seus produtos e habitantes, vê distinctamente brotar a seus pés as fontes da vida, que animam e vivificam essas diversas regiões.» (Ibid.:3)
Prosseguindo na sua apresentação introdutória, o mesmo autor tenta uma definição de Filosofia, dando, então, a sua posição: «A Philosophia é a sciência que se ocupa de resolver estes três problemas (Quem sou eu? Qual é a minha origem? O porquê da minha existência, ou onde está o meu fim ou o para quê da minha existência); solução que é o ideal a que o homem aspira e do qual se aproxima incessantemente, sem poder jamais chegar à solução completa. Deste modo, a philosophia pode definir-se a sciência que procura expor a natureza, atributos e faculdades das substâncias espirituais, consideradas em si mesmas, e nas suas relações geraes com as outras substâncias.» (Ibid.:7).
Finalmente, conclui a sua introdução, resumindo da seguinte forma: «I. A Philosophia como todas as sciências, provém d’uma inclinação natural que o homem tem de procurar conhecer-se a si e ao que o rodeia; (...) VII. A philosophia é para as outras sciências como o tronco para os ramos da árvore, ou como a vida para os diversos órgãos e funções do organismo humano.» (Ibid,: 12-13).

Bibliografia

COSTA, António Ribeiro da, (1866). Curso Elementar de Philosophia. 2a Ed. Porto: Typographia de António J. S. Teixeira.


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

domingo, 8 de julho de 2018

Remédio Racional


O progresso, no seu conceito mais otimista, correspondendo ao desenvolvimento positivo, sustentado, tendente para um melhor nível e qualidade de vida dos cidadãos, não tem correspondido às justas expetativas da esmagadora maioria da população mundial, pois é sabido que a vala que separa ricos e pobres é cada vez mais larga e funda, na medida em que, muitos dos ricos aumentam desmesurada, e inexplicavelmente, as suas fortunas, enquanto a maioria dos pobres se aproxima, rápida e perigosamente, do limiar da miséria, das diversas formas de exclusão, de situações gritantemente desumanas, sem que se vislumbrem soluções que invertam esta tendência catastrófica.
A vida é cada vez mais agitada e incerta para a maioria das pessoas, para poderem sobreviver com alguma dignidade e conforto material, tentando garantir, àqueles que dela dependem, um mínimo de condições biosociais, relativamente à melhor preservação da vida física, e disporem de uma situação de relativa tranquilidade, no acesso aos bens de primeira necessidade, como: a saúde, a alimentação, a educação, o trabalho, a habitação a cultura.
Os: aparente complexo de superioridade, mesclado com alguma arrogância tecnocrática, que ainda se detetam em alguns profissionais, revela, afinal, que lhes faltam a preparação e formação de base, indispensáveis à pessoa verdadeiramente humana e que, muito embora com mérito, profissionalismo e atualização, resolvam muitos problemas, ao nível do indivíduo e da sociedade, continuam a mostrar-se incompetentes para as questões do foro íntimo das consciências, dos males que perturbam os espíritos, e que conduzem a problemas psico-sociais, para os quais as terapias disponíveis, ao nível das ciências exatas, não têm sido suficientes.
Importa, por isso, que se avance para a interdisciplinaridade entre as ciências exatas, e outros ramos do conhecimento empírico, e da reflexão estruturada, sistematizada e permanente.
Interessa valorizar o conhecimento, que pela conjugação reflexiva e do raciocínio, se vai construindo no espírito de cada pessoa e, posteriormente, desfrutado, discutido e validado, nos aspetos que se compatibilizam com as ciências, as técnicas e tecnologias descobertas, postas à disposição e ao serviço da humanidade, no sentido do bem-comum.
Recolocar a Filosofia no lugar que, desde há mais de 2500 anos, lhe é devido, é uma medida que deve ser tomada, de imediato, por todos quantos têm responsabilidade na educação, formação e bem-estar das pessoas, desde já o bem-estar emocional, psicológico, intelectual e social.
O estudo e reflexão sobre as questões levantadas, pertinentemente, pela Filosofia, por vezes, incomodam, principalmente aqueles que nos últimos séculos a têm desvalorizado, menosprezado e tentado eliminá-la, contudo, dois milénios e meio de vida, de intervenção, de intromissão responsável noutros domínios, garantem a sua credibilidade, pelo menos no que respeita à discussão dos problemas que afetam o homem: individualmente considerado; e toda a sociedade em geral, independentemente das culturas, das civilizações, das religiões. A Filosofia é transversal à humanidade e, talvez, também por isso mesmo, suscite polémicas, ódios, eventualmente, a sua própria negação.
Seguramente que a Filosofia não é nada disto, e os filósofos não querem, nunca o manifestaram e pensa-se que jamais o evidenciarão, que se enclausure, numa redoma dogmática, que conduziria à morte intelectual do homem, porque: Filosofia é vida, é contestação, é democracia; é liberdade, é igualdade e é fraternidade. Filosofia enquanto pensamento livre, alternativa, crítica, contestação ordeira, dúvida metódica.
Filosofia na origem do pensamento visionário, utópico, mas também realidade, pragmatismo e construção ideológica de sistemas, valores e princípios. Filosofia do comportamento ético-moral, da fixação de regras deontológicas. Enfim, Filosofia como companheira da ciência, da técnica, da tecnologia, da religião, da política, da cultura e da arte. Filosofia como marca indelével da pessoa humana.
Uma vida equilibrada não dispensa a reflexão, como pressupõe o exercício e a participação na atividade política democrática, no seio do povo, com o povo e para o povo. Praticamente, todos os problemas que afetam a existência humana, coletivamente considerada, e/ou individualmente analisada, encontram a solução nas decisões políticas, maduramente ponderadas, refletidas e avaliadas.
Os recursos, os meios, as metodologias encontram-se numa profunda, justa e adequada reflexão sobre cada situação. Filosofia, Ciência, Técnica e Democracia devem, portanto, continuar a trabalhar em conjunto, visando objetivos racionais, exequíveis de serem atingidos, e potencializadores para uma vida-boa.
O ponto de partida para uma vida-boa poderá estabelecer-se numa filosofia geral de vida, através das diversas especializações filosóficas, e domínios das ciências sociais – axiologia, ética, estética, filosofias da: educação, saúde, trabalho; religião; antropologia, psicologia, sociologia, direito, história, política, economia, entre outras áreas disciplinares que tocam aspetos sociais.
Importa, neste Receituário Filosófico para uma vida-boa, considerar as reflexões que conduzam à idealização e implementação de projetos verdadeiramente humanistas, porque os beneficiários diretos são os indivíduos humanos, mas também, outros seres que coabitam com a pessoa humana.
A Filosofia poderá constituir, nos tempos modernos, conturbados, violentos e impregnados de injustiças, e de ódios, uma forte alternativa para a resolução de conflitos pessoais, comunitários e internacionais.
A Filosofia não tem pretensões a um estatuto científico e, possivelmente, nem haverá benefícios com a introdução de novos conceitos ou objetivos e, reciprocamente, a seu respeito, além de que, nem tudo o que é, alegadamente, científico e técnico, constitui o melhor processo para resolver determinadas situações.
O mundo humano vive um período conturbado, onde a força das armas, dos interesses materiais e das grandes concentrações, quaisquer que elas sejam, perturbam toda uma humanidade, que já não tem força para fazer prevalecer o diálogo racional, moderado, apaziguador, embora se continue a acreditar numa oportunidade que possibilite alterar o rumo que muitos dirigentes mundiais, suportados num poderio bélico, económico, estratégico, político ou religioso, têm vindo a imprimir, a partir das suas próprias comunidades.
Tudo funciona à volta de interesses: dos mais nobres e altruístas; aos mais inconfessáveis desígnios; poucos, dão importância ao diálogo, às soluções pacíficas, ao pensamento dos filósofos, e às propostas que apresentam para ajudar a solucionar os mais complexos problemas; muitos outros, rejeitam a sabedoria dos mais velhos, a prudência dos mais experientes, alegadamente, porque estarão desatualizados, porque são idosos e o seu tempo passou.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


domingo, 1 de julho de 2018

Aplicações Filosóficas


O ponto de partida para uma vida-boa poderá estabelecer-se numa filosofia geral de existência, através das diversas especializações filosóficas, e domínios das ciências sociais – axiologia, ética, estética, filosofias da: educação, saúde, trabalho; religião, antropologia, psicologia, sociologia, direito, história, economia, entre outras áreas disciplinares que tocam aspetos sociais.
Importa, neste receituário filosófico, para uma vida-boa, considerar as reflexões que conduzam à idealização e implementação de projetos verdadeiramente humanistas, porque os beneficiários diretos são os indivíduos humanos, bem como, outros seres que coabitam com a pessoa humana.
A ciência, a técnica, a tecnologia e seus instrumentos são condições Indispensáveis para o sucesso das teorias e das críticas, produzidas pela reflexão filosófica, contudo, interessa dotar cada pessoa, desde o seu nascimento à sua morte biológica, da capacidade de pensar, livre e responsavelmente, numa perspetiva de construção de uma sociedade moderna, confortável, tolerante, solidária, produtiva e justa.
A aproximação dos polos, e/ou situações antagónicas, é um processo complexo, difícil, imprevisível nos seus resultados e moroso, mas impõe-se tentar implementá-lo, melhorá-lo e avaliá-lo permanentemente e, em face da necessária apreciação, corrigir se a tal houver essa carência.
Recorre-se muito pouco e, em culturas tecnocratas, positivistas e científicas, quase nada, aos “remédios” produzidos pela filosofia do espírito: seja por preconceito; seja por descrença; seja ainda por alegada superioridade e eficácia de alguns dos outros ramos do saber e da ciência.
A verdade, porém, é que não está provado, pelo menos ao nível da ciência e da técnica, que a reflexão filosófica seja prejudicial à resolução de um qualquer problema individual, ou mesmo coletivo. Pelo contrário, quantas soluções se têm encontrado, para diversos problemas, após longas e produtivas reflexões, discussões, críticas, contracríticas e opiniões, filosoficamente fundamentadas?
Seguramente que em todos os domínios, quando há debate (democrático e intelectualmente honesto), as melhores soluções aparecem, são aplicadas e os resultados obtidos, normalmente, configuram-se como os melhores. A Filosofia poderá constituir, nos tempos modernos, conturbados, violentos e impregnados de injustiças e de ódios, uma forte alternativa para a resolução de conflitos pessoais, comunitários e internacionais.
A Filosofia não tem pretensões a um estatuto científico, possivelmente, nem haverá benefícios com a introdução de novos conceitos ou objetivos e, reciprocamente, a seu respeito, além de que, nem tudo o que é, alegadamente, científico e técnico, constitui o melhor processo, para resolver determinadas situações.
Por vezes, são os especialistas mais liberais que, perante problemas do foro mais íntimo das pessoas, aconselham outros “caminhos”, outras “alternativas”, porém, sem indicar quais, porque se o fizessem, estariam a reconhecer, de alguma forma, estatuto idêntico, ou superior aos seus.
Será muito difícil, ou mesmo improvável, ouvir um cientista ou um técnico dos domínios das ciências, ditas exatas, ou do positivismo materialista, sugerir uma consulta filosófica (embora aconselhe, se for o caso, uma consulta de psicologia, psiquiatria, sociologia, etc.), para solucionar uma situação não estudada pelo método científico tradicional: observação, experimentação, formulação da hipótese e verificação.
A Filosofia Clínica, está, porém, a ganhar “terreno”, no domínio científico: «…foi criada em fins da década de 1980, pelo psicanalista e filósofo Lúcio Packter, no Rio Grande do Sul. Segundo Packter, a Filosofia Clínica "direciona e elabora, a partir da metodologia filosófica, procedimentos de diagnose e tratamento endereçados a questões existenciais encontradas em hospitais, clínicas, escolas e ambulatórios. Técnicas que diferem dos métodos e fundamentos da Psicologia, da Psiquiatria e da Psicanálise: não existe o conceito de normalidade, de patologia; não existem concepções a priori como ‘o homem é um ser social’, ‘o homem busca a felicidade’. Tudo parte da historicidade da pessoa atendida, percorrendo-se desde o logicismo formal até a epistemologia nas questões focadas no diagnóstico dos problemas.» (PACKTER, 2001).
O preconceito antifilosófico existe, ainda que envergonhadamente encapuzado, precisamente por muitos daqueles que, na sua formação superior, tiveram de estudar alguma variante da filosofia, como por exemplo: Filosofia do Direito, Filosofia da Educação; Filosofia da Saúde; Filosofia do Ambiente; Ética e Deontologia Profissional (Filosofia dos Deveres Profissionais), Axiologia (Filosofia dos Valores), Filosofia Política, entre outras disciplinas.
Possivelmente estes cientistas, técnicos, profissionais e executores, quantas vezes já terão recorrido aos ensinamentos e à sabedoria milenar que receberam através da disciplina de Filosofia, e suas variantes que, eventualmente, tenham frequentado, durante o seu itinerário académico, embora, o tal preconceito da “inutilidade” da Filosofia, leve a que nem todos os cursos beneficiem deste ramo do saber, tão importante nos dias de hoje.
Nesta linha de pensamento regista-se o que já se vai fazendo, por exemplo em terras de “Vera Cruz”, a propósito da importância da Filosofia, na formação da pessoa, como na resolução de problemas: «O trabalho filosófico, visto em sua objetividade como o conjunto de formas de expressão cultural e acadêmica, já tem, pois, significativo desenvolvimento no Brasil das últimas décadas. A Filosofia entre nós já não se limita aos escolásticos ambientes dos conventos e seminários nem às iniciativas isoladas de pensadores positivistas. Expandiu-se em todas as instituições de ensino públicas e privadas, nos vários graus, em cursos específicos ou integrando, sob a forma de disciplinas filosóficas, os currículos de cursos de outras áreas do ensino superior. Por outro lado, com a implantação do sistema de pós-graduação no país, vários centros de pesquisa se consolidaram, muitos projectos de estudo e de investigação filosófica foram e estão sendo desenvolvidos, contando, inclusive, com o apoio institucional dos poderes públicos. Tudo isso tem contribuído para que se consolidem, igualmente, uma tradição de pesquisa.» (SEVERINO, 1999: contra-capa)
O mundo humano vive um período conturbado, onde a força das armas, dos interesses materiais e das grandes concentrações, quaisquer que elas sejam, perturbam toda uma humanidade que já não tem força para fazer prevalecer o diálogo racional, moderado, apaziguador, embora se continue a acreditar numa oportunidade que possibilite alterar o rumo que muitos dirigentes mundiais, suportados num poderio bélico, económico, estratégico, político ou religioso, têm vindo a imprimir a partir das suas próprias comunidades.
Tudo funciona à volta de interesses, dos mais nobres e altruístas aos mais inconfessáveis desígnios. Poucos dão importância ao diálogo, às soluções pacíficas, ao pensamento dos filósofos, e às propostas que apresentam, para ajudar a solucionar os mais complexos problemas, muitos outros rejeitam a sabedoria dos mais velhos, a prudência dos mais experientes, alegadamente, porque estarão desatualizados, porque são idosos e o seu tempo passou.
O resultado de todo um ostracismo à Filosofia está à vista, e pode ser entendido por um qualquer leigo, ao qual, porém, não se pode pedir explicações, contudo, outro tanto não acontece com aqueles que, considerando-se especialistas de uma parte da realidade, rejeitam, complexadamente, outras alternativas que sejam oriundas da Filosofia.
A prova, mais que científica, que a Filosofia é necessária ao mundo e às pessoas, regista-se no elevado número de conflitos nacionais e internacionais. O sentido do filosofar torna-se, assim, um imperativo categórico universal porque: «O discurso filosófico é necessariamente um discurso sobre o ser, enquanto fundamento de todas as coisas. Na sua inquirição sobre a inteligibilidade radical do mundo, do homem e de Deus, versa o fundamento do valor da verdade do conhecimento e do valor da bondade da ação humana. E o fundamento de todo o valor é o ser. (Ibid:43).
Também, numa perspetiva do ser-cidadão: «… o ser-sujeito é o cidadão-consciente dos seus direitos e deveres – ser que reivindica, que luta por superar a dependência, ser responsável, capaz de compreender a cidadania como participação social e política, ser capaz de assumir seus deveres políticos, civis e sociais, adoptando no dia-a-dia, atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças…» (GONÇALVES, 1999:13).

Bibliografia


GONÇALVES, Francisca dos Santos (Org.), (1999). Formação do ser-sujeito: desafio à prática da cidadania, Belo Horizonte: Imprensa Universitária/UFMG.
PACKTER, Lúcio. (2001). Filosofia Clínica: propedêutica. 3ª Ed. Florianópolis: Garapuvu. (in: http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_cl%C3%ADnica).
SEVERINO, Antônio Joaquim, (1999). A Filosofia Contemporânea do Brasil, Petrópolis: Vozes


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do NALAP - Núcleo  Académico de Letras e Artes de Portugal