domingo, 20 de maio de 2018

Expressão que por Insuficiência, ou Excesso, Pretende e não Atinge a Arte

O significado da retórica vai ser aqui utilizado: primeiro, no seu sentido pejorativo, mais corrupto e, portanto, pode ser usado pelo músico, pelo escultor, pelo escritor, quando as suas artes são menos sinceras, mais pretensiosas.
A Retórica é, portanto, uma forma de expressão, diferente da expressão vital, e da expressão mística, a arte-pela-arte, segundo alguns, expressão retórica, defende RÉGIO, que considera: «Produto de um esforço e de um talento desacompanhados da necessária riqueza humana, vital, do sujeito.» (1980:51).
Há quem pense que o cultor da retórica é complicado, enfático e falso, ao contrário do verdadeiro artista, por isso, dizem, a expressão retórica é tão excessiva quanto deficiente, facto que face às suas produções nos leva, facilmente, a distinguir o fundo e a forma, o poeta e o artista.
Qualquer obra de arte denota as suas insuficiências e desequilíbrios, a partir da distinção entre fundo e forma, porque a obra de arte é exatamente uma síntese, uma unificação, uma solução do problema, posto por tal dualidade, isto é, uma solução que se baste e nos basta, ou seja, a “arte-pela-arte”, mas, a expressão retórica não chega, e por isso ela é insuficiente para ser arte, porque o que opõe a expressão artística à expressão retórica é que: aquela basta-se; e esta não, e o que permite aquela bastar-se é a sua dificuldade real de distinção entre fundo e forma, é ser ela uma unificação, uma síntese.
A dificuldade de distinção gera o equilíbrio, a correspondência profunda no criador de uma expressão vital, e uma expressão artística. A Retórica resulta da aspiração a grande artista do homem médio, o qual vai gerar a expressão Retórica que, por sua vez, vai simular a expressão artística, afigurando-se pobre e banal a experiência destes homens, logo, o seu fundo será, necessariamente, insuficiente, o desequilíbrio interno evidente, nítida a distinção entre fundo e forma.
Não poderemos exigir arte a quem não tem uma expressão vital individual, não deveremos exigir romances épicos da vida coletiva a um psicólogo do individual, porque de contrário teremos a falsidade da arte, expressão retórica, simulação daquela arte humana, que só a verdadeira arte pode dar.
Finalmente, a palavra retórica tomada no seu sentido mais puro, referir-se-á aos documentos que, não sendo arte, tão-pouco o pretendem ser, tais como compêndios de ensino, uma cópia fiel de qualquer quadro célebre, uma reprodução escultórica, poderão ser exemplos de expressão retórica no melhor sentido e, alargado o significado do vocábulo a ramos de arte, que não só a palavra escrita ou falada.
Os três aspetos da expressão – vital, mística e retórica – todos coexistentes numa mesma sociedade, em nada se podem equiparar à expressão artística, porque: ou ficam aquém, ou além, ou pretendem e não conseguem essa mesma expressão artística.
A expressão artística é, então, uma intenção profunda e jogo, imitação aparente e transfiguração do real. Sendo movimentos, sons, palavras, linhas, cores, volumes, a arte é um jogo que nos agrada enquanto desperta o bom gosto, o lindo, o formoso, enfim, o belo, segundo a formação íntima do recetor dessa obra de arte, ou seja, ser dotado de uma expressão vital profunda, embora o senso de obra de arte esteja reduzido ao mínimo, ou, pelo contrário, ser o apreciador da obra de arte um intelectual, alheio às vivências da vida, mas profundamente culto nas questões do teatro, um fino especialista nessa arte.
Assim: para o primeiro espetador, impõem-se os aspetos referentes à expressão vital, que se relaciona com a intenção profunda da arte, de fixação e comunicação; enquanto que, ao segundo espetador, pelo contrário, impõem-se os pormenores que, sendo jogo, opera sobre a realidade imitada, uma transfiguração do real, portanto, a arte é: intenção profunda e jogo; imitação e transfiguração do real; premeditação logo, na sua criação.
A arte não é um bloco hermético, uno e individual, mas pelo contrário, é uma multiplicidade de combinações, que no seu conjunto formam a totalidade do ser interior, cada ramo de arte há-de contribuir para o todo que é a arte, segundo o fim que o artista se propõe focar e comunicar.
Mas a arte tanto serve para enaltecer e divulgar a dignidade humana, pois ela é um produto do homem; como também é utilizada para fins específicos doutras atividades e: «seriam simplesmente ridículos a não serem perigosos por usarem de todos os meios, incluindo a violência e a difamação, quaisquer pretensões à imposição de qualquer vontade externa a vontade involuntária do artista criador.» (Ibid.:72).
A expressão artística é mediata, indireta, joga com elementos de vária ordem, implica escolha e é profundamente tendenciosa, porque se propõe fixar e comunicar; pelo contrário, a expressão mística é constituída pelas experiências incomunicáveis, inexprimíveis, silêncio e passividade, êxtase e inibição; por fim, existe uma outra expressão: a retórica, que pretende ser arte, mas que devido à distinção que opera entre estilo e ideia, forma e fundo, não chega a ser arte por insuficiente; nem chega a ser arte por excessiva fragmentação do ser total e interior.
A verdadeira arte está na coadjuvação entre a expressão e o expresso, em que o estilo é o homem, em que o grande artista é aquele que tem uma vida interior profunda, rica e intensa. Toda a arte começa por ser imitação da vida.
A terminar, poder-se-á afirmar e ainda com RÉGIO, que a arte é: «Uma expressão transfiguradora da mera expressão vital, um jogo em que se revelam todas as fundas intenções do homem» mais: «Toda a arte subentende comunicação (…) visa ao universal e ao eterno (…) a expressão vital e as intenções profundas (…) pertencem a todos os homens, de todos os tempos e lugares. Eis como toda a verdadeira arte é humana.» (Ibid.77-78)

Bibliografia

RÉGIO, José, (1980). Três Ensaios sobre a Arte. Em Torno da Expressão Artística. 2ª Ed. Porto: Brasília Editora.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


sábado, 12 de maio de 2018

Confiança e Expectativa em Fátima

Tanto quanto se julga saber e, relativamente ao que a ciência e a técnica têm evoluído, a verdade é que o ser humano tem caraterísticas inefáveis que, provavelmente, nenhum outro animal possui. A dimensão espiritual, por exemplo, sempre esteve presente na pessoa humana, que por sua vez, e na maior parte dos indivíduos, remete para a crença e prática religiosas.
Realmente, somos diferentes, somos seres superiores, pelo menos em relação aos restantes animais conhecidos. Construímos, praticamente, tudo o que necessitamos para o nosso bem-estar, naturalmente com as limitações que a Força da Natureza nos impõe e também porque, é bom reconhecer, ainda não somos perfeitos, nem sequer totalmente autossuficientes, mas caminhamos para alcançar objetivos que nenhum outro ser terrestre conseguirá.
A religião é uma prerrogativa do ser humano crente, embora os não-crentes, reconheçam esta dimensão, contudo, sem a praticar. Ser moderadamente religioso, crente, ter Fé e Esperança, num Ente Divino, não fará mal a ninguém, pelo contrário, talvez possibilite viver-se com alguma serenidade e, simultaneamente, a esperança de se conseguir a solução para algo que nos possa afligir num dado momento da vida, porque todos nós, experienciamos altos e baixos na nossa existência.
Nenhuma outra atividade, nem mesmo as desportivas, move tantas pessoas como a Religião em geral e, a Fé e a Esperança em Nossa Senhora de Fátima, a cujo Santuário, em Fátima, num só dia podem acorrer mais de meio milhão de fiéis, o que, de alguma forma, revela que quanto tudo falha, nomeadamente a ciência, a técnica e a tecnologia e outros meios menos “claros” ou, se se preferir, “esotéricos”, as pessoas se voltam para Maria e lhe “imploram”, ajuda e proteção.
Como seria bom que, entre os limites da ciência e da religião, a humanidade se entendesse para: o desenvolvimento, o trabalho, a justiça social, o amor, a felicidade e a paz. Acredita-se que entre a ciência e a religião, não haverá incompatibilidades, talvez, ainda, alguns “complexos”, algumas reticências em aceitar a religião como mais um “veículo” para a humanidade viver melhor.
Naturalmente que nenhuma destas dimensões, eminentemente humanas, pode ser radicalizada, fanatizada, pretendendo: uma, ser superior à outra, porque quando se envereda por posições extremadas, normalmente, o resultado é mau para as pessoas, gerando-se e alimentando-se conflitos, guerras e outras situações que atingem vítimas humanas inocentes, que nunca tiveram nenhum envolvimento nas causas que deram origem às contendas bélicas.
A intercessão de Maria é, portanto, tão necessária e compreensível como outros “expedientes” a que muitas pessoas “recorrem”. Com Ela, com Maria, porém, existe sempre a possibilidade de “conversarmos”, orarmos e pedirmos apoio e resguardo, com Fé e Esperança, de que poderemos ser “atendidos”, embora nem sempre assim se verifique.
Neste treze de maio, saudemos, oremos e agradeçamos a Nossa Senhora de Fátima, para que haja paz no mundo, para que proteja os milhões de migrantes, refugiados, expatriados e toda a sorte de pessoas fragilizadas, marginalizadas e perdidas no rumo da existência errática, devido às vicissitudes da vida, do desequilíbrio de milhares de indivíduos, alienados pelos fanatismos: políticos, religiosos, económicos, financeiros, estratégicos e bélicos, entre outros.
É essencial que tenhamos Fé e Esperança em Nossa Senhora de Fátima, Maria, Mãe de Jesus, para que possamos ajudar a encontrar as melhores soluções para acabar: com as injustiças, com as perseguições, com a dor e sofrimento e, todos juntos, consigamos ter uma vida, verdadeiramente digna da pessoa humana.


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


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domingo, 6 de maio de 2018

Mãe. A Supremacia do Amor

Todos os dias do ano, das nossas vidas e da história, serão sempre muito poucos para enaltecer e homenagear as múltiplas e profundas dimensões da mulher porque, paulatinamente, com o decorrer dos séculos, a sua influência benéfica tem vindo a fazer-se sentir, bem como o desejo para que ela se posicione no lugar, a que por mérito próprio, tem direito no seio da sociedade, é cada vez mais evidenciado, principalmente por todos aqueles que, sem preconceitos, com toda a humildade e gratidão, reconhecem a insubstituabilidade daquele ser humano maravilhoso.

A Mulher vem assumindo, com espírito de tolerância, também de firmeza, a posição merecida de, em todos os domínios, estar ao lado do Homem, partilhando valores, sentimentos, emoções e funções profissionais, numa sociedade muito exigente, extremamente competitiva, todavia ainda muito dominada por um certo setor masculino que, receando perder prerrogativas, continua, de forma muito sub-reptícia, algo velada e envergonhada, a conceber normas jurídico-legais, para controlar os sistemas: político, religioso, empresarial e ainda familiar, em muitos lares, para evitar a justa ascensão da Mulher.
Entre as muitas e sublimes dimensões que a Mulher assume na sociedade, provavelmente a sua condição de Mãe (quando realmente o deseja e consegue) será, porventura, o seu, ou pelo menos, um dos seus expoentes máximos, porque para além das inúmeras tarefas, difíceis e, quantas vezes, incompreendidas, que quase sempre tem de desempenhar, ela é a única pessoa a poder atingir tão grande felicidade: gerar e dar à luz um filho, com sofrimento, alegria e amor, mas também como resultado da sua entrega generosa a um homem que igualmente ama (ou já amou). Impossível igualar uma relação tão profunda.
Ser Mãe em toda a sua plenitude de Mulher, verdadeiramente humana, em todo o seu esplendor, é uma condição que algum outro ser poderá igualar ou substituir porque, em bora verdade, não só a constituição biológica como a sensibilidade sentimental, são caraterísticas que existem genuinamente na Mulher e, além disso, ela comporta uma intuição muito apurada para a proteção do/s seu/s filho/s, tornando-se pouco credível que ela possa ser substituída a partir da conceção e aplicação de leis.
Importa refletir: positivamente, sobre a importância, que em nossos dias, significa ter Mãe; interessa meditar, profundamente, no contributo que a Mulher-Mãe dá à humanidade, no sentido da criação, educação e formação que ela proporciona aos sues filhos, em vista da necessidade de uma sociedade equilibrada: em princípios, valores, sentimentos, emoções e desenvolvimento harmonioso da pessoa humana.
Mas também é necessário que se valorize, se proteja e se concedam às Mulheres condições para que elas possam exercer o seu papel maior, que é ser Mãe porque, afinal, a Mãe é, por um conjunto de qualidades, capacidades, virtudes, valores e sentimentos, o centro da família, a moderadora, a protetora, a administradora, a educadora, a apaziguadora, a única que, paciente e generosamente, sabe escutar, harmonizar posições dos restantes elementos da família, encobrir quando é necessário amparar.
A família, sendo a base e a principal célula da sociedade, será tanto mais responsável por um mundo justo, quanto melhor for a preparação dos seus elementos constituintes, sendo certo que a figura maternal, quando verdadeira e humanamente existe, é decisiva para a interiorização, realização e consolidação de valores e boas práticas comunitárias, precisamente a partir da intervenção sensata e amorosa da Mãe.
O poder matriarcal, no seio da família, será um fator de estabilidade, uma garantia de compreensão e tolerância, perante situações anormais provocadas, ou não, por algum elemento do agregado familiar, será fonte de amor, de carinho e de aconchego, finalmente, significará o poder moderador, conciliador e solucionador de conflitos. O poder da Mãe impõe-se pelas suas virtudes, valores e sentimentos naturais, não é conquistado pela força, nem pelo divisionismo da família, e muito menos pela intervenção e intromissão de elementos estranhos.
Conhece-se bem o papel da Mãe na criação, educação e preparação para a vida dos seus filhos, pelos quais tudo faz, até ao limite dos maiores sacrifícios. A credibilidade da Mãe e o reconhecimento da sua necessidade formal e prática são de tal maneira visíveis e aceites que, em grande parte das separações matrimoniais, quando há filhos, estes são entregues à guarda da Mãe, naturalmente, com algumas exceções bem fundamentadas.
Igualmente se julga saber que o abandono dos filhos, por parte do pai, é muito maior do que pela Mãe, como também parece um dado adquirido que, na maior parte das situações, são os avós maternos que apoiam a mãe na criação e educação dos filhos, podendo-se inferir que, em regra, os pais, aqui reportados aos homens, são menos responsáveis do que as mães, em muitas situações, designadamente: por imaturidade, por egocentrismo, por não serem capazes de abdicar de certos vícios e formas de vida.
É indiscutível que há muitas e boas exceções, como também é verdade que existem mães que se revelam incapazes para cuidar dos seus filhos, nalguns casos, porém, sem terem qualquer culpa, porque são surpreendidas por homens e/ou jovens sem quaisquer princípios, valores e sentimentos humanos.
O exercício das funções de Mãe, quando assumido em todas as suas dimensões, enfrentando diferentes e complexas dificuldades, revela bem a grandeza desta condição sublime da Mulher-Mãe, eminentemente feminina, e que por tudo isto deveria ser mais respeitada, mais protegida, mais reconhecida nos seus direitos, enquanto Mulher, Cidadã e Trabalhadora.


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


terça-feira, 1 de maio de 2018

Trabalhador: a força reivindicativa

O “Dia do Trabalhador”, comemorado no primeiro de maio, principalmente nos países democráticos, constitui um marco histórico na libertação da mulher e do homem: da escravatura salarial, da prepotência patronal e da reivindicação por melhores condições de trabalho, com garantias de uma velhice tranquila e materialmente confortável, porque ninguém deve iludir-se quanto ao futuro que, salvo alguma situação imprevisível, a maioria deseja atingir idade provecta e usufrui-la com dignidade.
É normal que os trabalhadores lutem por melhores dias laborais, em todos os sentidos e, independentemente das qualificações que possuam, sejam: intelectuais, cientistas, liberais, operários, agricultores, pescadores, mineiros, funcionários públicos, militares, policias, entre outras profissões.
É justo, e será legítimo e legal, que recorram a todos os meios para fazerem valer as suas pretensões, porém, e sempre que possível, minimizando os prejuízos aos colegas de outros setores, principalmente quando optam pelo instrumento mais incisivo, a grave que, sabendo-se o seu objetivo, é precisamente, causar danos e demonstrar que aquele grupo de profissionais faz falta à sociedade.
Neste “Dia do Trabalhador”, convém recordar que ele, em qualquer atividade profissional, é parte da máquina do progresso, cada um contribuindo com a sua quota-parte de tempo, de conhecimentos e de prática, sem o que: cada empresário, patrões, chefias e outros interventores de topo, não teriam sucesso, ou então não continuariam a progredir numa determinada carreira.
Talvez interesse aqui referir que, por vezes, afigura-se existir algum afastamento, e até mesmo insensibilidade por parte de determinados trabalhadores no ativo, quando desencadeiam greves, para conseguirem melhores condições gerais pelo trabalho que realizam e, raramente, se lembram daqueles que, estando agora na reforma, já contribuíram para manter a empresa, onde os atuais têm os seus postos de trabalho, e até em melhores condições.
Verifica-se que nem sempre haverá solidariedade dos trabalhadores no ativo para com os colegas reformados. Raramente ocorre uma greve, ou uma qualquer outra forma de luta, dos trabalhadores ainda em funções, a favor daqueles que, atualmente, aposentados, vivem com magras reformas. Esta mentalidade que poderá revelar desconsideração pelos ex-colegas, em nada favorece a imagem de quem está no ativo que, afinal, também descartam aqueles que, eventualmente, no passado os tenha ajudado a entrar para a sua empresa, para a função pública, enfim, os tenha apoiado e obterem um emprego.
O “Dia do Trabalhador” também deve ser aproveitado, não só para manifestações, como também para refletir na situação que tendo sido trabalhadores, agora, grande parte, estão votados ao ostracismo. Neste dia, feriado nacional, consagrado ao trabalhador, não se pode ignorar, pelo contrário, quem trabalhou uma vida inteira e contribuiu para um país melhor, sofrendo na pele, quantas vezes, a humilhação, a repressão, a perseguição, para que hoje se possa comemorar este dia. Seria bom que nenhum trabalhador esquecesse o passado de seus avós, pais, parentes, amigos e conhecidos.
Neste primeiro de maio, deseja-se que a população: quem trabalha; quem está a chegar ao mundo do trabalho e os que já deram décadas das suas vidas, deem as mãos para que haja mais união, mais solidariedade e mais reivindicações globais, para que possamos usufruir de melhores condições de vida. Na verdade, não pode haver portugueses de primeira e de segunda classes.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


sábado, 28 de abril de 2018

Uma Expressão Existe Que Transcende a Arte

Podemos encontrá-la no misticismo, isto é, na atitude que conduz a pessoa ao êxtase, à profundeza dos seus sentimentos, ao elevar-se das suas aspirações, ao fervor com que defende as suas convicções.

O místico manifesta, também ele, uma expressão vital em todos os atos objeto da sua sinceridade, mas é uma expressão vital de tal forma profunda e concentrada, que em nada se assemelha àquela outra expressão vital espontânea, desarticulada, irrefletida.
Assim, e a título de exemplo, o autor investigado alude que «… pela sua intensidade e profundeza, pode o amor místico inspirar (…) acentos cuja vibração ultrapasse a da mais viva expressão do amor humano; da própria expressão ou paixão sensual.» (RÉGIO, 1980:33). Um místico pode coexistir no artista e, nesta situação, poderia dar expressão artística às suas experiências místicas, mas é como artista que ele exprimirá o seu misticismo, mas nunca, simultaneamente, as duas atitudes, isto é, místico e artista.
A expressão mística transcende a expressão artística, porque o místico deixará de o ser, quando tentar explicar e comunicar aos homens aquele estado tão íntimo em que se encontra, sempre que em silêncio, ou em oração, muda perante Deus, ou num envolvimento de Graça com Deus, enfim, sempre que numa dádiva profunda e entrega total a Deus, porque tais expressões, profundamente íntimas, não são traduzíveis pela arte, não são explicáveis, nem comunicáveis para os vulgares humanos, por mais artísticas que sejam.
O conceito de místico, até agora discutido é, talvez, demasiado seletivo, e por isso, se degradarmos um pouco tal conceito, então, poderemos admitir o artista místico, se ele realiza a sua obra a partir de uma vida intensa e profunda, de autêntica inspiração, encontrando-se tais estados envolvidos em algum mistério, deixando, porém, de o ser quando o artista se mistura à vida, e desta adquire uma experiência que vai permitir-lhe realizar uma obra, para cuja concretização se tem de especializar, ou seja, separar-se e elevar-se da vida, encerrar-se numa “torre de marfim”, e esquecer tudo o que não seja aquela realização.
Ora, o autor considera que: «sem torre de marfim não chegaria a haver expressão conseguida, obra de arte realizada. Sem a descida à vida, nem essa expressão seria expressão artística: pois seria o continente sem conteúdo, a expressão sem o expresso – expressão retórica em seu sentido pejorativo.» (Ibid. 43).

Bibliografia

RÉGIO, José, (1980). Três Ensaios sobre a Arte. Em Torno da Expressão Artística. 2ª Ed. Porto: Brasília Editora.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
  

terça-feira, 24 de abril de 2018

Honrar a Democracia


É crível que a maioria dos países do mundo, possuam os seus dias simbólicos, alusivos a efemérides que, de algum modo, tenham marcado a História, o Povo, a Cultura dessa Comunidade nacional como, igualmente, se recordam os dias internacionais e mundiais, a propósito de acontecimentos marcantes para a Humanidade. Comemorar tais eventos, com objetivos histórico-pedagógicos, poderá ser importante para corrigirmos o que foi mal feito no passado, e/ou melhorarmos para o presente.
Portugal não foge à regra e, a História nacional, de quase nove séculos de independência, apesar do domínio Filipino Espanhol de 1580-1640, é bem rica em acontecimentos, desde a subida ao trono português do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, em 1143, aos dias de hoje, primeiro quarto do século XXI.
Os Portugueses: consolidaram-se no tempo e no seu espaço territorial continental e Regiões Autónomas da Madeira e Açores; na sua História; na sua Língua, esta, uma das seis mais faladas em todo o mundo, um idioma considerado e assumido oficialmente nos grandes areópagos mundiais; na sua Cultura; na Política Democrática; e na Religião, ainda, maioritariamente, Católica.
O Povo Português vive, há várias décadas, numa Democracia representativa, sob as regras de uma Constituição progressista e, indubitavelmente, uma das mais avançadas do mundo, ao nível dos valores humanistas. A Liberdade, nas suas diferentes dimensões é, praticamente, total, porque, em geral: é possível as pessoas desenvolverem as suas atividades sociais, profissionais, políticas, religiosas e culturais; constituírem-se em associações legítimas e legais; expressarem-se sobre o que entenderem; manifestarem a sua concordância ou divergência, sobre os mais diversos assuntos.
Os Portugueses já iniciaram o período correspondente à quinta década da vivência democrática, sempre com elevado civismo, grande maturidade política e, frequentemente, com o necessário sentido de Estado, no que respeita aos diferentes atores governamentais e/ou das oposições. Pode-se afirmar que este Povo Lusitano, mantém os seus brandos costumes, até com alguma elegância e subtileza quanto baste, sempre que necessário.
A “Revolução dos Cravos”, assim conhecida nacional e internacionalmente, ocorrida a vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro, restituiu aos Portugueses a Democracia, a Descolonização e o Desenvolvimento. Graças ao Movimento das Forças Armadas, liderado por jovens militares, aos quais se uniu o Povo anónimo, Portugal é, hoje, um país respeitado, com futuro promissor desde que as classes: política, financeira, empresarial, laboral, científica, técnica, cultural e religiosa conjuguem os seus esforços para objetivos nacionais, tendo como meta final o bem-comum, na sua expressão máxima que é a “Felicidade”.
Ao longo de mais de quatro décadas de regime democrático, nem sempre tem sido possível usufruir-se, plenamente, de todos os valores que a Democracia confere, pelo menos a nível prático-constitucional, na medida em que na vida dos cidadãos, os direitos, liberdades e garantias, em determinados períodos, não têm sido, inequivocamente, cumpridos e, pelo contrário, no que respeita a direitos adquiridos, alguns dos quais, ainda no tempo da ditadura, foram retirados, apesar das promessas eleitorais de então, apontarem em sentido contrário.
Até certo ponto, compreende-se que os valores cívicos, inerentes à Democracia, nem sempre possam ser exercidos até ao limite, provavelmente, nem isso seria exequível, porque sempre existe alguma subjetividade e relativismo, no entanto também se afigura extremamente redutor quando: valores, deveres e direitos são de tal forma minimizados e/ou abolidos, que até podem ferir normas jurídico-constitucionais e interesses legais e legítimos, já instalados, quantas vezes, há décadas.
Num Estado Democrático de Direito, todos são iguais perante a Lei e ninguém está acima dela, sendo certo que, por isso mesmo, a Justiça terá de ser igual para todas as pessoas, independentemente dos seus estatutos sócio-profissionais, ou de qualquer situação de revelo na sociedade, porque quem não pode “pagar” as despesas que ela, a Justiça, envolve, então deve ser o Estado a assumir tais encargos.
A Democracia é um regime político dispendioso, mas “compensador”, quando se verifica que os cidadãos, por ela abrangidos, beneficiam de inúmeras condições para exercerem, substancialmente, a cidadania, desejavelmente livre de: represálias sub-reptícias; de inclusão em “Listas/Unidades de Queimados”; sem receio do que lhes possa vir a acontecer, assim como aos próprios familiares e amigos, por causa das posições político-partidárias públicas que tomam.
E, muito embora, por vezes, se tente fazer passar a mensagem de que existe liberdade, a realidade nem sempre corrobora aquela afirmação, na medida em que a mentalidade política, em muitas pessoas, defende a posição, segundo a qual as leva a agir de acordo com a máxima: “Quem não é por mim; é contra mim”, portanto, para tais criaturas, é necessário, se possível, “destruir” as pessoas que discordam de certas situações vigentes.
Decorridas mais de quatro décadas, após a “Revolução Democrática Portuguesa” e, sabendo-se que muitas estruturas e recursos humanos, utilizados pela ditadura, foram desmantelados, ainda assim, fica-se com a ideia de que algumas pessoas, saudosistas do passado, ou influenciadas por determinadas práticas do exercício do poder ditatorial, comportam-se, eventualmente, bem pior, sob a capa de uma “Democracia Travestida”.
Hoje, os valores democráticos da Cidadania, como: a Fraternidade, a Solidariedade, a Gratidão, o Civismo, a Liberdade, a Coragem Política, o Humanismo, a Lealdade, a Humildade, entre outros, utilizam-se, prolixamente, nos períodos eleitorais, na sedução dos eleitores, para que estes  votem nesta ou naquela força política, neste ou naquele candidato que, depois de vencer o ato eleitoral, e assumir o respetivo cargo, raramente cumpre o que prometeu e, frequentemente, retira direitos conquistados e aumenta deveres que dificultam a vida às pessoas: impostos, por exemplo.
Uma democracia não pode, em circunstância alguma, ser avaliada como tal, se ela, através dos seus representantes, legítima e legalmente eleitos e/ou nomeados, acrescenta deveres, retira direitos e desqualifica ou altera princípios, valores e regras democráticas, legítimas, legais e justas.
A Democracia tem de estar ao serviço do Povo anónimo, do Povo que, no Portugal de Abril, ajudou a restaurá-la. A Democracia é esse conjunto de Deveres, Direitos, Liberdades e Garantias que são pertença do Povo, porque todos somos Povo, mesmo que titulares de estatutos diferentes, de altos cargos e posições económico-financeiras determinantes.
Ao celebrarmos mais um vinte e cinco de Abril, seria bom que todas as pessoas fizessem uma introspeção ético-política, e que esse resultado fosse confrontado com os valores democrático-constitucionais, um tal exercício, naturalmente, a começar na classe política e, dentro desta, daquelas pessoas que nos governam, poderá contribuir para a melhoria do relacionamento cívico entre governantes e governados, como também a qualidade da nossa Democracia sairia ganhar, com toda a certeza.
Só existirá verdadeira Democracia quando as pessoas puderem: exprimir publicamente o que sentem e pensam; quando forem totalmente livres de tomarem opções, sem receio de represálias para elas próprias, famílias e amigos. A Democracia não é um regime perfeito, será, porventura, o menos mal, de todos os outros que são bem piores, porque ela está, deve estar, em permanente aperfeiçoamento, assim o desejem e façam por isso todas as pessoas.
É neste contexto que se defende o “imperativo categórico”, um pouco ao jeito Kantiano, segundo o qual, a ética na política é fundamental, mas para isso não basta ser-se, alegadamente, íntegro, é necessário preparar, educar, formar as pessoas em geral e, particularmente, quem vai exercer cargos políticos de eleição e/ou nomeação legal, por via de competências reconhecidas.
Neste vinte e cinco de Abril, eleitores e eleitos, deem as mãos, unam esforços para que possamos ter uma Democracia com melhor qualidade, que nos permita: exteriorizarmos os pensamentos e projetos, sem receios de perseguições encapuzadas; que qualquer pessoa possa, livremente, defender as suas ideias, tendo a certeza de que, pelo menos, serão respeitadas, mesmo que não sejam aceites e seguidas.
A Democracia implica: bom-senso; respeito pelas ideias contrárias; dignidade da pessoa humana, independentemente do estatuto sócio-profissional. Pretende-se, neste “Vinte e Cinco de Abril Português”, quando se celebra mais um aniversário da “Revolução dos Cravos”, transmitir ao “Universo Democrático” que os nossos princípios, valores, cultura, sentimentos e emoções, são tão importantes como os de quaisquer outras grandes e/ou superpotências.
A nossa História comum é um exemplo para o Mundo, porque soubemos sempre assumir os condicionalismos, os erros e os êxitos que nos caracterizam ecumenicamente. Este Património tem de continuar a ser honrado, respeitado e dignificado, por todos os Portugueses: cá dentro ou na Diáspora; por nós e por aqueles que escolhem Portugal para melhorarem as suas condições de vida.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Jornal: “Terra e Mar”

Portugal: http://www.caminha2000.com (Link’s Cidadania e Tribuna)

domingo, 15 de abril de 2018

Uma Expressão Existe Que Não Chega a Ser Arte.

Toda a Arte é expressão, mas nem toda a expressão é Arte, porque, efetivamente, não há Arte no deficiente que é mudo, como não há Arte naquele que, emotivamente, se exprime de forma inarticulada. A Retórica no sentido depreciativo, deturpando a palavra, simulando expressão, também não é arte.
A expressão artística não pode ser deficiente, nem transcendente, nem insuficiente, nem excessiva, mas pode haver arte na introdução intencional do teatro, da pintura, da escultura, da arquitetura. No estudo sobre a arte, o autor destas três situações, José RÉGIO, destaca igual número de aspetos eliminatórios de arte.
Uma expressão existe que não chega a ser Arte, pela qual se pode imaginar uma pessoa que, visivelmente emocionada, não consegue exprimir-se com clareza e rigor, por mais compreensível que seja a mímica, por mais profunda que seja a sua dor, no entanto, tais manifestações são uma forma de expressão.
Toda e qualquer expressão vital: desde o silêncio ao grito angustiado; da tristeza à alegria; da alteração da fisionomia à descompostura do corpo; exprime, a cada instante, a infinita complexidade da vida psíquica do ser humano, mas tais expressões vitais não são expressão artística, porque lhes faltam a intencionalidade, porque revelam sinceridade, porque denotam espontaneidade, porque não há o compromisso de suscitar a admiração, nem a preocupação do receio da crítica.
A expressão artística é uma representação mediata, indireta, em relação à expressão vital, tendo, apesar disso, de comum o ser humano, daí que a reciprocidade entre as duas expressões seja uma realidade, na medida em que o artista precisa de ser uma pessoa superiormente dotada, em experiência humana, isto é, rica em sentimentos, emoções e ideias.
A arte vai beber à expressão vital quando um simples gesto humano é captado, descrito ou interpretado por um pintor, romancista ou ator, ela até complementa a expressão vital, tornando-se, por vezes, uma substituta da vida.
Com efeito: «muitas vezes a expressão artística se afirma suplente duma expressão vital frustrada ou incompleta (…) ganhando mais força e realidade, atingirem superior profundeza e superior subtileza (…) aqueles instintos, tendências, impressões, emoções, sentimentos, ideias a que o artista não soube, não pôde ou não quis dar expressão vital.» (RÉGIO, 1980:25). Apesar de tudo, a expressão artística não substitui a expressão vital, nem tão pouco uma se reduz à outra.
A expressão artística é interessada, intencional, dirigida, ao contrário da expressão vital, que é espontânea, reflexiva e imprevidente, todavia, certas atitudes da expressão vital, como o rir, o chorar e o gritar, podem transformar-se em expressão artística, se a intenção é, efetivamente, fixar e comunicar, dentro dos mais amplos limites, no espaço e no tempo, porém, a pura expressão vital, no seu aspeto mais rudimentar, espontâneo, não chega a ser expressão artística, precisamente por lhe faltar intencionalidade, premeditação, fixação e comunicação.
Naturalmente que tais limites definidores, são-no dentro de um relativismo mais ou menos dilatado e subjetivista.

Bibliografia

RÉGIO, José, (1980). Três Ensaios sobre a Arte. Em Torno da Expressão Artística. 2ª Ed. Porto: Brasília Editora.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Jornal: “Terra e Mar”

Portugal: http://www.caminha2000.com (Link’s Cidadania e Tribuna)