domingo, 15 de outubro de 2017

Professor-Paradigma: Sua Formação

       
Demonstrada que está a insubstituabilidade do professor/formador, na sociedade contemporânea, é preciso reconhecer o seu papel na construção de um mundo de Conhecimentos, Cultura, Paz e Felicidade. Nesta fase da vida da humanidade, em que os países se organizam nas mais dignas e distintas instituições, encimadas pela mãe de todas elas – ONU – Organização das Nações Unidas –, onde se congregam todas as nações, supostamente unidas por ideais comuns, um mundo cada vez mais estruturado em grupos internacionais, para várias finalidades, no qual vai ganhando importância um novo conceito: Globalização.
Pensa-se que a preparação dos cidadãos, das comunidades e das sociedades mais alargadas, deverá passar, cada vez mais, pela educação/formação, o mais cedo possível na vida de cada pessoa, prolongando-se até ao fim dessa mesma vida e sem interrupções, através dos diversos e adequados processos: científico, técnicos, pedagógicos e, na fase mais avançada dos alunos/formandos, também de natureza andragógica. (Andragogia - «ciência antiga que estuda a educação para adultos com a finalidade de buscar uma aprendizagem efetiva para o desenvolvimento de habilidades e conhecimento»), (Malcolm Knowle, in: https://www.catho.com.br/carreira-sucesso/gestao-rh/o-que-e-andragogia)
Dificilmente haverá outra alternativa se se pretender um mundo civilizado, de princípios, de valores, de normas libertadoras para a pessoa humana responsável, que possam conduzir à Paz, ao Amor e à Felicidade. Nesse sentido, torna-se imperioso: «Um planejamento educacional que dê conta não só de aumentar as chances de uma cultura enfrentar seus problemas e garantir sua sobrevivência, mas, especialmente, de torná-la capaz de antecipar as condições relevantes para solucioná-los, demanda que saibamos quais são os problemas a serem enfrentados pela cultura, que comportamentos contribuirão para sua solução e, finalmente, qual o ensino necessário para gerar tais comportamentos.» (ZANOTTO, 2000:120).
O professor/formador para um novo mundo que se depara à humanidade, deverá possuir uma preparação bem mais abrangente, na perspetiva de uma polivalência que circunde a sua própria especialização, porque já não basta transmitir, com profunda minúcia e ilustração, os conteúdos de um dado domínio, sem uma visão cultural, do espaço e do tempo, onde tais conhecimentos possam ser aplicados com êxito, se se quiser: “uma visão global para aplicação local
A formação inicial do professor/formador, sem o suporte de uma interiorização de diversos conhecimentos, princípios e valores, adquiridos pela experiência e formação ao longo da vida, de pouco servirá na formação de um novo cidadão-profissional, por isso: «Garantir ao professor o acesso aos saberes relevantes à sua prática por meio de uma formação adequada, não é, no entanto, suficiente para mudar a sua acção e alterar o método segundo o qual ele tem, de modo árduo e nem sempre bem sucedido, se proposto a ensinar.» (Ibid.:132).
A formação deste professor/formador, para uma sociedade cada vez mais exigente e complexa, não se compadece com a assimilação de algumas teorias, num certo período de frequência universitária, de uma licenciatura bem específica, ou mesmo ao nível de uma pós-graduação, nomeadamente de um mestrado ou doutoramento.
Entra nesta formação, tudo o que ao longo de uma vida se foi adquirindo, aplicando, melhorando, testando e validando. Incentivar, acarinhar e reconhecer, objetivamente, os professores experientes, dando-lhes oportunidades para: não só construírem as suas próprias teses; como também passá-las aos mais novos, que em início de carreira, tantas dificuldades sentem, será, seguramente, uma estratégia educativa que, a muito curto prazo, produzirá excelentes resultados.
 Em bom rigor: «Ninguém se tornará profissional apenas porque sabe sobre os problemas da profissão, por ter estudado algumas teorias a respeito. Não é só frequentando um curso de graduação que o indivíduo se torna profissional. É, sobretudo, comprometendo-se profundamente como construtor de uma praxis que o profissional se forma. A partir da sua prática cabe a ele construir uma teoria (…). Assim, a identificação teoria-prática deve apresentar-se como ato crítico, no qual se demonstra que a prática é racional e necessária e a teoria, realista e racional.» (FÁVERO, 1996:65).
Acentua-se, nitidamente, a vantagem que as modernas sociedades podem obter com a manutenção, em condições adequadas, de professores/formadores experientes, obviamente, em funções de coordenação, de supervisão, de preparação e início de carreira dos novos docentes.
Um recente conceito de professor-orientador, que proporcione aos recém-formados: segurança, confiança, incentivo, apoio em rede, solidariedade a todos os níveis, e em todas as circunstâncias, aliás, é uma primeira conclusão a que chegam os próprios candidatos a professores, na medida em que: «A relação teoria e prática é fundamental porque precisamos de orientação, pois nos primeiros anos sempre encontramos dificuldades, barreiras e obstáculos e a prática nos ajuda a enfrentar o mundo sem medo e com força de vontade.» (ALUNO 3º ano, in: OLIVEIRA, 1994:219).
Vai-se desenhando, assim, um ideal de Professor-Paradigma, em contínua formação, ao longo da vida e, portanto, para além do tempo oficial de uma carreira profissional. Um bem planificado programa, para um novo conceito de professor em construção, rentabilizando, justamente, o professor em idade pós-aposentação, afigura-se como uma alternativa de sucesso, principalmente, na formação dos futuros docentes, formadores e educadores.
Exige-se, todavia, um professor que vivencie, sinta e se emocione, que tenha plena consciência de que: «A sociedade onde vive também não é geral, abstracta e estática, mas é onde transcorre sua existência, onde ele se cria e cria a cultura, entendida como trabalho, organização social e representação simbólica da vida natural e social. A educação se faz, então, para que o homem participe, desenvolva e transforme essa cultura na direcção de um viver mais humano.» (PIMENTEL, 2001:86).
O Professor-Paradigma, para este novo século, para um mundo a caminho da globalização, num número crescente de domínios, também se poderia designar de bom-professor, caraterizando-se este como aquele que: «possui uma prática social mais ativa (participação em movimento docente, profissional, religioso, sindical, partido político, etc.) tem maior facilidade de fazer uma análise das questões da educação dentro do atual contexto…» (CUNHA, 2001:161). Professor-paradigma, Bom-Professor, Professor-ideal, são, apenas, reflexões, projetos e percursos que se desejam, e não objetivos que se possam alcançar, no curto prazo.
Caminha-se para o Professor-Reflexivo, questionador, crítico, construtivo e catalisador das ideias e praxis dos mais novos, com estes se interrelacionando e ajudando a construir novos protótipos, novos ideais e novas utopias, tendo por pano de fundo a perspetiva de uma humanidade mais culta, feliz e em paz.
Na verdade, para ser professor/educador, já não basta ser um bom ensinante, ou um técnico-especialista. Ele terá que ser um agente de proximidade e de contágio, atento aos sinais da alteridade dos seus alunos/educandos, um gestor hábil do equilíbrio necessário, mas sempre difícil, entre o desejo de influência inerente ao ato pedagógico, o risco e a manipulação.
Terá também que ser tolerante e paciente, porque na forma como souber ser atento, condescendente e paciente, depende a lição sobre a atenção, a tolerância e a magnanimidade. Este é o professor que se deseja para o primeiro século deste terceiro milénio. Conjuguem-se as sinergias docentes e que não haja preconceitos contra ideias, projetos e percursos ecléticos.

Bibliografia

CUNHA, Maria Isabel da, (2001). O Bom Professor e a sua Prática, 12ª Ed., Campinas-SP: Papirus, (Colecção Magistério: Formação e trabalho Pedagógico)
FÁVERO, Maria de Lurdes de Albuquerque, (1996). “Universidade e Estágio curricular: Subsídios para Discussão”, in: ALVES, Nilda (Org.), (1996). Formação de Professores: Pensar e Fazer, 4ª Ed., São Paulo: Cortez, “Colecção: Questões da nossa época).
OLIVEIRA, Ana Cristina Baptistella de, (1994). Qual a sua Formação Professor? Campinas-SP: Papirus, (Colecção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico).
PIMENTEL, Maria da Glória, (2001). O Professor em Construção, 7ª edição, Campinas-SP: Papirus. (Colecção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico).
ZANOTTO, Maria de Lourdes Bara, (2000). Formação de Professores: a contribuição da análise do comportamento, São Paulo: EDUC – Editora da PUC-SP


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo





domingo, 8 de outubro de 2017

Professor ao Longo da Vida

Educar, ensinar, formar, instruir, preparar para a vida e até para a morte biológica, constituem ações interdependentes, que integram um projeto grandioso, a aplicar numa sociedade civilizada, cada vez mais globalizada, para determinados fins, com uns atores bem escolhidos e, também, outros cada vez mais excluídos, em certas faixas sociais e etárias, do acesso aos bens e valores essenciais, à dignidade da condição da pessoa humana.
Será, portanto, muito difícil, senão mesmo inexequível, eliminar a nobre função do professor, formador, docente, tutor, conselheiro, companheiro e cúmplice pedagógico, do sistema educativo, quaisquer que sejam as suas modalidades: direta, presencial, emocional, afetiva e espiritual ou à distância, com as vantagens práticas de todo o potencial da tecnologia, ao serviço da educação/formação.
Afigura-se, portanto, difícil imaginar a sociedade sem a intervenção do professor/formador, educador/instrutor, tutor/construtor de pessoas integrais. Quem prepara o juiz, o advogado, o médico, o arquiteto, o engenheiro, o padre, o cientista, o técnico e o próprio professor, senão, esse mesmo professor/formador/educador?
Recuando-se no tempo, verifica-se, sem grandes dúvidas que, desde a antiguidade clássica grega, a figura do preceptor/professor, ao domicílio, era fundamental para a preparação de alguns cidadãos que, mais tarde, iriam administrar a polis, realizar a justiça, exercer a política, construir as estradas e as pontes, erguer magníficos monumentos e navegar pelo mundo.
Excluindo-se, eventualmente, algumas poucas profissões, a esmagadora maioria aprende-se na teoria e nas boas-práticas, na e com a escola, sob a orientação do professor/formador, observando programas, conteúdos, planeamento, avaliações e certificações.
No centro do sistema, o binómio nuclear persiste: educador/educando; professor/aluno; formador/formando: «A relação professor-aluno como vínculo libertador é bilateral, uma troca, uma reciprocidade, e, de certo modo, apresenta-se como um círculo vicioso: o aluno precisa receber confiança do professor para adquirir autoconfiança e poder realimentar a confiança do professor em si mesmo e em seus alunos; o aluno precisa receber aceitação e apoio do professor para sentir-se seguro e retribuir com alegria o trabalho do professor.» (PONTES, 1995:126).
A profissão docente, numa sociedade que se pretende culturalmente desenvolvida, em permanente progresso científico, técnico, económico e cultural, é insubstituível, independentemente do estatuto, das remunerações e reconhecimento que se lhe atribua, porque a humildade docente nem sequer é compatível com quaisquer honrarias e privilégios, apenas se exige à sociedade que apoie, estimule e dignifique este docente, que prepara crianças, jovens e adultos para o mundo e para a vida profissional de cada pessoa, individualmente considerada.
Todas as profissões se iniciam na vida de cada um, o mais cedo possível, revelando-se, de princípio, algumas dificuldades, justamente, pela ainda falta de experiência, pouca maturidade, muitas e bem elaboradas teorias, memorizadas durante a formação teórico-científica e, só mais tarde, é que o docente pode acrescentar a dimensão concreta de uma vida vivida, mais ou menos intensamente, que completa e enriquece a formação inicial.
Com este raciocínio se poderá defender o prolongamento da atividade docente, para além da idade de reforma oficial, direcionando todos aqueles que assim o desejarem, precisamente, na formação dos jovens e futuros professores o que, por sua vez, implica que este professor, já bem maduro, experiente, detentor de conhecimentos e práticas que, tendo sido importantes, num determinado contexto e época, requerem, contudo, atualização.
O essencial é incentivar o professor veterano (jubilado) a prosseguir na investigação, e na elaboração de novas estratégias, diferentes metodologias e, porventura, avaliações mais ponderadas e justas, bem como aumentar a sua própria autoconfiança e correspondente auto-estima.
Na verdade: «Se você não confiar em si mesmo, não espere que os outros tomem a iniciativa. Mas para poder desenvolver essa confiança é preciso estar preparado. Preparação significa conjugação de duas coisas: a teoria e a prática; fundamentação teórica e a capacidade de aplicação dessas teorias. Nesse ponto o professor joga com armas muito favoráveis porque geralmente os dirigentes não são fortes em teorias educacionais, costumam ser fortes em administração.» (WERNECK, 1996:18).
Quando num país, pelas decisões político-administrativas, de alguns dirigentes, ainda que democrática e legitimamente eleitos, e/ou nomeados para os respetivos cargos, se afastam os profissionais das suas atividades, impedindo-os, ou colocando-lhes obstáculos para continuarem no exercício da respetiva profissão, tal país está a regredir, e os dirigentes responsáveis por decisões desta natureza, provavelmente, estarão a pensar em muitas coisas, menos na rentabilização dos seus recursos humanos, e muito menos no progresso sustentado da sociedade.
É um pouco como começar tudo de novo, com novas gerações, apagando todo um passado das gerações precedentes, eliminando os resultados de longas e profícuas investigações, utilização de boas-práticas já demonstradas e, pior do que tudo isto, desconsiderando aqueles que, ao longo de 40 ou 50 anos, deram o seu melhor a esse mesmo país, e à sociedade em que todos se pretendem integrados e incluídos, em qualquer das suas dimensões e capacidades.
Afastar, excluir, desvalorizar conhecimentos, experiências, princípios, valores, sentimentos e atitudes dos profissionais docentes mais experientes, é esbanjar um património cultural, científico e técnico, construído na experiência de uma longa vida docente. É, no limite, delapidar o investimento financeiro que neles foi efetuado para a sua formação, afinal, corresponde, ao desbaratar o erário público que pertence a todos.
A atualização não se efetiva apenas em relação ao mais recente, ao que é inovador, ao que foi descoberto num outro continente, sendo, indiscutivelmente, fundamental para o avanço do progresso das sociedades, para melhor se perspetivar o futuro, mas este também se vai construindo a partir de um presente, que conhece muito bem o passado.
Em princípio, deve partir-se do conhecido, do adquirido, do consolidado e com prova dadas, para o desconhecido, para a verificação de novas teorias. Então, toda a atualização pressupõe a organização sistematizada do passado, deste aproveitando e melhorando o que tem de positivo e evitando o que constitui insucesso e é superficial.
O professor poderá ser o exemplo de como se entende o conceito de atualização, principalmente quando já possui idade, experiência, prudência e sabedoria consolidadas. A atualização é muito mais do que o presente, ou uma perspetiva planificada do futuro: «Parece que a actualização é coisa que só diz respeito à fase actual da nossa vida. Mesmo não lembrada em muitas ocasiões, faz parte integrante de toda a vida humana. (…). Só a actualização através da educação, faz com que possamos usar os produtos novos.» (Ibid:30).


Bibliografia

PONTES, Eglê Franchi, (Org.), (1995). A Causa dos Professores, Campinas: Papirus, (Colecção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico)
WERNECK, Hamilton, (1996). Como vencer na vida sendo Professor”, Petrópolis-RJ: Vozes.


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Jornal: “Terra e Mar”


domingo, 1 de outubro de 2017

Idosos na Modernidade. 01 de outubro – Dia Mundial do Idoso

Se há situações que incomodam muitos dirigentes políticos, governantes, institucionais e empresariais, em muitos países do mundo, uma delas é o crescente aumento do número de pessoas seniores, com idades provectas, destacando-se de forma nítida grande parte dos países do velho continente, a Europa.
Esta situação tem vindo a ser analisada com “aparente” excessiva apreensão, especialmente pelos alegados encargos sociais que, exaustivamente, são invocados, quantas vezes por altos responsáveis quando, eles próprios, ainda não contribuíram o suficiente, para alimentar o sistema social público atual, do qual, todos, sem exceção, ricos e pobres, estão a beneficiar.
Os “velhos”, como vulgar e, algumas vezes, pejorativamente são designadas as pessoas a partir de uma certa idade, (tradicionalmente a partir dos 65 anos), começaram a ser marginalizados precisamente, com a institucionalização de propalados argumentos de inutilidade e, ainda mais grave, invocando-se os custos sociais que eles causam ao erário público, ignorando-se que, foram eles, no seu tempo de vida ativa, com as respetivas comparticipações que também alimentaram o sistema.
Os idosos, tal como as gerações que se lhes seguem, (as crianças e jovens de hoje) são o melhor património humano que um país pode ter, desde logo, se os responsáveis empresariais e de outras áreas, tiverem a inteligência, e a visão estratégica, de saber utilizar o imenso manancial de conhecimentos, experiências, sabedoria e prudência que a maior parte dos idosos possui, independentemente das suas culturas serem de natureza intelectualizada ou antropológica.
A pessoa humana, enquanto detentora de capacidades físicas, intelectuais e motoras em geral, pode (e deve) trabalhar para ela, para a família e para a sociedade, não havendo idade-limite para as funções, responsabilidades e atividades que ela sabe, pode e quer desenvolver.
A riqueza de uma nação faz-se à custa da participação de todos e, bem ao contrário, da utilização apenas dos mais novos. Podem, inclusivamente, configurar atos de má gestão ou de gestão ruinosa, o inaproveitamento dos recursos humanos mais experientes e capacitados, em qualquer fase da vida, para atividades específicas e compatíveis com a sua situação físico-intelectual.
Dispensando-se as estatísticas que, periodicamente, são divulgadas, por uma ou outra instituição, é do conhecimento direto de cada cidadão, de cada responsável, que a população europeia, de entre outras, tem vindo a envelhecer, sendo a esperança de vida favorável ao aumento da longevidade, o que implica um acréscimo do número de “idosos”, significando que os encargos sociais, de facto, evoluem exponencialmente com a agravante das comparticipações das gerações mais novas não aumentarem em idênticas, ou preferencialmente, proporções, devido às elevadas taxas percentuais de desemprego, emigração e a todo um conjunto de situações, que conduzem ao empobrecimento da sociedade.
Se há algumas décadas a proporção era de quatro ativos para um reformado, hoje, primeiro quatro do século XXI, possivelmente, aquela relação reduziu-se para metade ou menos, o que a continuar esta progressão, dentro de duas a quatro décadas, nenhum sistema social terá capacidade para cumprir os compromissos perante aqueles que contribuíram para o processo, na expetativa de, quando “idosos”, usufruírem das condições de vida, verdadeiramente dignas da pessoa humana.
É, portanto, necessário, analisar com mais acuidade o enquadramento das pessoas ditas “idosas”, aos conhecimentos, experiências, competências e capacidades físicas e mentais, criando-se-lhes condições motivadoras para continuarem a trabalhar e, simultaneamente, manterem-se com elevada e reconhecida autoestima, dignidade, valorização e estatuto social, como processo de realização permanente e satisfação de necessidades de reconhecimento, estima e respeito, ao nível da aceitação pública. Este património não tem sido suficientemente salvaguardado e rentabilizado.


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Jornal: “Terra e Mar”

Portugal: http://www.caminha2000.com (Link’s Cidadania e Tribuna)
                                   Bélgica: https://www.luso.eu/equipa/470-diamantino-bartolo.html

domingo, 24 de setembro de 2017

Pilares para Educar e Formar

A educação/formação do homem contemporâneo, numa perspetiva de futuro, no sentido de se aperfeiçoar e consolidar uma sociedade moderna, justa, tolerante, solidária e produtiva, pressupõe investigação, conhecimento e prática, eventualmente inverificados ou inconfirmados pelos critérios científicos e tecnológicos, mas não menos credíveis, práticos e úteis, na vida corrente de cada pessoa.
 A fórmula mágica, qual receita milagrosa, para educar/formar pessoas humanas, a ciência e a técnica ainda não a revelaram inequivocamente, o que não impede de se tentar outras abordagens, transmitir algumas práticas e valores: quer pela comunicação tradicional; quer pelas boas-práticas de quem pode e deve ministrar tais matérias, inegavelmente, os professores/formadores, encarregados de educação, Igrejas, numa primeira fase da vida da criança, do adolescente e do jovem; posteriormente, já na idade adulta, também as empresas, entidades formadoras, a própria sociedade.
E se a educação e a formação profissional devem ficar sob a responsabilidade dos respetivos técnicos e avaliada a sua evolução no aluno, e no formando, pelos critérios e instrumentos da ciência e da técnica, outro tanto não será de fácil aplicação, no que se refere aos conhecimentos, comportamentos e integração na comunidade, daquele mesmo jovem e/ou adulto, no tocante aos domínios sócio-culturais e atitudinais.
A seleção de tais conhecimentos e práticas, que possam resultar numa pessoa humana, com um novo perfil do profissional-cidadão, é difícil de se realizar, todavia, a título de uma hipótese possível e verificável, certamente entre muitas outras, abordem-se quatro dimensões ou pilares, que em muito podem contribuir para a construção deste magnífico edifício que é o novo cidadão contemporâneo, justamente, a partir da: liberdade, democracia, cidadania e educação, entre outros igualmente importantes, como a religião, esta considerada no seu expoente máximo que se eleva através do espírito, no sentido de um Absoluto: Deus.
Trata-se de uma construção delicada, complexa, cujo arquiteto não pode, nem deve, orientar os trabalhos à distância, sob pena da construção ficar ao livre arbítrio dos trabalhadores, ou seja, este arquiteto que aqui é substituído pelo professor/formador, família e Igreja, tem de estar presente, envolver-se com os “materiais” que vão ser trabalhados, na circunstância, os educandos/formandos, a partir das técnicas referenciais utilizadas, na oportunidade, os valores da liberdade, da democracia, da cidadania e da educação, que serão os autênticos pilares do grande edifício, consubstanciado em toda a humanidade, a partir da congregação de todos os cidadãos contemporâneos, todos eles no papel de educandos/formandos, considerando que mesmo os professores/formadores, também devem continuar a aprender ao longo da vida e, nesta circunstância, passam à condição de educandos/formandos.
Neste processo, a qualidade superior de cidadão, no contexto de uma cidadania plena, estará sempre presente, porque: «Educar para Cidadania será um bom projecto para tentar encaminhar as camadas mais jovens para um futuro mais promissor do que este que se tem vivido. O tema educar para a Cidadania deve ser abordado pelos professores e educadores, assim como por aqueles que acompanham os jovens no decorrer da sua vida. (…). Este tema é complexo de ser abordado e por isso todo o processo de aprendizagem deve começar desde o início da vida da criança, só assim os jovens poderão protestar mais tarde pelos seus direitos desde que tenham cumprido também os seus deveres.» (TAVARES, 2005: Trabalho de licenciatura sobre a Cultura Democrática).
O primeiro pilar, autêntico baluarte da dignidade humana, valor essencial à vida do homem, desde sempre conhecido e nem sempre respeitado, pode-se designar por Liberdade, porque isto mesmo é reconhecido nos diversos tratados internacionais e nas Constituições Políticas nacionais, sob a fórmula: “Todos os homens nascem livres e iguais”.
A Liberdade é, então, um valor insubstituível e objetivo: ou se tem e se usa, responsavelmente; ou não se tem, porque alguém, prepotente e humilhantemente, impede que dela se faça uso. A Liberdade é sempre definida a partir de um objetivo que se lhe segue sob a forma adjetivada de: liberdade pessoal, liberdade política, liberdade de expressão, liberdade religiosa e muitas outras formas de liberdade.
Além disso, ela só se verifica perante uma relação entre iguais. O homem, vivendo sozinho no mundo, desconheceria este valor e o conceito que lhe está subjacente, como por exemplo: «Para uma pessoa ser livre tem de haver pelo menos duas. A liberdade pressupõe uma relação social, uma assimetria de condições sociais: essencialmente implica diferença social – presume e implica a presença de divisão social. Alguns podem ser livres somente na medida em que existe uma forma de dependência a que possam esperar fugir.» (BAUMAN, 1989:21).
Na verdade, invoca-se muito a liberdade, frequentemente para reclamar direitos, quantas vezes contra a liberdade de outros, e o direito que lhes assiste de, também, livremente, exigirem igual tratamento que os primeiros reivindicam.
Em princípio, todo o ser humano aspira à liberdade, sob qualquer uma das suas dimensões, todavia, muitas liberdades, na prática, e por circunstâncias diversas, naturais ou impostas, são inacessíveis à maioria das pessoas, como a liberdade de consumo, liberdade à privacidade total, liberdade de acesso à educação, à saúde, à justiça, ao trabalho, porque existe um condicionalismo ou opressão, económico ou político, respetivamente, e assim: «O desejo de liberdade nasce da experiência da opressão, isto é, da sensação de não se poder deixar de fazer o que se preferiria não fazer (…) ou da sensação de não se poder fazer o que se desejaria fazer.» Ibid: 81).
Há, portanto, um longo caminho a percorrer, para que este valor essencial da dignidade humana passe da quase utopia para a realidade dos povos, porque enquanto houver pobres, carentes de imensos bens essenciais à vida, a liberdade continuará, para estes, a ser uma utopia, porque tão importante como as outras dimensões ou objetivos da liberdade, é aquela que se prende com a capacidade de, livremente, aceder-se ao que, pelo menos, é básico.
Por isso cabe, em primeira instância, aos governantes criarem: «A liberdade mais como capacidade para nos governarmos a nós próprios do que como desejo de que o governo nos deixe em paz, foi o sonho dos movimentos revolucionários que introduziram o mundo ocidental na sua história moderna.» (Ibid: 152).
Compete, depois, à família, ao professor/formador, à Igreja e à comunidade em geral, educar para a liberdade responsável, precisamente pelo bom uso que estes agentes da socialização dela fazem. Isto transmite-se pelas boas-práticas presenciais, discutidas, criticadas, vividas e sentidas pelas pessoas humanas, diretamente envolvidas, podendo esta educação ser complementada por fórmulas, padronizadas universalmente, e transmitidas à distância, porém, sempre controladas pelo professor/formador.
O segundo pilar ou valor que importa melhorar, aprofundar e consolidar é a Democracia, com todos os seus princípios, regras e valores, indissociável da liberdade, da cidadania e da religião. A democracia, enquanto instrumento político de liberdade de escolha do povo, para o governo das comunidades e do mundo, e que levada a uma análise mais abrangente e simples, se conceptualizaria como: o governo do povo, pelo povo, para o povo e com o povo.
A dificuldade em consensualizar um conceito universal de democracia é, por enquanto, uma realidade que não se consegue escamotear, todavia, é possível admitir algum consenso, no que respeita à sua estirpe popular, segundo a qual, o elemento nuclear para que ela se verifique continua a ser o povo: «Na raiz de todas as definições de democracia, por mais refinadas e complexas, permanece a ideia de poder popular, de uma situação em que o poder, e talvez também a autoridade, pertencem ao povo. Esse poder ou autoridade é geralmente olhado como político, e em consequência toma frequentemente a forma de uma ideia de soberania popular – o povo como autoridade política básica.» (ARBLASTER, 1988:20).
A democracia, considerada no seu sentido amplo, portanto, aplicada não só às atividades e situações políticas, mas também em todas as intervenções humanas: interpessoais e intersociais. O democrata aceita os valores da democracia, no respeito pelos direitos e deveres de cada cidadão e dos seus adversários políticos sem, em circunstância alguma, os caluniar, denegrir, ofender o direito à honra e bom nome, sem intromissão na vida privada.
 Claro que se torna necessário partir de um conceito que sirva, genericamente, o homem integrado na sociedade, desempenhando os inúmeros papéis que ao longo da via se lhe colocam, isto é, interessa refletir, desenvolver e aplicar uma ideia de democracia interativa, porque: «A democracia participativa tem necessariamente implicações na vida social, e é mais correctamente considerada um modo de viver do que apenas um artifício ou processo político.» (Ibid:95).
Um terceiro pilar na construção de um novo cidadão, para uma nova sociedade, mais humana, mais justa e mais solidária, fundada na cultura dos valores cívicos, a partir de uma formação personalista e humanista, promovida pela família, pela escola, pela Igreja e pela comunidade, é erigido pela Cidadania, na perspetiva da liberdade responsabilizante, de cada cidadão assumir os seus deveres e exercer os seus direitos, no respeito integral por iguais compromissos e benefícios dos seus semelhantes.
E se a cidadania implica pertença a uma comunidade de deveres direitos, responsável e democraticamente exercidos, igualmente é verdade que pressupõe participação esclarecida na vida comunitária, em ordem ao bem-comum de todos, sem quaisquer exclusões de uns grupos e concessão de privilégios para outros.
Preparar este cidadão moderno para os valores, princípios e regras sócio-legais, nestes tempos complexos, é uma tarefa que a todos cumpre realizar, muito embora algumas instituições possam dar um contributo maior e mais competente, porque de contrário: «Na ausência dos recursos educacionais e económicos requeridos para exercer os direitos civis ou legais e políticos, a cidadania fica vazia para todos os objectivos políticos. Os direitos sociais como direitos aos serviços sociais e à educação, dão possibilidade aos cidadãos de tomarem parte na comunidade nacional a que o seu status lhes dá direito.» (BARBALET, 1989:109).
É, portanto, em todo este contexto que, uma vez mais, a intervenção da educação e da formação são, sobejamente, reconhecidas como indispensáveis, dir-se-ia mesmo, insubstituíveis, considerando, obviamente, todos os seus componentes ativos, dos quais se destaca o binómio nuclear: professor/formador – aluno/formando.
Pela educação e pela formação profissional se transmitem os conhecimentos e se fomentam as boas-práticas da cidadania competente e eficaz, daquelas se enfatizando: «Acabar com vergonhosas inversões de valores, de méritos e de desequilíbrios entre exagerados ganhos de poucos privilegiados e ínfimos ganhos de grande quantidade de pessoas que prestam relevantes contribuições ao país; resgatar e desenvolver valores e princípios de comportamentos éticos em todos os sectores da sociedade.» e, nesse sentido: «Um novo e forte espírito de cidadania precisa ser desenvolvido nas escolas, nas empresas, em maior número de comunidades, nos condomínios, nos clubes de serviço, nas associações de bairros, nas associações de pais e mestres, nas Igrejas, nos sindicatos.» (RESENDE, 2000: 200-02).
Um quarto pilar nesta grandiosa e magnânima construção é lançado, justamente, pelo sistema educativo e todo o seu potencial de recursos, destes se revelando as infraestruturas físicas, meios financeiros e, o mais valioso de todos, os recursos humanos, estes fortemente assumidos pelos docentes/formadores e apoiados pelos restantes agentes educativos, ou seja: pessoal docente e discente.
É inconcebível idealizar um projeto educativo, mesmo que funcione indiretamente e à distância, sem os elementos humanos essenciais como são os professores e os alunos, os formadores e os formandos, os tutores e os tutorandos. Importa, claramente, valorizar e definir o estatuto sócio-profissional do docente, iniciando-se este processo, por exemplo, com uma: «Revisão dos perfis profissionais dos professores, promovendo a diversificação e a especialização, associadas a uma maior e mais alargada competência pedagógica, no sentido da interdisciplinaridade e integração dos saberes.» (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 1996:2).
O homem, como um todo, indivisível e único, dotado de imensas faculdades e habilidades, pressupõe uma educação de alto nível, de qualidade excelente, e em todas as suas intervenções, ele deve estar presente, através da educação: física, moral, intelectual, social, económica, profissional, cívica, politica, estética, religiosa.
A educação e formação deste novo e competente cidadão universal, passa, imprescindivelmente, pelo ensino e formação, quaisquer que sejam as modalidades, sendo certo que um ensino personalizado, ecuménico, presencial e atualizado nas suas estratégias, metodologias e avaliações justas, deve manter-se em permanente aperfeiçoamento.
 Com base numa herança cultural que vem do passado, é essencial aumentar um património tão valioso que vem sendo legado à humanidade. Isto só é possível pela educação, pela formação, pelo estudo e pelo trabalho, porque: «Nenhuma causa é maior, nenhum programa é mais digno de devotamento humano, do que a transmissão da herança cultural. E nenhuma preocupação pode, por isso, sobrepujar a da humanidade pela educação da infância e da juventude, a fim de que, engrandecida, a fortuna cultural se transmita, para que os homens de amanhã a desfrutem, mais a engrandeçam e a transmitam, por sua vez, àqueles que os sucederem no tempo.» (REIS, 1965: 269-70).

Bibliografia

ARBLASTER, Anthony, (1988). A Democracia, Trad. M.F. Gonçalves de Azevedo, Lisboa: Editorial Estampa, Temas Ciências Sociais. (7)
BARBALET, J.M., (1989). A Cidadania. Trad. M.F. Gonçalves de Azevedo, Lisboa: Editorial Estampa, Lda., Temas Ciências Sociais, (11) pp. 31-50.
BAUMAN, Zygmunt, (1989). A Liberdade. Trad. M. F. Gonçalves de Azevedo, Lisboa: Editorial Estampa
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO PORTUGUÊS, (1996). Pacto Educativo para o Futuro (Mensagem do Ministro da Educação). Mem Martins: Editorial do Ministério da Educação
REIS, Sólon Borges, (1965). A Maior Herança. São Paulo: Edição da Gráfica São José.
RESENDE, Enio, (2000). O Livro das Competências. Desenvolvimento das Competências: A melhor Auto-Ajuda para Pessoas, Organizações e Sociedade. Rio de Janeiro: Qualitymark
TAVARES, Raquel, (2005). “Cultura Democrática”, Trabalho de licenciatura em Intervenção Social e Comunitária, 3º ano, Vila Nova de Gaia: ISPGaya – Instituto Superior Politécnico Gaya.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Jornal: “Terra e Mar”

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domingo, 17 de setembro de 2017

Complexidade Dramática da Sociedade Contemporânea

Responder, acertadamente, a partir de uma grelha de soluções, previamente elaborada, a questões de natureza afetiva, cognitiva, motora e de cultura geral, não será suficiente para uma adequada educação-formação, em ordem à integração plena do indivíduo humano numa sociedade cada vez mais complexa.
Atingir elevados níveis percentuais de respostas certas, em avaliações psicotécnicas, sociológicas, técnico-profissionais, comportamentais e a outros parâmetros que se procuram avaliar por estes “instrumentos de medida”, não garante, à partida, total e absoluta credibilidade e eficácia sobre a pessoa avaliada, porque esta tem sempre a possibilidade de se preparar para determinado tipo de questões e, assim, falsear, por exemplo, as suas mais profundas emoções, sentimentos, conhecimentos e caraterísticas.
Naturalmente que estes instrumentos de medida, e critérios que determinam a sua utilização, têm suporte científico e sustentabilidade técnica, de resto, este princípio não está em causa, porém, a honestidade intelectual, a perspicácia, a preparação prévia, e intencional, do avaliado, podem deturpar os resultados.
Esta insuficiência deverá ser suprida, ainda assim não totalmente, com a “observação-participante” do técnico, ao longo da atividade para a qual se avaliou uma determinada pessoa, com aqueles instrumentos, porque as reações mais imprevisíveis, podem surgir a todo o momento, face a uma circunstância não prevista e/ou a variáveis que não foram consideradas, aquando da construção do questionário e da grelha de avaliação.
A humanidade entrou no século XXI, envolvida numa eufórica confiança, quase ilimitada, nas capacidades e benefícios da tecnologia e de um bem divulgado cientismo positivista que, alegadamente, tudo resolve.
A auréola técnico-científico-materialista, em que alguns setores da sociedade procuram envolver-se, tem conduzido a situações deprimentes e humilhantes, precisamente para alguns dos povos em todo o mundo, desmistificando, assim, a ideia, segundo a qual, uma educação/formação que integre os domínios sócio-culturais, não tem relevância para o progresso e bem-estar humanos.
Que máquinas, que equipamentos, que objetos têm a capacidade de dialogar, vivenciar, emocionar e sentir os conflitos sociais, étnicos, religiosos, políticos, económicos, culturais, estratégicos e outros?
Encontrar soluções consensuais e aplicá-las, com garantia de resultados favoráveis às partes em conflito? Este tipo de intervenção está, por enquanto, reservado, exclusivamente, ao homem, mas, não a qualquer homem, principalmente, se não tiver uma educação/formação para se abrir, humildemente, ao diálogo, à compreensão, à tolerância, aos valores da solidariedade, da amizade, da lealdade, da cooperação e do altruísmo.
Esta educação/formação não se consegue, apenas, com máquinas, mas também com outros seres iguais, ao longo da vida, em avaliação e formação permanentes. Se o bem-comum, a paz e a felicidade, entre outras necessidades básicas do ser humano, dependessem do potencial da maquinaria e das tecnologias, provavelmente, neste primeiro quarto do século XXI, não haveria fome, guerras, destruição e morte; analfabetismo, desemprego, doença, marginalização e exclusão, esta sob diversas formas, que facilmente se detetam entre diversos grupos: sem-abrigo; desempregados de longa duração; idosos abaixo do limiar da pobreza; crianças abandonadas e abusadas, mulheres violentadas.
O homem-professor, o homem-técnico, o homem-cientista, o homem-cidadão, o homem-religioso, enfim, o Homem em todas as suas dimensões, superiormente dotado, continua a ser insubstituível num mundo tão difícil, complicado, algo desorientado, muito descredibilizado e injusto.
 Assiste-se, com uma periodicidade preocupante, à divulgação de situações em que os amplos privilégios de uns poucos, ofendem, impunemente, a exclusão de muitos outros. O que comprova, à saciedade, que a ambição ilegítima não tem limites, na medida em que se tem vindo a fomentar a cultura do TER, a qualquer preço, não olhando aos meios, desde que se venha a possuir o que se deseja.
Esta mentalidade, que está corroendo a cultura dos valores que mais deveriam dignificar o homem, possivelmente, também é estimulada pelo aparato tecnológico, pela ostentação do último modelo de qualquer coisa, pelo domínio absoluto dos mais privilegiados, sobre um número cada vez maior de excluídos da saúde, da educação, do trabalho, dos cargos, da propriedade privada e, no limite, da própria vida.
Vive-se, portanto, num cenário dramático que urge alterar e, certamente, a intervenção dos homens de bom senso, prudentes e sábios, conseguirá vencer e conduzir a humanidade para o bem-comum, para a paz e para a felicidade. Esta é a realidade atual, não é pessimismo, mas um grito de alerta, porque ainda é possível reverter muitas situações iníquas.
Muito dificilmente as máquinas de ensinar terão capacidade para resolver todas estas situações. Serão os homens, de boa educação/formação, os professores/formadores dos valores, verdadeiramente humanos, a preparar os homens-cidadãos do futuro, por isso eles, os professores/formadores, são parte interessada na busca das soluções para os terríveis problemas que se avolumam sobre a sociedade humana, e até sobre a própria natureza envolvente ao homem: «A felicidade, dizem, não está na moda espécie de voluptuosidade; está unicamente nos prazeres bons e honestos. É para esses prazeres que tudo, até a própria virtude, arrasta irresistivelmente a nossa natureza; são eles que constituem a felicidade.» (MORUS, s.d.:97).

Bibliografia

MORUS, Thomas, (s.d.). A Utopia, Prefácio Prof. Mauro Brandão Lopes, Trad. Luís Andrade, S. Paulo: Editora Escala


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Educação e Formação da Pessoa Humana

Educar e formar pessoas humanas implica conhecimentos, técnicas e avaliações diferentes das que se utilizam na construção de objetos, sejam edifícios, pontes, estradas, máquinas ou simples peças de vestuário e outras inúmeras coisas materiais. Preparar para a vida individual de cada pessoa, e em sociedade humana, não é o mesmo que programar uma máquina.
A pessoa humana: comporta e transporta princípios, valores, sentimentos, emoções, de que resultam atitudes que possibilitam o melhor ou pior relacionamento interpessoal; que promove, havendo para isso vontade, a harmonia, a compreensão, a tolerância e a resolução de problemas sócio-culturais, pessoais e do grupo; que enriquecem as dimensões verdadeiramente humanas, como a ética, a religião, a política, a social e a interrelacional, entre outras.
Educar e preparar a pessoa para a constituição de uma família, desde logo: a começar na escolha do cônjuge, nos princípios, valores e regras a implementar na educação dos filhos; as opções pelo tipo de educação; a profissão que se pretende para o jovem; que direitos e deveres se podem conceder e exigir, respetivamente; que religião e práticas litúrgicas são compatíveis ou desejáveis, face a uma bem caraterizada cultura; enfim, tantos outros aspetos, pormenores e dimensões humanas, que é preciso acautelar, e/ou estimular e praticar, é uma tarefa grandiosa e apenas realizável pelo ser humano, justamente pela educação, formação, instrução e treino.
Educar e preparar a pessoa humana para o governo do grupo, da comunidade, da sociedade e do mundo, pressupõe um vasto conjunto de conhecimentos, de práticas, de experiências, que ao longo da vida, e de forma sistematizada, e orientada, devem ser: ensinadas e aprendidas; exemplificadas e praticadas; interiorizadas e manifestadas, por quem ensina e por quem aprende.
Preparar um técnico, para exercer, no seu domínio, determinadas tarefas específicas, durante um certo tempo da sua vida, em média, cerca de um terço da existência humana, não é a mesma coisa que preparar uma pessoa para intervir integral e sequencialmente, ao longo de toda a sua existência física. Ignorar que a pessoa humana vai muito mais além, do que o simples profissional de uma qualquer atividade, constitui uma visão insuficiente e redutora da dignidade humana.
Educar e formar pessoas humanas é bem diferente de construir engrenagens, máquinas, sistemas, objetos; domesticar e/ou amestrar animais, identificam, igualmente, outras atividades que são insuscetíveis de qualquer comparação, e/ou subordinação à/da pessoa humana.
O professor que aqui se considera necessário, valorizado e insubstituível, prende-se com outros valores, com outras caraterísticas e capacidades singularmente humanas, porque se trata do docente que trabalha e forma pessoas, não objetos, nem animais, nem sistemas, obviamente, sem prejuízo para a complexidade destas atividades.
Defende-se o professor-formador, que em comunhão de princípios, valores, sentimentos e objetivos, coopera com outros seus semelhantes, humanamente considerados, sem superioridade, nem vaidade, nem orgulho fundamentalista, porque esta última sensibilidade continua, hoje, primeiro quarto do século XXI, atual e terrivelmente real: «O orgulho, paixão feroz, rainha e mãe de todas as pragas sociais, opõe uma resistência invencível a essa conversão dos povos. O orgulho não mede a felicidade de acordo com o bem-estar, mas de acordo com a infelicidade alheia.» (MORUS, s.d.:139).
Todo o homem tem consciência que a sociedade perfeita é um sonho, uma utopia, porém, todo o homem tem a obrigação de tornar a sociedade atual, bem assim como a vindoura, menos injustas. Com tal objetivo deve ser, cada um individualmente considerado, e a comunidade no seu todo, preparados de forma superior, nos princípios e valores da sociedade utópica, obviamente, adaptados aos tempos contemporâneos, a partir da «união dos cidadãos consolidada no interior, a excelência e a solidez das instituições defendem a república contra os perigos de fora.» (Ibid.:140) e, se este procedimento se generalizar, deixa de haver quaisquer perigos, sejam de fora ou de dentro.
Verifica-se que a complexidade, ao longo da história da humanidade, na formação da pessoa humana, não é compaginável com quaisquer processos, meios e técnicas que excluam o professor/formador: seja no seu envolvimento direto e presencial; ou seja à distância, defendendo-se, nesta reflexão, a sua intervenção presencial, porque nenhuma máquina robotizada vive, pensa, sente e age como a pessoa humana.
Considerar-se-á uma indignidade educar a pessoa humana, exclusivamente, através de uma máquina, que assim se superiorizaria em relação às mulheres e aos homens, e até os escravizaria, pelo contrário, aceita-se o uso das denominadas máquinas de ensinar, como igualmente o ensino à distância, desde que o homem-professor/formador seja responsável pela programação, pelo controle, pela avaliação e altere, sempre que necessário, e também que, periodicamente, o aluno/formando possa reunir-se, direta e presencialmente, com aquele que, à distância, o vem orientando em forma de tutoria. Nestas condições até se reconhecem muitas vantagens neste tipo de ensino/aprendizagem.

Bibliografia

MORUS, Thomas, (s.d.). A Utopia, Prefácio Prof. Mauro Brandão Lopes, Tradução, Luís Andrade, S. Paulo: Editora Escala

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

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