domingo, 28 de setembro de 2014

Escola Multicultural


Certos hábitos, costumes e tradições, que ocorrem no seio das famílias, nem sempre são levados para a escola, por razões diversas: falta de abertura por parte de alguns dos responsáveis pelo sistema educativo, docentes, discentes, encarregados de educação, alunos/formandos, comissões de alunos e de pais, incluídos; ausência de currículos extra-programáticos; preconceitos de alguns agentes educativos; receio de exposição por parte das minorias étnico-sociais; recursos humanos, financeiros e infraestruturas não previstos.
Em tais circunstâncias e reconhecendo-se um vasto conjunto de condicionalismos, urge dinamizar a sociedade, desde logo estabelecendo parcerias, para se tirarem os maiores proveitos de um tão vasto e diversificado património cultural.
Criar, rapidamente, as condições para a constituição e funcionamento de parcerias, poderá ser um primeiro passo para a idealização e aplicação de projetos educativos que visem objetivos bem concretos e realizáveis, no espaço e no tempo, com público-alvo bem determinado.
Reconhecendo-se que as famílias, e a população em geral, não dispõem das condições mínimas para o arranque de tais projetos, parece pertinente admitir-se que a iniciativa parta de quem já possui conhecimentos e meios para fomentar a participação de outros parceiros, considerando-se estar em condições para um primeiro contributo, a comunidade docente, na área da investigação.
O grupo dos docentes, investigadores e pedagogos, ao elaborarem um projeto de intervenção educativa, em parceria com um outro agente, terá em atenção vários elementos étnico-culturais e sociais do respetivo parceiro, para que os objetivos delineados sejam alcançados, com os melhores resultados. Nesse sentido, investigar quais os problemas, quais os anseios, que tipo de participação pode um grupo dar ao projeto, é condição importante para o êxito da ação, que se pretende desenvolver.
Todo e qualquer projeto que ignora determinadas situações, culturas, meios disponíveis e a adesão responsável por parte dos futuros intervenientes, poderá estar condenado ao fracasso e, uma eventual reformulação pode criar resistências e suspeições. O património cultural dos povos gera nestes um sentimento nacionalista, de orgulho histórico-cultural e até etnocêntrico que é necessário saber compreender, contextualizar e valorizar no ambiente multicultural.
Por isso, a envolvência da família é fundamental: «Trata-se, consequentemente, de privilegiar uma concepção de participação familiar que considere as necessidades, os valores, as práticas educativas e as dinâmicas internas, próprias de cada família, numa perspectiva de respeito pela pessoa, pela sua cultura e pelas suas percepções particulares. A negociação e a concertação são, pois, abordagens a privilegiar.» (DIOGO, 1998:73).
Aferir-se, uma vez mais e na perspetiva da educação multicultural, da importância da família, como parceiro estratégico a privilegiar, será uma verdade irrefutável, mesmo que se considere a crise, que um pouco por todo mundo está a afetar as famílias, principalmente as mias carenciadas. Criar e proporcionar condições sócio-profissionais e económico-culturais às famílias é um desígnio universal, que todos os responsáveis políticos, pelas áreas da educação e da economia, devem procurar satisfazer.
Investir na educação, em ordem à construção de uma sociedade instruída, culta e cívica, corresponde a terminar com a maior parte dos conflitos mundiais, a médio prazo. No limite, significa, entre outras interpretações, igualmente legítimas, educar para a cidadania.
Bem no âmago da questão, estará sempre o desejo de um novo e diferente cidadão, o qual tem de ser preparado pelos agentes de socialização, com destaque, principalmente no tempo, para a família e para a escola. Deseja-se a intervenção de uma filosofia prudente
Urge proporcionar condições de interiorização de uma cultura para a cidadania, a partir da filosofia da educação, na vida ativa integrada na sociedade, na opção responsável por: princípios, valores, atitudes, participação num qualquer domínio democrático da sociedade. Nesta lógica: elaboração de teorias, projetos utópicos ou publicação de muitos artigos científicos, podem ser articulados com as experiências vivenciadas individual e/ou coletivamente e a sabedoria popular que resulta da acumulação dos saberes das várias gerações.
Educar para uma cultura da cidadania do século XXI, é um projeto que não pode dispensar a participação, tanto do cidadão anónimo, quanto do mais ilustrado académico, porque: «Em termos restritos, a cidadania consistirá, então, na inserção do indivíduo no espaço político e na participação dos cidadãos nas instituições sociais. Na perspectiva do Estado, a cidadania significa lealdade, participação e serviço em benefício da colectividade. Na perspectiva do indivíduo, a cidadania traduz-se por liberdade, autonomia e controlo político dos poderes públicos.» (FONSECA, 2001:43).
No exercício da cidadania plena, liberdade e autonomia são dois valores essenciais à dignidade da pessoa humana e, qualquer deles, entre muitos outros possíveis e igualmente fundamentais, não só devem ser divulgados e estudados, como também, exercidos plenamente.
O papel da educação revela-se aqui, e uma vez mais, de extrema importância e, nesse sentido, a escola tem a grande responsabilidade de ministrar: não só conhecimentos em redor daqueles valores; como também transmitir práticas consentâneas com os mesmos, ou seja, só em liberdade se consegue uma preparação para a vida autónoma do cidadão, por isso não se aceitará, hoje e sempre, sem mais discussão, uma escola e uma educação que ignorem as realidades circundantes a ela.
Qualquer que seja o estatuto da escola: básica, secundária, técnica, profissional, universidade, instituto politécnico, pública ou privada, ela não pode continuar a produzir trabalho científico, investigação, teorias e críticas a teorias que sirvam apenas para consumo interno e alimento para novas teorias.
 Reconheça-se que: «Uma escola alheada da vida é, talvez, a principal crítica que se lhe faz hoje. Esta crítica comporta três dimensões principais, correspondendo a: (I) redução e abstracção do mundo natural; (II) alheamento das realidades do mundo do trabalho e (III) não valorização do formando, não promovendo a criatividade e o desenvolvimento da sensibilidade e da afectividade.» (PORFÍRIO, 1992:108).
Ao novo cidadão que se deseja para este século XXI, deve ser-lhe concedida a oportunidade de exercer a liberdade e autonomia nas diversas atividades que, responsavelmente, vai exercendo ao longo da sua vida, sem qualquer prejuízo ou benefício por razões de estatuto racial, social, político, económico ou académico.
Capacidades latentes encontram-se nos vários escalões etários e sócio-profissionais e, quando os seus titulares pretendem colocá-las em prática, de uma forma legal e legítima, devem ser apoiados, por quem tem o poder institucional para os apreciar e avaliar. Pensa-se que deverá ser esta a postura dos responsáveis pelos sistemas educativos: seja na sua elaboração ou concetualização; seja na sua execução e avaliação. Com tal pressuposto, não haverá inconveniente na aprovação dos projetos apresentados pelos cidadãos.
Não se justificam certos preconceitos, a propósito de no país aumentar o número de graduados, nas diversas áreas do conhecimento, porque isso, a médio prazo, beneficiará a sociedade em geral, na medida em que passará a existir uma melhor compreensão dos problemas, mais criatividade para os resolver, ao invés de se poder estar a cair numa situação de pessoas indignadas, desmotivadas e improdutivas, porque não lhes foram reconhecidas capacidades, vocações, boa vontade, disponibilidade e alguns sacrifícios para concretizarem um projeto de vida, assente no conhecimento, na cultura, na liberdade, na autonomia, em suma, na plena cidadania que assiste à pessoa humana, genuinamente digna e que pode ser apoiada, também, pela comunidade científico-universitária.

Bibliografia

DIOGO, José M.L., (1998). Parceria Escola-Família. A Caminho de uma Educação Participada, Porto: Porto Editora.
FONSECA, António Manuel, (2001). Educar para a Cidadania. Motivações, Princípios e Metodologias, Porto: Porto Editora.
PORFÍRIO, Manuel, (1992). Metodologia do Projecto Tecnológico, Lisboa: Universidade Aberta.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 

Portugal: http://www.caminha2000.com (Link’s Cidadania e Tribuna)

1 comentário:

Fernando Rosemberg Patrocinio disse...

MAIS UM EXCELENTE TEXTO DO CATEDRÁTICO E AMIGO DIAMANTINO BÁRTOLO, SOBRETUDO EM SEU GENIAL FECHO QUANDO DIZ:

"Não se justificam certos preconceitos, a propósito de no país aumentar o número de graduados, nas diversas áreas do conhecimento, porque isso, a médio prazo, beneficiará a sociedade em geral, na medida em que passará a existir uma melhor compreensão dos problemas, mais criatividade para os resolver, ao invés de se poder estar a cair numa situação de pessoas indignadas, desmotivadas e improdutivas, porque não lhes foram reconhecidas capacidades, vocações, boa vontade, disponibilidade e alguns sacrifícios para concretizarem um projeto de vida, assente no conhecimento, na cultura, na liberdade, na autonomia, em suma, na plena cidadania que assiste à pessoa humana, genuinamente digna e que pode ser apoiada, também, pela comunidade científico-universitária".

É SEMPRE UMA GRANDE HONRA PARA MIM LER OS SEUS EDUCATIVOS TRABALHOS DIVULGADOS PELA INTERNET:
Ass: Fernando Rosemberg Patrocinio