domingo, 28 de agosto de 2011

A Busca do Equilíbrio Espiritual

Os modelos técnico-científicos e instrumentais inventados, produzidos e utilizados para a construção de um mundo mais justo para todos os seres nele existentes, parecem esgotados, pese embora todo o potencial humano, direccionado na busca de melhores condições de vida material para todos os indivíduos da natureza planetária conhecida, na circunstância, o planeta Terra.
O homem tem consciência que vive um pouco num equilíbrio de terror, porque conhece, relativamente bem, as usas próprias intenções, que resultados pretende alcançar com certas atitudes, instrumentos e materiais utilizados, nos planos que vai elaborando e desenvolvendo na prática da vida concreta, física e objectivada para determinados alvos.
Um tal equilíbrio de terror tem, sistematicamente, ignorado outras alternativas, por sinal, bem, muito bem mais compatíveis com a superior inteligência humana e com a dignidade inigualável e inquestionável que resulta da condição de ser pessoa humana.
Colocar ao serviço da guerra, da destruição, do sofrimento, da dor e da morte todo este potencial humano e os recursos naturais que Alguém criou para o benefício de todos, constitui um comportamento “bestialmente selvagem”, contra a Natureza e contra Deus, qualquer que seja a Divindade que O represente, em cada homem, em cada cultura, em cada povo.
Sempre que um homem, um grupo, uma comunidade invoca o princípio, segundo o qual, “todos nascem livres e iguais”, significará pretender agir em conformidade ou, pelo contrário, tal manifestação apenas procura encobrir a hipocrisia de quem tenciona agir, precisamente, ao inverso e desrespeitando o seu semelhante?
Salvaguardando-se as felizes excepções, assiste-se, actualmente, à mais desenfreada e despudorada destruição dos princípios e valores instituídos, desde sempre pelo Deus Universal, consubstanciados em meia dúzia de virtudes, cada vez mais ignoradas pelo homem.
A maioria das pessoas vive, para além da materialidade do mundo concreto, preocupada e em busca das soluções que da transcendência do divino poderá ter para algumas situações, ainda não resolvidas pela Ciência e pela Técnica.
A virtude da adoração a um Deus n’O qual se acredita, constitui uma possibilidade de momentos felizes, calmos e profundos, susceptíveis de repetições, tantas quantas se queiram, contribuindo para um comportamento mais solidário, porquanto: “Adorar ao Deus verdadeiro ajuda a evitar um modo de vida puramente egocêntrico. (…) A verdadeira adoração é boa para você porque o ajuda a se tornar uma pessoa melhor. À medida que se pratica a adoração verdadeira você desenvolve uma personalidade que resulta em relacionamentos mais felizes. Você aprende de Deus e de seu Filho sobre como agir com honestidade, falar de modo bondoso e ser uma pessoa responsável.” (in SENTINELA, 2006: 6 Vol.127, nº 17)
O Homem deste novo século, independentemente das suas convicções político-filosóficas e religiosas, não tem que se submeter a quaisquer complexos e/ou preconceitos para manifestar, livremente, o seu pensamento acerca de um tema, por muito melindroso que ele possa ser.
Cada religião tem os seus valores, rituais, liturgia, processos de intervenção na sociedade e condução dos seus crentes, alegadamente, para uma situação de plena felicidade espiritual.
Aliás, só com estratégias que visem a dinamização, o intercâmbio e o diálogo inter-religiões se poderá construir um mundo mais consensual, mais tolerante, porque mais ecléctico, com tudo o que de bom e dignificante cada religião comporta.
Certamente que não haverá religiões em que os seus crentes sejam bandos de marginais e de malfeitores, excluindo aqui, ainda que pontualmente, os fundamentalismos e toda a espécie de radicalismos que, ao longo da história, se têm verificado com intervenções condenáveis à luz dos valores da vida, da dignidade e do humanismo.
A importância e influência de cada religião, também, mas não só, resultam da adesão e da fé que os respectivos crentes nela depositam, sendo certo que é muito mais difícil acreditar nos valores religiosos e práticas ritualistas de uma religião que promover e defender o mal, a guerra, a desgraça e a morte.
O homem “sapiens” e “tecnologicus” deste novo milénio, tem condições para compreender, harmonizar e elaborar novas regras de boa-convivência inter-pares, adoptar atitudes tolerantes, solidárias, com a elevação espiritual que o caracteriza.
A dimensão religiosa poderá ser mais um traço distintivo que eleva o homem a uma condição superior, relativamente aos restantes animais, estimulando-se, por isso mesmo, o seu empenhamento nas práticas e intercâmbios religiosos.
A consciência religiosa de cada indivíduo humano, certamente que contribui para se atingir uma certa paz espiritual, se se preferir, a verdadeira felicidade, naquilo que ela tem de mais sublime: a amizade pura, baseada num verdadeiro Amor, qualquer que este seja, a lealdade, o carinho, a cumplicidade, a sinceridade, a tolerância, a coesão entre as pessoas, a tranquilidade, a harmonia e uma profunda auto-confiança nos valores divinos.
Bibliografia

SENTINELA, 2006: 6 Vol.127, nº 17

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Portugal: http://www.caminha2000.com/ (Link Cidadania)

domingo, 21 de agosto de 2011

Amizade: Valores e Exigências

Se  há sentimentos essenciais na vida de uma pessoa, a amizade, entre outros, constitui um bem supremo que, depois de obtida, exige total compreensão, abdicação de imposições de uma parte sobre a outra, da adaptação e aceitação, tanto das qualidades quanto dos defeitos. A amizade pressupõe exigência e rigor permanentes, sabedoria para vencer dificuldades,  intrigas e interesses obscuros.
A amizade é um sentimento sempre em progressão, em aprofundamento permanente,  numa perspectiva dinâmica, inovadora, aberta, leal e resguardada. Ela, a amizade, deve ser preservada na cumplicidade dos que se consideram verdadeiros amigos, dos que comungam um sincero “amor-de-amigo”.
“A relação de Amizade é uma grande manifestação do Amor humano. O Amor de Amigos é Amigável, puro e sem hipocrisia. A pessoa escolhe livremente gostar dessa pessoa, amar essa pessoa, a que chama AMIGO. A pessoa não está ligada à outra pelo instinto!
É uma simpatia pela pessoa. Amizade pode existir entre homem e mulher, entre homem e homem, entre mulher e mulher. Neste Amor de Amizade não há! Não existe atracção sexual (…). A verdadeira Amizade ou seja Amor de Amigos, traz muita alegria, a pessoa Ama e dá, sem esperar nada em troca. Não Ama o Amigo pelo que ele fez ou faz! Ama independentemente da ajuda, de qualquer coisa que a pessoa Amiga faça.
Nós Amamos os nossos Amigos queremos estar perto deles. Desejamos o melhor para eles. Desculpamos os erros. Temos bons pensamentos, boas palavras, bons sentimentos, bons desejos para os nossos Amigos. Desejamos tudo de bom para os nossos Amigos. Somos sinceros! Puros! Amáveis! Honestos! Leais! Verdadeiros! com os nossos Amigos. Esta é a verdadeira relação de Amizade. Gostamos dos nossos Amigos.”. (ROBERTSON, 2007, disponível em http://blogamor.blogs.sapo.pt/30407.html, consultado em 21.08.2011)
Uma amizade iniciada e desenvolvida nos valores da lealdade, da transparência, da solidariedade, da cumplicidade, da gratidão e da defesa intransigente do amigo; na exigência do rigor, da frontalidade e da boa formação humana, em quaisquer circunstâncias, muito dificilmente será destruida.
O contrário poderá levar à descrença, à infelicidade, à mágoa que se instala no coração do amigo que se sente não correspondido, onde não existe reciprocidade, onde as palavras, as promessas, os pensamentos não são acompanhados dos respectivos e consequentes actos.
Os amigos verdadeiros aceitam-se, decidem em comum, o que é bom para os dois, ambos devem ceder, perdendo e ganhando, desde que o objectivo final seja sempre a amizade sincera, leal, virtuosa, solidária e cúmplice. Devem prevalecer sempre sentimentos nobres como generosidade, carinho, humildade , solidariedade, enfim, a felicidade dos amigos.
Num mundo tão atribulado, ninguém está isento de dificuldades, de carências, da ajuda de um amigo. Nesta complexidade, a vida será tanto mais interessante quanto mais fortes forem as emoções, as causas que as determinam a vivência que se interioriza por momentos inolvidáveis. Emoções sempre repartidas pelos amigos, assumindo, sem restrições nem medos, as respectivas consequências. Emoções que eles devem enquadrar no puro “amor-de-amigo”.
Gerir as emoções é uma tarefa difícil, que requer um aperfeiçoamento contínuo da inteligência emocional, de forma a haver um controlo, mínimo que seja, porque isso se torna vantajoso para a felicidade da pessoa.
De facto, a vida poderá ser maravilhosa porque: “Nossas paixões quando bem exercidas têm sabedoria, orientam nossos pensamentos, nossos valores e nossa sobrevivência.” (GOLEMAN in RESENDE, 2000:76)
Rentabilizar, portanto, a amizade sincera, aquela que provoca alegria, mas também, por vezes, tristeza. Quaisquer que sejam tais sentimentos, eles devem ser repartidos pelos verdadeiros amigos, para que  sintam a sua relação mais forte, mais cúmplice e mais determinada. É aqui que a coesão desempenha uma função importantíssima na defesa da amizade.
Por vezes utilizam-se expressões como: “amigo-do-peito”, “amigo incondicional”, “amigo dillecto”, entre outras, porém, se com tais qualificativos se pretende transmitir, ao outro amigo, que se lhe quer muito bem, que este amigo estará sempre acima, à frente, preferencialmente a todos os  demais interesses, situações e pessoas, então os termos fazem sentido, os conceitos ajustam-se a uma amizade inequívoca, perene, pura e correspondida pelos amigos.
Em certas circunstâncias e conveniências, poder-se-á vislumbrar uma pseudo-amizade, casuística e, quantas vezes, de inconfessável oportunismo. A amizade, quaisquer que sejam as circunstâncias é um sentimento inegociável porque os amigos também se amam, aqui com o significado de: “desejar-lhe o melhor, olhar por ele, tratá-lo de forma excepcional, dar-lhe o melhor de nós mesmos. Significa a outra nossa alma gémea da amizade sincera, dos valores e exigências a ela associados, em suma, trata-se de um amar característico de verdadeiros e incondicionais amigos”. (cf. ROJAS, 1994)
Este amar não pressupõe e muito menos envolve quaisquer instintos sexuais, qualquer intenção de aproveitamento de uma situação, eventualmente, mais íntima, no sentido da cumplicidade que uma amizade verdadeira envolve. Este amar é, precisamente, uma permanente atitude de dádiva, carinho, solidariedade, entre-ajuda e incentivo para a dignificação dos sentimentos dos amigos.
Este amar não pode provocar quaisquer tristezas, mágoas e  desgostos, porque se trata de um amor sincero, puro, apenas interessado na felicidade recíproca dos amigos envolvidos. É o amar do verdadeiro “amor-de-amigo”: nobre, leal, sublime, purificador e protector das emoções irracionais e dos instintos animalescos. Deverá ser um amar para toda a vida, com ternura e prazer.

Bibliografia

RESENDE, Enio, (2000). O Livro das Competências. Desenvolvimento das Competências: A melhor Auto-Ajuda para Pessoas, Organizações e Sociedade. Rio de Janeiro: Qualitymark
ROBERTSON, Maria, (2007). Amor de Amigos. (Disponível em http://blogamor.blogs.sapo.pt/30407.html, consultado em 21.08.2011)
ROJAS, Enrique, (1994). O Homem Light. Tradução Pe. Virgílio Miranda Neves. Madrid: Ediciones Temas de Hoy, S.A.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Portugal: http://www.caminha2000.com/ (Link Cidadania)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Crianças: Os Diamantes do Mundo


É difícil imaginar o mundo sem crianças, (adolescentes e jovens), por   que é incompreensível aceitar a extinção da humanidade, aliás, uma das poucas espécies, se não mesmo a única que, globalmente considerada, ainda não estará em extinção, pese embora a redução demográfica de muitos países, a desertificação de muitas regiões e uma crescente aglomeração junto dos litorais e grandes centros urbanos e respectivas periferias.
As crianças são como o diamante puro, que precisam de ser lapidadas (educadas, formadas, sensibilizadas), mas antes disso, é necessário descobri-las, pelo único processo viável ao homem – fecundidade, reprodução, nascimento, cuidados e formação –. Os incentivos ao aumento das taxas de natalidade é, indiscutivelmente, a primeira medida que qualquer governante responsável e com uma visão de um futuro melhor, para uma humanidade envelhecida, deve tomar.
As crianças são um tesouro de valor inestimável que, devidamente utilizadas, em todas as suas capacidades, contribuirão para a riqueza das nações, justamente, através da sua educação e formação. A sociedade contemporânea, pela actuação dos seus máximos representantes: políticos, empresários, familiares, religiosos terão um papel preponderante na defesa das crianças que, como se sabe, são vítimas das maiores atrocidades físicas, psicológicas e morais.
Os países mais desenvolvidos têm, desde há várias décadas, apostado tudo na educação e formação das crianças e dos jovens (também nos adultos) e o que se verifica, sem grande esforço científico, é que nesses países o nível e qualidade de vida da população são de excelência. O investimento nas crianças é a melhor estratégia para um mundo melhor, um futuro promissor que pode beneficiar a humanidade em geral e muitos dos actuais responsáveis, aqueles que pertencem a gerações novas mas já no poder, que se tiverem uma visão estratégica para a construção de uma humanidade mais afectivista, investem numa educação com objectivos diferentes.
Uma nova filosofia para a educação implica estudo e práticas filosóficas, também estas o mais cedo possível na vida de cada pessoa. As crianças devem ser um alvo preferido, dado que nas suas precoces idades estão receptivas à curiosidade, a tudo o que é novo, são especialistas na arte dos “porquês”, então a filosofia deveria ser um domínio disciplinar do conhecimento que, transversalmente, se inter-relacionaria com todas as restantes áreas da actividade humana.
Educar crianças com autoridade significa incutir-lhes, simultaneamente, um outro valor que é o Respeito. A autoridade dos pais, exercida com tolerância e firmeza, amor e disciplina, liberdade e obediência, contribuirá para, no futuro, aquela criança saber exercer, quando adulta, este valor superior, com idênticos parâmetros, em quaisquer papéis que vier a desempenhar, sabendo sempre colocar-se na posição que lhe compete, sem usurpar os direitos dos seus semelhantes.
Uma nova filosofia para a melhoria da educação, através do enriquecimento dos paradigmas técnico-científicos, poderá ser um bom princípio a incutir nas crianças de hoje, e que no futuro serão os adultos que irão governar o mundo, em todos os sectores da intervenção humana. O enriquecimento dos actuais paradigmas passa pela introdução de valores, boas-práticas, virtudes e sentimentos verdadeiramente humanos.
Indiscutivelmente que compete aos adultos darem o exemplo, na circunstância o bom-exemplo, aquele que leva a criança a querer imitar, portanto, um modelo que possa trazer algo de melhor em relação ao que existe, porque, independentemente da subjectividade dos valores e dos gostos, sempre haverá um conjunto de procedimentos que servem o interesse do maior número possível, logo, da sociedade em geral. É pelo exemplo responsável e generoso que as crianças de hoje poderão ser os adultos que as gerações dos diversos poderes actuais não o foram.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Portugal: http://www.caminha2000.com/ (Link Cidadania)

domingo, 7 de agosto de 2011

O Desafio de Viver em Sociedade

As pessoas procuram, sempre que podem, satisfizer o maior número possível das necessidades: fisiológicas, segurança, sociais, estima ou afecto e realização. Pelo atendimento às necessidades, as pessoas procuram conforto, manifestação dos seus anseios e sentimentos, progredir na vida, prosperidade, poder, sabedoria, paz e felicidade.
O avanço da ciência, da tecnologia e da globalização que em muitos sectores profissionais e no domínio da economia já se verificam, impõe comportamentos de rigor, de produtividade, de concorrência, de flexibilidade, de mobilidade, e, mais recentemente, de “flexisegurança”. Para vencer este surto desenvolvimentista, pessoas, organizações e sistemas têm de ser competentes.
O que se pretende transmitir é a ideia de que, de ora em diante, ninguém pode viver o resto da vida rodeado pela auréola de um diploma, de um qualquer curso superior, sem se manter em permanente formação científica e técnica.
Cada pessoa será, pois, responsável: em primeiro lugar, pela busca e esforço em conhecer-se, realmente, a si própria; depois, pela elaboração das estratégias, métodos e recursos que lhe permitam elaborar o seu projecto de vida, que esclarecerá, de forma mais objectiva, qual o sentido que deseja dar à sua vida, aqui em duas vertentes: sentido material; sentido metafísico.
Viver nestes novos tempos, repletos de solicitações, de exigências, que vão para além daquelas necessidades, que entram na vida quotidiana dos indivíduos, por força de poderosos meios publicitários, constitui um desafio para cada pessoa e para a humanidade em geral.
 O sistema que faz da sociedade humana a mais avançada, pelo menos no actual estádio do conhecimento, envolve as diversas dimensões da pessoa humana: política, religiosa, social, económica, educacional, cultural, laboral, técnica, científica, comunicacional e axiológica, entre muitas outras possíveis e/ou existentes em comunidades diferentes.
A comunidade humana está, portanto, obrigada a desenvolver todo um sistema axiológico para que a comunhão de valores, princípios e normas seja o mais abrangente possível e assim poder usufruir de idênticos direitos e cumprir os inerentes deveres que cabem a cada pessoa.
Precisando melhor, pretende-se a igualdade entre as pessoas e a aplicação da justiça social, considerando, naturalmente, o mérito e o demérito de cada uma, por isso se deve evidenciar a igualdade face à lei, à responsabilidade e ao esforço de cada pessoa.
O mundo moderno, que se pretende civilizado e democrático, quaisquer que sejam os instrumentos constitucionais em que uma determinada sociedade se fundamente, tolera cada vez menos as práticas ditatoriais e, nesse sentido, implementará medidas educativas, formativas e cívicas que, gradualmente, incutam um novo conceito de cidadania.
Construir um projecto educativo à medida de determinadas vocações é um objectivo nobre que não só dignifica a instituição escolar como enriquece todos os intervenientes na iniciativa, sejam educadores-formadores, sejam educandos-formandos e qualquer outro pessoal fora do contexto escolar, mas que sinta o chamamento vocacional para uma área da intervenção educativa.
Criar e proporcionar condições sócio-profissionais e económico-culturais às famílias é um desígnio universal, que todos os responsáveis políticos pelas áreas da educação e da economia talvez pretendam procurar satisfazer. Investir na educação em ordem à construção de uma sociedade instruída, culta e cívica, corresponde a terminar com a maior parte dos conflitos mundiais, a médio prazo.
Considera-se essencial, até para consolidação da democracia, na sua pureza original, contudo, actualizada aos tempos deste novo século, aceitar, sem preconceitos, nem processos de intenção, que qualquer cidadão possa, num dato momento da sua vida e num contexto bem definido, optar por soluções de participação na vida pública, à margem das organizações político-partidárias ou integrado em listas de forças diferentes daquela em que até um determinado momento militou, quando verificar que tem melhores condições para servir a comunidade, à qual pretende apresentar o seu projecto político e, depois de sufragado, executá-lo.
Concorda-se e defende-se que a cidadania plena envolve, não só a reivindicação e fruição de direitos, mas também, o cumprimento cabal de deveres e, numa ou noutra situação, a assunção inequívoca e pronta das respectivas responsabilidades. Os Direitos Humanos são prerrogativas inalienáveis de todo o cidadão, da pessoa investida na sua completa dignidade, como tal, respeitada por toda a comunidade em geral e, particularmente, pelos detentores do poder, qualquer que este seja.
À mulher se deve, de forma substancial, tudo o que um homem poderá ser ou vir a ser. À mulher se recorre para apaziguar conflitos, para julgar com justiça, mas também com tolerância, compreensão e, porque não, com brandura. Ama-se a mulher que está, incondicionalmente ao lado do seu ente querido. Adora-se a mulher que, superiormente, junto da instância Divina, intercede pela Paz no Mundo.
No núcleo fundante da solidariedade incorporar-se-ia a amizade, a par de outras virtudes, igualmente necessárias para um relacionamento saudável, entre pessoas de um mesmo mundo, embora integradas em sociedades e pequenas comunidades diferentes nas suas culturas, religiões, sistemas políticos e valores, porém, todas iguais na sua condição de pessoas-humanas.
A Democracia Política não é um sistema perfeito, inatacável, impoluto e totalmente transparente, pelo menos em alguns contextos internacionais, onde vigora este sistema político, no entanto, apesar de todas as imperfeições, ainda assim, é o que oferece melhores condições para, pelo menos, garantir a alternância do Poder e dos representantes do povo, nos respectivos Parlamentos Nacionais.
A sensibilidade política para as questões sociais, não sendo uma qualidade genética, uma faculdade inata, que nasce com a pessoa, é, todavia, possível de se conseguir pela análise de situações, pelo sentido de responsabilidade, quando se exercem cargos, a partir dos quais se tem alguma influência na sociedade e, naturalmente, por uma aprendizagem permanente, assente em valores humanistas, como a justiça, a igualdade de oportunidades, a solidariedade e a fraternidade, entre outros.
Será necessária uma preparação bem consolidada no que respeita ao cumprimento de deveres, à assunção de responsabilidades pelos actos praticados e à interiorização de valores solidários, em relação àqueles que, sendo, naturalmente, diferentes nas vertentes étnicas, culturais, políticas, religiosas, estatutárias e biológicas, são, todavia, iguais, enquanto pessoas humanas.
O mundo técnico-científico, tal como outros universos característicos das inúmeras actividades humanas, é fundamental ao desenvolvimento sustentável e harmonioso da humanidade, porém, não é o único, nem totalmente autónomo. Cientistas, técnicos e outros interventores nos domínios práticos, terão tanto mais êxitos quanto mais se interrelacionarem com as demais disciplinas do Saber-ser, do Saber-estar e do Saber-conviver com os outros.
Numa filosofia dinâmica e moderna, de melhor e mais produtividade e rentabilidade da administração pública, seria interessante estudar a viabilidade do Estado-empresa perante o Cidadão-accionista, e que, em primeira análise, poderia revelar-se uma estratégia inovadora, com possíveis resultados positivos para a comunidade.
O poder religioso, consubstanciado na fé, assume na pessoa humana, a sua maior dimensão, pela qual, quando tudo falha na vida material, o crente consegue ultrapassar e vencer situações que nem a ciência, nem a técnica, nem a fortuna material conseguiram dominar. É este poder de auto-convicção, de auto-estima e de auto-confiança que leva aos maiores sucessos pessoais, independentemente da religião que se professa.
A pessoa de fé manifesta uma conduta perfeitamente assumida, declarada, exibida perante os demais seus iguais e será este seu comportamento que lhe garante um Poder legítimo, transcendente e que ninguém lho pode usurpar. A sua conduta ética no exercício da sua fé ilimitada, garantem-lhe um poder que, sem violência, sem armas, sem fundamentalismos, se impõe e, de certa forma, subjuga todos aqueles que, no limite e na dúvida, preferem manter-se, aparentemente, indiferentes, não hostilizando os detentores deste poder ético da fé.
O imperativo categórico, o verdadeiro desígnio universal, fundam-se, portanto, numa conduta ética, para com os homens, para com o mundo, para com Deus. O Poder Ético da Fé, mas também de quaisquer actividades humanas, poderá ser a chave para a elaboração de soluções de problemas que atormentam e envergonham a humanidade.
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
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domingo, 31 de julho de 2011

Autoridade Familiar para uma Vida-Boa

À medida que o ser humano se vai desenvolvendo nos contextos ontogenético e filogenético, revelam-se possibilidades acrescidas de atingir níveis de realização pessoal, que nenhum outro animal jamais o conseguiu, verificando-se que o processo evolutivo não estagnou mas, pelo contrário, o ritmo de realizações, para o bem e para o mal, tem aumentado de forma nunca antes inigualável.
A pessoa humana procura superar-se a si própria e aos seus semelhantes, buscando a sua própria transcendência, até aos limites possíveis da virtude e da perfeição e/ou dos vícios e da monstruosidade.
O objectivo, materializado numa vida-boa, é compaginável com a superação e erradicação dos pensamentos e actos prejudiciais aos valores, princípios e boas-práticas, que conduzem ao mais nobre e desejado desígnio humano: a felicidade individual, no contexto de uma sociedade justa, significando aqui a justiça: harmonia, compreensão, solidariedade, igualdade de oportunidades, entre-ajuda, paz para todos; o bem-estar e a felicidade de cada um e de todos.
Através dos valores que definem a dignidade humana, como a autoridade, o respeito, a obediência, a tolerância, a espiritualidade, existem grandes hipóteses de cada um se libertar de preconceitos contrários àqueles valores e, consequentemente, viver uma vida-boa, mas também se devem aperfeiçoar outras dimensões que conduzem à superioridade racional, ética e organizativa da pessoa e da sociedade.
Torna-se pertinente desenvolver as qualidades, competências e conhecimentos acima do que se consideraria normal, isto é, superando-se e transcendendo-se até se atingirem objectivos sublimes e racionalmente compreensíveis, utilizando-se aqui o conceito segundo o qual: “Transcender é substituir progressivamente os valores materiais pelos valores espirituais. As pessoas normalmente buscam a transcendência pelas trilhas religiosas. Porém, é possível alcançar o mesmo objectivo por meio do desejo consciente de evoluir aprimorando as emoções e cultivando as virtudes, ou seja, através de uma busca racional da espiritualidade.” (PIRES, 1999:42)
A superação de preconceitos, estigmas, rótulos, fobias e situações degradantes, em ordem à transcendência, deverá iniciar-se aquando da implementação do processo de socialização de cada indivíduo, precisamente no quadro das instituições sociais mais significativas e compatíveis com a pessoa humana: família, escola, Igreja, comunicação social, entidades patronais, grupos diversos e outros parceiros que participam na construção da personalidade do indivíduo e da sociedade.
O processo que conduz à transcendência é complexo, exigente, mas também, estimulante; implica, determinação, autoridade e responsabilidade; pressupõe, liberdade, criatividade e autonomia; inicia-se, ou deveria começar, no seio da família e na mais tenra idade.
Nesta perspectiva, compete aos pais e encarregados de educação exercerem a sua influência, impondo uma autoridade democrática, partilhando conhecimentos, experiências e emoções, assumindo responsabilidades.
Deverá ser no seio da família que se inicia o projecto para uma vida-boa, no respeito pelos direitos e deveres de cada membro, em que o exercício da autoridade seja recíproco, porque: “A autoridade familiar nasce e deve existir como serviço, um instrumento insubstituível de que devem dispor os filhos para crescerem progressivamente a uma mais completa maturidade pessoal, de modo que também os pais se possam realizar como pessoas a nível da família. (…) A autoridade não é um privilégio, mas um dever de consciência, não é um último recurso, mas um clima permanente que sempre se deve respeitar e proteger, mesmo quando não se encontrar em exercício. (…) A autoridade familiar não se move no plano do jurisdicismo, mas deve considerar-se como um serviço, como possibilidade de ser útil, não como meio de dobrar a vontade ou de sujeitar a liberdade das crianças.” (ALVES, 1991:51-2)
Sabedoria para gerir, conciliar e potencializar todo este conjunto de variáveis é uma capacidade exclusivamente humana, que pode proporcionar uma vida-boa, entendida como sucesso em todas as iniciativas e circunstâncias em que se envolver a pessoa, porque: “O sucesso está subordinado à felicidade e, a felicidade, está muito mais próxima da sabedoria do que da inteligência. As melhores coisas da vida brotam de fontes tão pequenas que, muitas vezes, passamos ao lado delas sem percebê-las.” (PIRES, 1999:122).
O preconceito sobre a alegada inutilidade das coisas simples, porém, eficazes, deverá, pois, ser superado como tantos outros que infestam algumas mentalidades pseudo-técnico-científicas. É necessária uma autoridade desdogmatizada para se construir o futuro de sucesso que uma vida-boa pode proporcionar.
Os investimentos a realizar pelos governantes, empresários, instituições religiosas e de solidariedade e comunidades, para proporcionar à esmagadora maioria da população mundial, melhores condições de vida, não serão tão avultados como aqueles que se utilizam na preparação e manutenção de guerras, independentemente dos objectivos a alcançar.

Bibliografia

ALVES, A. Martins, (1991). Autoridade Educativa na Família, Porto: Editorial Perpétuo Socorro.
PIRES, Wanderley Ribeiro, (1999). Dos Reflexos à Reflexão. A Grande Transformação no Relacionamento Humano, Campinas: Editora Komedi.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
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domingo, 24 de julho de 2011

Instrumentos Facilitadores da Inclusão


Reflectir sobre algumas hipóteses para minimizar o problema da exclusão é, de imediato, um primeiro instrumento que pode e deve ser utilizado, sabendo-se, embora, que a situação não será resolvida apenas com reflexões, se estas não apontarem soluções exequíveis a curto, médio e longo prazos.
Nem tão pouco se pretende inventar uma fórmula milagrosa que erradique, definitivamente, aquela chaga social que cada vez afecta mais cidadãos em todo o mundo, e constitui um libelo contra uma sociedade civilizada.
É óbvio, porém, que muito há para fazer e que muito mais se pode conseguir do que até hoje se obteve, a partir do momento em que toda a comunidade se consciencialize deste drama tão humilhante para as pessoas atingidas e acusativo para os mais directos responsáveis pela governação, privada e/ou pública, das nações e do mundo.
Eventualmente, também o cidadão anónimo poderá ter a sua quota-parte de responsabilidades nesta situação, talvez por lhe faltar a coragem cívica para denunciar os casos que conhece e os meios para agir com segurança.
Naturalmente que compete aos titulares dos cargos públicos em primeiro lugar e aos privados, complementarmente, desenvolver todos os processos em ordem à construção da sociedade inclusiva, porque não basta falar do tema, no âmbito de situações pontuais, protocolares e de circunstância.
A discussão acerca dos caminhos a percorrer, em ordem a facilitar a inclusão dos cidadãos, no seio das comunidades em que se integram ou pretendem vir a abraçar será, obviamente, diversificada e exaustiva e, eventualmente, sem garantia de sucesso total, quaisquer que sejam as modalidades, as estratégias e os métodos.
Apesar das dificuldades, à partida suscitadas, considera-se pertinente iniciar-se este debate e extraírem-se algumas ideias que possam conduzir os decisores à implementação de medidas e/ou projectos, cujo objectivo consista em reduzir o número de excluídos, nos diferentes sectores de actividade, numa comunidade local ou na sociedade mais alargada das nações e do mundo. Esta reflexão não tem a pretensão de enunciar a fórmula milagrosa, técnica ou científica para terminar com a exclusão.
Pretende-se, isso sim, alertar as consciências dos não excluídos, daqueles que, vivendo sem grandes dificuldades, generosamente, podem contribuir para ajudar os que mais precisam, independentemente de ideologias, estatutos e outras situações que se vivem nas sociedades modernas.
A inclusão das pessoas nas actividades, instituições e ocupações que lhe são próprias, enquanto cidadãos no pleno uso dos seus direitos, deveres e responsabilidades, é uma exigência, não só constitucional, como ética, moral e cívica, desde logo a inclusão na igualdade de acesso às oportunidades de melhor saúde, habitação, trabalho, educação, entre muitas outras importantes.
Ninguém deveria ser excluído por razões ilegítimas, injustas, ilegais, estatutárias ou outras, desde que, em igualdade de circunstâncias, condições e aptidões, para todos os interessados a um determinado bem, serviço ou produto, respeitando-se, aí sim, a legislação específica, elaborada e aprovada por quem tem a competência e legitimidade para o fazer, sempre no respeito pelos mais elementares direitos humanos.
Independentemente dos diversos e até plausíveis argumentos que, fundamentadamente, possam justificar determinado tipo de exclusão, a verdade é que, com excepção de quaisquer outras hipóteses, seria possível, pelo menos, reduzir o número de excluídos, aumentar e melhorar as condições de vida dos que venham a ser incluídos na sociedade, precisamente a partir de instrumentos facilitadores da inclusão, como a saúde, educação, formação, trabalho, habitação, aposentação, entre outros.
Um recurso poderosíssimo do qual dependem, praticamente, todos os instrumentos facilitadores da inclusão, situa-se ao nível da actividade política, desenvolvida pelos políticos, que concebem, aprovam, mandam executar, fiscalizam e avaliam (e são avaliados nas urnas eleitorais) as respectivas leis e projectos educativos, bem como todas as restantes intervenções na sociedade civil que, obrigatoriamente, se rege pelo sistema jurídico, implementado pelo poder político.
Resulta que toda e qualquer situação de exclusão é da responsabilidade, em parte, dos detentores de cargos políticos, com poderes numa determinada área da governação, relacionada com a natureza de uma dada exclusão.
Igualmente a sociedade civil no seu todo e o indivíduo em particular tem, uma quota-parte de responsabilidade, sempre e quando se acomoda à espera que o Estado resolva tudo. A iniciativa de todo o cidadão é livre e dever ser exercida, desde que para fins legítimos e legais.
Independentemente de qualquer hierarquização de instrumentos facilitadores, e/ou determinantes para a construção de uma sociedade inclusiva, considera-se que a educação-formação desempenha um papel fundamental, tanto mais imprescindível quanto mais se prolongar na vida de cada cidadão.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Portugal: http://www.caminha2000.com/ (Link Cidadania)

domingo, 17 de julho de 2011

A Antropologia ao Serviço da Pessoa-Humana


Cada vez se torna mais pertinente uma ciência da antropologia, precisamente ao serviço do homem, considerado na sua dimensão última, ou seja, um ser à imagem e semelhança do seu Criador.
Quaisquer que sejam as teorias, o homem confronta-se, de facto, com um avassalador progresso científico que, por vezes, colide com valores e princípios ético-morais que são fundamentais para os Direitos do Homem. Um dos autores mais sensíveis a uma abordagem do progresso científico, em termos culturais e axiológicos e, concretamente, ético-antropológicos foi Paul Feyerabend.
Este autor: “denuncia uma concepção de progresso científico gerador de injustiças e do domínio da cultura ocidental sobre outras culturas consideradas subdesenvolvidas. (...) É contra esta forma de universalismo, negador das especificidades de cada cultura que Feyerabend ergue a sua voz: Em todo o mundo as pessoas elaboram instrumentos de sobrevivência em meios em parte perigosos.” (Id. Ibid.:2).
Naturalmente que não é isso que hoje se pretende das ciências e, por força de razão, não é isso que os filósofos exigem das ciências cognitivas, na medida em que ao exagerar a intervenção das ciências ditas positivas, verifica-se que, alguns deles e, concretamente, os teóricos das ciências sociais, políticas e outros intervenientes actuam na sociedade: “O modo como os problemas sociais, os problemas de assistência a idosos e assim por diante são resolvidos nas nossas sociedades podem, a traços largos, ser descritos nos seguintes termos: levantar-se um problema. Não se faz coisa nenhuma a seu respeito.
As pessoas são afectadas. Os políticos difundem a sua preocupação daí decorrente. São convocados os especialistas. Os especialistas elaboram teorias e planos que neles se baseiam. Os grupos de pressão próximos do poder, com especialistas ao seu serviço, introduzem diversas modificações neste primeiro trabalho... (...)
Temos hoje uma situação em que as teorias sociais e psicológicas do pensamento e da acção humanos tomaram lugar deste pensamento e desta acção em si próprios. Em vez de interrogarem as pessoas implicadas numa situação problemática, os gestores do desenvolvimento, os educadores, os tecnólogos e sociólogos extraem a sua informação acerca do que essas pessoas realmente querem e precisam de estudos teóricos realizados pelos seus prezados colegas nos campos considerados relevantes.
São consultados modelos abstractos e não seres humanos vivos: não é a população-alvo que decide, mas os produtores dos modelos. Os intelectuais de todo o mundo têm por adquirido que os seus modelos serão mais inteligentes, farão melhores sugestões, aprenderão mais capazmente a realidade dos seres humanos por si próprios.” (Id. Ibid.:2).
Esta análise feyerabendiana, citada pelo Prof. Doutor. Alfredo Dinis, é extremamente pertinente e, a situação timorense não esteve longe deste método, onde, segundo se afirma, efectivamente o povo maubere não foi, no passado recente, auscultado pelos políticos e militares, sobre o que seria melhor para a salvaguarda dos seus Direitos Humanos, designadamente, aqueles valores que se enquadrariam, nesta fase de segunda geração, ou seja, direitos sociais.
 Evidentemente que não está em causa a competência, a dedicação, o altruísmo de todos os que então tentaram reconstruir Timor; o que importa aqui é a metodologia utilizada que não poderia ser influenciada por interesses alheios aos timorenses.
Seguramente que não há “receitas” perfeitas nem milagrosas e o método feyerabendiano também não o é, na medida em que a objectividade, supostamente existente nas aspirações das populações-alvo, tem de ser trabalhada, pelos homens da ciência e pelos teóricos, pensada pelos filósofos, de tal forma que os dados concretos recolhidos, junto das comunidades, tenham em conta as suas culturas, os diálogos culturais entre culturas diferentes, conceitos e princípios diversos e até divergentes.
Torna-se essencial ter em conta que o discurso antropológico vem sendo objecto de intensa mudança, as dicotomias corpo-alma, matéria-espírito, também enfrentam graves problemas.
Nesta linha de pensamento, parece pertinente a tese do Prof. Alfredo Dinis quando ensina que: “...A ciência, mesmo a ciência da natureza, do universo material é, de facto, uma grande investigação acerca da humanidade. Na verdade, quando perscrutamos o espaço intergaláctico, não estamos apenas à procura de estrelas ou planetas semelhantes à Terra, ou de buracos negros ou estrelas... Estamos à procura de nós mesmos.
Andamos permanentemente inquietos em busca de nós, movidos por uma inquietação talvez inconsciente, por uma inquietação que tem no mais íntimo de nós a sua nascente, naquela profundidade misteriosa como um santuário onde nem mesmo nós ousamos penetrar.
E lançamo-nos então para fora de nós, à procura de nós, lá longe, muito longe, mergulhados como ébrios no infinitamente distante dos espaços siderais, ensaiando talvez os mergulhos que sonhamos no infinitamente perto que está em nós. (...)
É precisamente neste sentido que entendo que toda a ciência é, ultimamente, antropologia, e que todo o progresso científico só tem sentido se for visto como uma categoria antropológica. Mas tudo isto exigirá, certamente, um novo modelo de saber.” (DINIS, 2000:3 – parte final).
A reflexão que antecede conduz, efectivamente, a uma posição que se pode aceitar como de grande humildade, no sentido em que, não basta haver uma Declaração Universal dos Direitos Humanos, comprovadamente de matriz ocidental, se se ignorarem as tradições, as culturas, os hábitos, usos e costumes, o direito natural e consuetudinário de outros povos, noutros pontos do mundo. Quem somos nós, para criticarmos outros seres humanos cujos valores e princípios nós, ocidentais, preconceituosamente pretendemos negar.
A manter-se esta mentalidade, certamente, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, dever-se-ia denominar, “Declaração Ocidental dos Direitos de Alguns Povos”, porque, mesmo no ocidente, existem divergências quanto à importância de certos valores, como por exemplo a vida.
O direito à vida em quaisquer circunstâncias, ainda não foi absolutamente conseguido, veja-se o que se passa em alguns Estados Norte Americanos e diversos países onde a pena de morte, em início do século XXI, ainda vigora.
Na origem dos Direitos Humanos estão alguns valores que, por sua vez, têm a sua própria fundamentação: “...a tradição ocidental que conjuga o altruísmo e o individualismo. O dualismo apresenta duas faces: uma necessária e outra convencional (...) Em sua face convencional temos as regras sociais fundamentais nos interesses humanos. (...) O ocidente foi fundado por dois acidentes históricos, o milagre grego e o cristianismo. (...) Quanto ao cristianismo o advento de Deus na história forneceria uma resposta que, no entanto, foge ao escopo Popperiano.” (PEREIRA, 1993:173-75).
Na passagem acabada de citar é evidente uma defesa do racionalismo como uma opção moral, que cria os valores e se ilustra muito bem no seguinte trecho extraído da obra A Sociedade Aberta: “Acredito que a nossa sociedade ocidental deve seu racionalismo, sua fé na unidade racional do homem e na sociedade aberta, e especialmente sua feição científica, à antiga crença socrática e cristã na fraternidade de todos os homens e na honestidade e responsabilidade intelectual.” (Id. Ibid.:168)

Bibliografia



DINIS, Alfredo, (1998). Implicações de Desenvolvimento em Biologia e Ciências Cognitivas, in Revista Portuguesa de Filosofia, Tomo LIV, Braga, 1998, Fasc. 3-4
DINIS, Alfredo, (2000). O Progresso Científico como Categoria Antropológica, II, A, 1-A (Apontamentos), Braga: Faculdade Filosofia de Braga, S.A.
FEYERABEND, Paul, (1997). Tratado Contra el Método. Tercera Edicion, Madrid: Teknos. 
PEREIRA, Júlio César Rodrigues, (1993). Epistemologia e Liberalismo, (Uma Introdução à Filosofia de Karl R. Popper), Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Colec. Filosofia – 9, EDIPUCRS, (pág. 163-177)
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Portugal: http://www.caminha2000.com/ (Link Cidadania)