domingo, 26 de agosto de 2012

Melhorar as Relações Humanas para a Reconciliação


O deficiente relacionamento entre pessoas é, praticamente, um dado adquirido, que dispensa a exigência da validação científica. As pessoas, independentemente das respectivas atividades, graus de parentesco, laços de amizade, interdependência entre elas, valores, princípios e objetivos que norteiam as suas vidas, têm dificuldade em se relacionarem numa base de Solidariedade, Amizade, Lealdade, Verdade, Igualdade, Confiabilidade e Reciprocidade.
Os conflitos pessoais, institucionais e internacionais, nascem, quase sempre, de posições assumidas por uma das partes, que não agradam à outra, a qual, por sua vez, muitas vezes, responde em tom ainda mais radical, em vez de abordarem a questão numa perspectiva transparente, conciliadora, respeitosa, compreensiva e tolerante. Por vezes reage-se com a agressividade da indiferença, da desconsideração, do afastamento de que respeitosamente elabora uma crítica sincera, porque quando se é amigo, deve-se criticar pedagogicamente.
Por outro lado, a atitude reconciliadora, depois do conflito ter surgido é, igualmente, desconsiderada pelas partes, quando em boa verdade, uma reconciliação feita à luz dos sentimentos de generosidade, de abnegação e espírito doador, seria um processo redentor e de pacificação amigável, entre pessoas, instituições e nações desavindas. Pacificar as pessoas pressupõe que: “Amemos a verdade e faremos a paz dinâmica e construtiva pela reconciliação (…). Fomentar ódios e rancores, impor aos adversários a humilhação e a injustiça, é destruir o futuro…” (ARAÚJO, s.d.:310).
Educar e formar os cidadãos, qualquer que seja a idade e estatuto, para desenvolverem hábitos de relações humanas sadias, sinceras e leais, é uma tarefa que se impõe lançar nas famílias, nas escolas, nas Igrejas, entre amigos que verdadeiramente se gostam, nas demais instituições, nas associações e empresas, em todas as comunidades e na sociedade global em geral, porque qualquer processo que vise reconciliar pessoas, instituições e nações, só poderá concluir-se com êxito, se os intervenientes souberem relacionar-se de igual para igual.
Quaisquer que sejam as técnicas, para a comunicação e relacionamento interpessoal, elas serão ineficazes se as relações humanas, antes de todas as outras: profissionais, comerciais, políticas, etc., não assentarem em princípios de transparência, de verdade e de respeito pelo outro; em sentimentos puros de amizade incondicional, obviamente, quando se chega a este nível de relação.
Atitudes de auto-estima, de escuta ativa, de concentração nas mensagens, de contacto directo, de eliminação de preconceitos e juízos de valor, beneficiam o acto comunicativo e, principalmente, criam um sentimento de empatia pelo interlocutor, de tal forma que qualquer das partes se: “esforce por se colocar na posição do seu interlocutor a fim de conseguir situar as informações que lhe estão a ser transmitidas em relação ao seu ponto de vista.” (DIOGO, 2004:II-14)
O relacionamento humano, ao nível da comunicação, é essencial hoje em dia, sejam quais forem os objetivos a atingir, na medida em que constitui um dos principais instrumentos que o ser humano sabe utilizar e dominar, para o bem e para o mal, com grande competência.
Por isso, se torna absurdo não potencializar a capacidade comunicativa para a resolução dos problemas, dos conflitos, das boas-relações, enfim, para a pacificação do mundo, aliás, o desentendimento existente entre indivíduos da mesma espécie, revela, essencialmente, uma postura preocupante – a humanidade não se concilia porque não quer aprender a conciliar-se e, quando aprende, não quer utilizar os conhecimentos e as boas-práticas, entretanto, adquiridos.
A questão que se coloca prende-se com o futuro, na perspectiva dos legítimos interesses das novas gerações, isto é, até que ponto os atuais dirigentes, quaisquer que sejam os seus papéis, têm o direito de prejudicar as desejáveis boas-relações das gerações vindouras? Até que ponto não é dever destes mesmos dirigentes preparar um mundo pacífico, para as próximas gerações?
Os conflitos continuam: a nível local, regional, nacional e mundial. E se é verdade que: uns se resolveram; também é certo que outros continuam, há décadas, por solucionar; outros, ainda, são alimentados, indefinidamente, sem fim à vista; alguns outros, mais recentes, criados de novo, aparentemente, sem se terem esgotado todas as alternativas civilizadas e democráticas, pesem, embora, o longo tempo decorrido e as alegadas situações para o efeito invocadas.
Pacificar a humanidade, quando alguns poderosos tudo fazem para lançar e depois manter conflitos, alegadamente para livrar o mundo de ditadores, de presumíveis armas, de situações de violência internacionalizada, como o terrorismo, a guerrilha, do narcotráfico e outros males, que a todos atormentam, não parece ser a solução que convém para um mundo que se pretende civilizado, humanizado, solidário. Primeiro, o Diálogo, até se esgotar todas as possibilidades de sucesso; depois, os recursos mais drásticos, como as sanções administrativas, os embargos, etc. Já bastam as situações naturais que por vezes originam conflitos sociais.
A ausência de diálogo e a presença das armas, de facto, parece não estar a resultar, em diversos países e as consequências são os milhões de vítimas inocentes que, certamente, não desejam o conflito armado: “Todavia, parece que a melhor maneira de reconhecer os conflitos e de dar vazão a eles não é a força, a guerra, mas, sim, o diálogo e a política. É justamente por intermédio do espaço público, democrático e do debate exaustivo e participativo, do embate de ideias, que talvez possamos sonhar com uma sociedade mais humana”. (GRACIOSO, 2006:53).

Bibliografia
ARAÚJO, Miguel. (Dir./Coord.). (1974). DICIONÁRIO POLÍTICO: Os Bispos e a Revolução de Abril. Lisboa: Ispagal
DIOGO, Rita (2004). Relações Humanas. Lisboa: IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional
GRACIOSO, José (2006). “A Vida em Sociedade e os Conflitos Humanos”, in Filosofia. Ciência & Vida. São Paulo: Escala. Ano I, (1)
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 

Portugal: www.caminha2000.com (Link Cidadania)

domingo, 19 de agosto de 2012

Direitos Humanos: Alicerces da Dignidade


Pode-se abordar a problemática dos Direitos do Homem, a partir de várias possibilidades estratégicas, metodológicas ou mesmo teleológicas, contudo, numa forma simples e clara, parece pertinente invocar as máximas universais: «Todos os Seres Humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.» (D.U.D.H., Artº 1º) e: «Nunca perca a fé na humanidade,
pois ela é como um oceano. Só porque existem algumas gotas
de água suja nele, não quer dizer que ele esteja sujo por completo
.» (
Mahatma GANDHI, disponível em: http://pensador.uol.com.br/autor/mahatma_gandhi/7/).
A comemoração do sexagésimo quarto aniversário da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (10 Dezembro 1948-2012) que, infelizmente, ainda não solucionou os conflitos e fundamentalismos económicos, políticos, bélicos, éticos e religiosos, deve constituir real incentivo e preocupação para que as problemáticas dos Direitos (e Deveres) Humanos comecem a ser tratadas com o devido e merecido discernimento e a seriedade que merecem.
É sabido que, hoje, ainda que, possivelmente, menos que ontem, os Direitos Humanos, que abarcam um conjunto muito vasto das dimensões da vida humana, ainda continuam a ser tratados, por diversos países, como “carta de boas intenções”, tentando “camuflar”, interesses económicos ou burocracias instaladas, por ditaduras e repressões políticas e religiosas.
A manifesta dissimulação com que os Direitos Humanos são invocados é objecto de denúncia por parte das Organizações Não-Governamentais, do olhar indiscreto dos Media, dos biliões de pessoas que sentem a miséria, a fome, a doença, o analfabetismo, a intolerância, a discriminação, a violência e a guerra.
Por outro lado, novos desafios apareceram: terrorismo organizado, toxicodependências diversas, rapto de pessoas, eutanásia, clonagem, degradação e delapidação do meio ambiente, as crises económicas e financeiras, a falta de solidariedade de alguns países ricos para com os mais pobres, o próprio processo de globalização que, por vezes, funciona de forma desumana.
A subordinação dos cidadãos à força do poder dos que “querem, podem e mandam”, verifica-se um pouco em todos os cantos do mundo. Os relatórios da Amnistia Internacional, das Organizações Não-Governamentais e denúncias dramáticas da própria Igreja Católica, são a prova insofismável de que ainda “há muitos pingos sujos a sujarem o oceano da humanidade” a qual se pretende livre, justa, digna e pacífica! Uma humanidade onde toda a pessoa humana se sinta igual ao seu semelhante, naturalmente, em direitos e deveres.
A problemática dos Direitos do Homem é muito complexa, porque este conceito é tão frequentemente utilizado, como raramente esclarecido, mas é indispensável clarificá-lo, porque coloca tais direitos no centro da política, no seio das relações entre o Poder e a Pessoa, o que determina, deste modo, a política dos direitos, isto é, a conduta dos homens em sociedade, face aos seus possíveis direitos.
Dito de outro modo: «Os direitos do homem são a resultante principal e o sinal mais revelador da relação entre o poder e a pessoa, ou seja, da primeira relação política. Assim, a sua problemática é a do próprio Poder. No seu conjunto, a Filosofia política negligenciou, durante muito tempo a pessoa e as suas prerrogativas para se interessar, preferencialmente, pelo Poder, dirigindo-se à pessoa apenas por via indireta.» (MOURGEON, 1982:34)
Naturalmente que a conduta dos homens, em sociedade, tem a ver, necessariamente, com o reforço da responsabilidade individual, tanto mais necessário, quanto mais livre essa sociedade for.
A responsabilidade individual aparece, assim, associada ao tema “liberdade” ou, noutra perspectiva, a liberdade anda sempre associada à responsabilidade, aliás, «A necessidade de liberdade e de autonomia é tão congénita ao homem como a do Poder, constituindo ambas as componentes principais da política, num antagonismo permanente. A tragédia da política e dos direitos do homem está toda na divisão da pessoa e, a partir daí, da sociedade, entre a obediência e a libertação.» (Ibid:38)
Hoje, não se pode falar de responsabilidade individual sem referência a valores, da origem destes, os quais nasciam, tradicionalmente, na sociedade e eram apoiados pela família e pela Igreja, afinal, para a própria preservação do Estado Democrático, em cujos vértices se situam a liberdade, a responsabilidade e os valores, capazes de fundamentar, nos membros da sociedade, a vontade de defender e consolidar a liberdade.
Tais valores que se identificam com o amor da liberdade, com as virtudes cívicas (verdade, solidariedade, lealdade, trabalho e Direitos Humanos), cuja diversidade de aplicação, comporta uma dualidade de tendências simultâneas: «A tendência para a reivindicação dos direitos face ao Poder e a Tendência para a organização dos direitos pelo Poder, levadas às últimas consequências: a primeira, é a mãe das resoluções; a segunda origina repressões.» (Ibid:43)

Bibliografia
AMNISTIA INTERNACIONAL – Secção Portuguesa, (s.d.). Declaração Universal dos Direitos do Homem, Nova York: Assembleia-geral das Nações Unidas 10/12/1948.
BÁRTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2012). Direitos Humanos: Alicerces da Dignidade. Lisboa: Chiado-Editora.
MOURGEON, Jacques, (1982). Os Direitos do Homem. Lisboa: Publicações Europa-América. 

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Portugal: www.caminha2000.com (Link Cidadania)
                                                                     http://www.webartigos.com/autores/bartoloprofunivmailpt/

domingo, 12 de agosto de 2012

Ética e Homem

A Ética, como ciência da praxis humana, que visa dirigir a vida no respeito pelos direitos e deveres de todos e de cada um, tem de estar presente na consciência das pessoas. A Ética como a disciplina dos deveres, principalmente no que a cada pessoa tem a obrigação de fazer, de se comportar, enfim, de contribuir para um relacionamento humano mais saudável, em todos os contextos.
A importância da família não deve, portanto, ser menosprezada pelos seus próprios elementos, os quais devem, eles próprios, isso sim, procurar por todas as formas admissíveis, a melhor harmonia e progresso. Na verdade, muitos são os problemas que afetam a estabilidade familiar, podendo citar-se, entre os que mais contribuem para a discórdia, no seu seio e que, inexoravelmente, passam à sociedade e provocam nesta, desequilíbrios mais ou menos profundos.
Numa sociedade cada vez mais complexa, e tendo em conta uma determinada orientação filosófico-religiosa, ao nível do matrimónio legal e religiosamente celebrado, os atos sexuais naturais, praticados em comunhão recíproca dos cônjuges, com amor, afetividade e respeito, são aceitáveis pela Ética e pela Lei Divina, contribuindo, com a sua quota-parte, de forma eficaz, para a harmonia e felicidade conjugais, para a estabilidade e progresso da família, para o equilíbrio e tolerância da sociedade.
A Ética assume, na vida sexual, uma importância fundamental, tanto mais decisiva quanto mais vincula o indivíduo a uma praxis verdadeiramente humana, consentânea com os valores mais profundos que todos devem desejar reativar, agora que se iniciou um novo século, do qual se espera uma era de paz, de prosperidade, de amor e de progresso controlado, vocacionado para a supressão da fome, do ódio e da guerra.
A família, como é sobejamente conhecido, constitui a primeira e a mais significativa estrutura organizado, como construto de uma sociedade, de resto, a família é a célula a partir da qual se formaram os clãs, as tribos, as comunidades, as sociedade, as nações e o mundo humano, em que as gentes deste universo vivem, com as suas tradições, culturas e civilizações.
A Ética é, portanto, a base normativa da tarefa do homem-ser-homem, inviolável, intimamente pessoal, a que nenhuma autoridade terrena tem acesso. A Ética como disciplina normativa, do foro íntimo de cada ser humano, subordina a si todas as demais disciplinas práticas, e tanto mais quanto mais íntima e direta é a relação destas com o humano.
O homem é um “ser-com-os-outros”, numa atitude dialógica permanente e, como tal, palco de inúmeras atividades, especificamente humanas. A atividade política é, neste contexto heterogéneo, uma vertente ou dimensão do homem que não o globalizando ou substancializando, não deixa, porém, de ser um componente importante, na caraterização do seu todo.
Nos dias atuais, coloca-se, também, a questão de se saber se o progresso moral e espiritual acompanham o progresso técnico-material. Com efeito, a descoberta de técnicas que ainda há bem poucas décadas seriam uma utopia, e a consequente aplicação de práticas, revelam até que ponto pode a grandeza do homem chegar, todavia, tal dimensão será ela, por si só, dignificante do homem como pessoa humana, ou conduzirá, pelo contrário, à escravidão e humilhação do mesmo homem, que a desenvolveu?
Atualmente a Ética terá de ser a disciplina nuclear em todos os currículos escolares, sejam de natureza técnica, cultural ou científica. Há que ressuscitar a moral fundamental de há dois milénios. Urge dinamizar as Igrejas no mundo, no sentido da concretização da mais íntima união da Igreja com toda a família humana, porque ela é a vocação do homem, porque o homem é criado à imagem de Deus e Este é Supremo Bem, cúpula celestial de todas as cúpulas terrenas.
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
 
Portugal: www.caminha2000.com (Link Cidadania)

domingo, 5 de agosto de 2012

SAL: Fonte das Relações Pessoais

Ao longo de muitos séculos, o sal funcionou como moeda de troca, isto é, de pagamento de bens, qual valor precioso que comandava as relações comerciais entre pessoas, porque já então se lhe reconhecia, também, uma caraterística muito importante e indispensável, para o tempero das refeições (também designado por cloreto de sódio).
«O sal era, até ao início do século XX, um importante conservante alimentar. A tal ponto chegava a sua importância, que foi até mesmo usado como forma de pagamento no período romano, sendo esta a origem da palavra "salário". Por este motivo as explorações de sal chegaram a ter valor estratégico, inclusive tendo sido criadas vilas fortificadas para defender as salinas.
Historicamente a exploração de sal se realizava em salinas das zonas costeiras e dos mananciais de água salgada (que atravessam depósitos de sal no subsolo). Mais modernamente, os depósitos subterrâneos passaram a ser explorados através de minas, com isto as salinas de manancial foram perdendo importância e sendo abandonadas durante o século XX.» (Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Sal_de_cozinha, consultado em 09.06.2012)
O Sal continua, nestes tempos modernos, a desempenhar um papel importantíssimo nos “temperos”, porém, em quantidades moderadas, sob pena de prejudicar a saúde individual e, por efeitos da cultura nacional, também a da população, de resto, sabe-se que em Portugal, se abusa deste sal.
Mas o SAL a que o título desta reflexão se refere, e que está codificado numa sigla é, também, essencial à vida, porque sem a aplicação dos ingredientes que contém, a felicidade fica bem longe de cada pessoa, a relação entre os seres humanos depende, quase que exclusivamente, da combinação dos elementos que compõem este SAL maravilhoso.
A sociedade cada vez mais consumista, (para quem pode, obviamente), mais materialista, nem sempre dá importância a certos constituintes que enriquecem a relação humana, que consolidam valores essenciais à vida da pessoa verdadeiramente afável, que contribuem decisivamente para a felicidade, qualquer que seja o conceito deste supremo valor, pelo qual se luta incansavelmente.
O SAL que aqui é trazido à reflexão, tal como outros elementos das diversas dimensões humanas, é um conjunto de valores, diga-se que, um primeiro tripé que, a par de outros, ajuda à realização axiológica da pessoa profundamente sensível, à relação sadia, alegre e assertiva de cada um em particular e de todos os seres humanos em geral, de tal forma que, no conjunto, se alcança a dignidade da pessoa.
É impossível conseguir qualquer forma de satisfação, ao nível da realização humana mais elevada, sem que estejam devidamente assumidos, praticados e consolidados os ingredientes deste SAL da vida, porque se trata de um SAL muito especial, que não está à venda em nenhum estabelecimento comercial, que não se negoceia e que, pelo contrário, ou se luta por ele e se aprimora e se entrega ao outro, nosso semelhante, ou nunca o viremos a possuir e a gozar dele.
O SAL a que se refere esta breve reflexão é composto por três elementos essenciais, insubstituíveis, invendíveis, para quem se quer muito bem, para quem deseja lutar por uma vida muito mais feliz, mais digna, mais elevada. Este SAL é a sigla: “S” de Solidariedade; “A” de Amizade e “L” de Lealdade. Repare-se que a Amizade fica protegida, justamente no meio, pelos/dos outros dois grandes valores – Solidariedade e Lealdade -, que só no ser humano se concretizam (ou não) conscientemente.
É já um lugar-comum, porém, infelizmente, com uma grande dose de verdade, dizer-se que se vive uma crise de valores, mais acentuada do que qualquer outra crise económica e/ou financeira ou, ainda, de outra natureza. Muitas pessoas estão subalternizando valores próprios da dignidade humana, do relacionamento puro entre elas, colocando, em primeiro lugar, outros interesses, situações e objetivos.
Este SAL da vida digna, próprio de quem se deseja ser pessoa de bem, começa a ser trocado, traído, ridicularizado, fortemente desvalorizado, para se atingirem fins menos consentâneos com a dignidade da pessoa virtuosa.
Por vezes, entregamos com entusiasmo, com sinceridade e esperança, os ingredientes deste maravilhoso SAL, a pessoas em quem confiamos, a quem desejamos o melhor do mundo, mas nem sempre somos reconhecidos e, muito menos ainda, retribuídos por tais pessoas, porque estas, entretanto, optaram por outros valores, por outras pessoas, com atitudes e comportamentos casuísticos que, materialmente, até lhes são úteis, num dado período das suas vidas.
É bem provável que tais pessoas, que traíram aqueles que tudo lhes confiaram, um dia se sintam arrependidas (o que é um bom sentimento), que se autocondenem pela deslealdade que assumiram, pela negação da solidariedade a que, em consciência e como pessoas de bem, estariam moral e eticamente, obrigadas, ou, pelo menos, gratas.
Por outro lado, a infelicidade, mais tarde ou mais cedo, poderá bater-lhes à “porta” e, aquelas pessoas a quem se tenham aliado, por meros interesses materialistas e casuísticos, já não estejam disponíveis para continuarem a ajudar, até porque, entretanto, aperceberam-se do oportunismo e do calculismo que comandou a aproximação daquelas, as atitudes e comportamentos “afáveis”.
As máscaras vão caindo e, no final, vão estar aquelas pessoas que ofereceram, justamente, o SAL da vida digna, com solidariedade, amizade e lealdade. Temos de preservar o SAL de quem é verdadeiramente nossa/o amiga/o e a estas pessoas não temos o direito de as enganar, porque de contrário, nem de nós próprios somos dignos e perderemos todo o respeito, toda a nobreza que nos é devida, enquanto pessoas verdadeiramente humanas e de sentimentos puros, inegociáveis, intocáveis, supremos.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Portugal: www.caminha2000.com (Link Cidadania)

domingo, 29 de julho de 2012

Relações Humanas


O imperativo que determina e se impõe, com inevitável insistência, nas sociedades humanas atuais, pode denominar-se por “Relações Humanas”, naturalmente bem construídas sobre os alicerces dos valores ético-deontológicos e humanísticos, desenvolvidas através do diálogo assertivo e consolidadas nos resultados do bom relacionamento interpessoal.
A sociedade é complexa porque constituída por indivíduos únicos, também eles complexos, titulares de direitos e deveres individuais e coletivos. Qualquer que seja o papel que a cada indivíduo, ao longo da sua vida vá desempenhando, ele terá sempre a inevitabilidade de se relacionar com o seu semelhante, sendo que uma grande parte do seu relacionamento se verifica em duas situações, maioritariamente bem definidas, no seu percurso biossocial: na família, na atividade profissional.
Pelo comportamento individual assim a sociedade caminhará, num determinado sentido, com objetivos nem sempre bem esclarecidos, devido, em muitas circunstâncias, à ausência de valores, de regras, de ações transparentes.
A sociedade poderá ser, obviamente, muito melhor em diversos aspectos da vida comunitária, desde que as relações humanas contemplem normas civilizadas e eticamente corretas: «Para tanto é preciso que nossas ações profissionais sejam incorporadas de sentido humanitário, cooperativo e direcionadas para a justiça social, fazendo de nós profissionais, pessoas comprometidas e responsáveis enquanto parte construtora do tecido social e do destino de nosso povo. A análise crítica de nossas ações é que dará o direcionamento de nossa vida pessoal e profissional, fazendo de nós cidadãos responsáveis e comprometidos” (PUGLIESI, 2006:2)
A tónica para o desenvolvimento de relações humanas sadias, frutuosas e duradoiras passa pela ação comunicacional, pelo ato comunicativo entre pessoas, entre grupos, entre nações. Não haverá outro caminho mais seguro e pacífico do que aperfeiçoar todas as técnicas, estratégias, metodologias para uma prática de relações humanas que possa estar acima de todo e qualquer interesse ilegítimo.
A instituição de um paradigma comunicacional impõe-se hoje à sociedade universal, sendo urgente implementar todos os recursos possíveis para que o relacionamento humano intercultural, interreligioso, intergrupal, interplanetário seja uma regra e não uma exceção.
Só por uma atitude de leal e transparente comunicação as pessoas se podem relacionar sem receio, com a certeza que o seu interlocutor compreenderá as posições do seu semelhante porque também ele usará dos mesmos princípios e regras do diálogo assertivo.
Não será de estranhar a análise, segundo a qual: «O paradigma comunicacional surge na cultura ocidental no contexto de uma crise social, política, ética e económica. A sua emergência assume, por um lado, o objetivo terapêutico de pôr fim a um conjunto de processos anómicos, (desorganizados), decorrentes da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais e, por outro, o desejo de difundir profusamente uma profilaxia baseada na comunicação, que permitisse evitar futuras ruturas e desequilíbrios sociais.” (DIAS, 2004:33)

Bibliografia

PUGLIESI, E. S. “A Ética e o Administrador” in www.metrocamp.com.br (Artigos) Abril-2006
DIAS, F. N. Relações Grupais e Desenvolvimento Humano. Lisboa: Instituto Piaget. 2004
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

 Portugal: www.caminha2000.com (Link Cidadania)

domingo, 22 de julho de 2012

Gestão da Amizade


O mundo das relações humanas é extraordinariamente complexo, e só uma excelente preparação nos domínios dos saberes, dos princípios, dos valores, dos sentimentos e dos comportamentos é que permite ultrapassar as dificuldades que, diariamente, se colocam entre as pessoas. A relação humana pressupõe, portanto, uma personalidade estável, não estática, não cristalizada, mas flexível, que compreenda e se adapte às diversas situações sem, contudo, abdicar do essencial que é a própria dignidade pessoal.
Certamente que se pode, e deve, conviver com aquelas pessoas que, por quaisquer circunstâncias nos rodeiam, de resto, seria contraproducente, afastarmo-nos de colegas de trabalho, dos amigos, dos familiares e de situações diversas, inerentes à convivência humana, porém, a proximidade com tais pessoas deve ser aquela considerada suficiente e necessária, para um relacionamento correto, cordial e educado, sem mais cedências do que aquelas que são indispensáveis, sem ignorar, justamente, o nível de amizade que se deseja conservar.
A estratégia que muitas vezes se adota, no sentido de se garantir um bom relacionamento com toda a gente, mais tarde ou mais cedo, pode resultar em fracasso, pela simples razão de que não há duas pessoas exatamente iguais e, por muito flexíveis que sejam, nunca vamos adaptarmo-nos a todas as personalidades, o que significa que, para sermos agradáveis a umas, seremos, eventualmente, incómodas com outras, se assim não for, estaremos a faltar à lealdade e à retidão.
O mesmo princípio poderá valer para a amizade. Será difícil a alguém ser, simultaneamente, amigo de duas ou mais pessoas, quando estas não são amigas da primeira e/ou amigas entre elas, de resto, os amigos escolhem-se, não nos são impostos por ninguém e depois de aceitarmos a sua amizade, o mínimo que deveremos fazer é retribuir essa amizade, com lealdade, com carinho, com cumplicidade, com tolerância, enfim, com uma disponibilidade total para a reciprocidade e para a compreensão.
A amizade entre amigos, por vezes, pode até ser dolorosa, pode, inclusivamente, magoar, porque entre estes amigos não há restrições de nenhuma natureza, no sentido em que sendo leais eles devem manifestar sempre o que sentem um pelo outro, sem rodeios, com total transparência e confidencialidade, obviamente no respeito pela dignidade de cada um, para que desta forma seja possível melhorar sempre a relação.
As amizades casuísticas, de mera conveniência, nem sempre são sinceras e duradouras, resultam, muitas vezes, em grandes confusões, ódios e, eventualmente, acabam em perseguições e vinganças. Conquistar e consolidar uma amizade é um caminho longo, quando se deseja que ela seja pura, o mais íntima possível, evidentemente, no contexto do respeito, da racionalidade e dos valores mais nobres que a sustentam: lealdade, dádiva, reciprocidade, cumplicidade, carinho e comunhão de objetivos.
Esta amizade que se converterá em amor que, eventualmente, faz sofrer, é que será a verdadeira, porque se sente, magoa, pela sinceridade que entre os amigos se verifica, mas também será, a maior parte das vezes, fonte de alegria, de perdão e consolidação, acaba portanto, numa felicidade inigualável.
É necessário conquistarmos este amor, consolidá-lo e exercê-lo permanentemente e para isso também é importante que: «Alguém precisa de nos encorajar a não pormos de lado aquilo que sentimos, a não termos medo do amor e do sofrimento que ele gera em nós, a não termos medo da dor. Alguém precisa de nos encorajar para o fato de esse ponto macio em nós poder ser desperto e, ao fazermos isso, estaremos a alterar as nossas vidas.» (CHODRON, 1997:117)
É evidente que quando a amizade é pura, recíproca, leal, cúmplice e os amigos não se traem com outros amigos, que não são comuns, que sabem retribuir generosamente, que conhecendo os gostos do amigo os satisfazem, que sempre têm tempo para conversarem, conviverem, estarem juntos, trabalharem com objetivos idênticos, ajudando-se mutuamente, então esta amizade traz muita alegria, muito prazer, muita felicidade.
Estes amigos não sabem recusar nada um ao outro, eles vivem a sua amizade como algo superior a quaisquer outros sentimentos, comportamentos e instintos. É claro que esta amizade é muito difícil de sustentar, só personalidades, dotadas de imensa generosidade, de uma entrega total, de uma lealdade a toda a prova e de um espírito de integral união é que a conseguem manter indestrutível.
Quando se vacila diante de situações e interesses, a favor de outras pessoas e se esquece a verdadeira amizade, anteriormente conquistada, estamos perante pessoas que, por dificuldades diversas, ou por dependências se tornam vulneráveis a influências, eventualmente, inconfessáveis que, quantas vezes, rapidamente as levam ao descrédito, à desconstrução de uma personalidade que quiseram fazer passar por “forte”, intransigente e «dura».
A História da Psicologia e as biografias de «grandes» figuras revelam isso mesmo, ou seja: a inflexibilidade, a arrogância, a humilhação a que submetem outras pessoas, no fundo, em certo sentido, demonstram a cobardia, a fraqueza, a ausência de valores, verdadeiramente compatíveis com a solidariedade, a amizade a lealdade e a dignidade humanas.
Construirmos uma amizade assente em protagonismos, oportunismos e para resolvermos situações que nos são incómodas, que nos fragilizam, constitui um comportamento inaceitável, profundamente reprovável porque vai contra a dignidade da pessoa, contra a sua própria essência humana.
Uma amizade assim poderá ser considerada de natureza instrumental e a pessoa que acredita que tal amizade é verdadeira, acaba por vir a sofrer imenso, porque vai sentir-se infinitamente utilizada, como se de um qualquer objeto se tratasse e que, depois de não ser necessária, é humilhada, descartada, atirada para a indignidade do lixo humano.
Os valores, os princípios, os sentimentos e os amigos não se compram nem se vendem, porque eles são, materialmente, inegociáveis. A amizade ou existe incondicionalmente, ou não pode ser encarada como um meio, um utensílio, uma estratégia para resolver problemas, que resultam de situações do foro privado, e que depois de resolvidos, esquecem-se todos os sentimentos, todas as preocupações, toda a generosidade, amor e entrega da pessoa que nos ajudou, nos fez bem, porém, foi malevolamente, foi utilizada. Quem utiliza estes métodos não poderá ter uma formação verdadeiramente humanista, mais parecerá uma criatura iníqua.
Os amigos verdadeiros, especiais, do coração e quaisquer outras designações que se pretendam atribuir, caminham lado-a-lado, nas alegrias e nas tristezas, no sofrimento e na felicidade, nos êxitos e nos fracassos, nos projetos, na cumplicidade, sempre com um sincero “Amor-de-Amigos”.
Estes amigos, quando verdadeiramente leais, sinceros, unidos e solidários lutam pela felicidade dos dois, pela prática permanente da reciprocidade, pela comunhão de interesses, pela defesa da dignidade um do outro, manifestam constantemente carinho, ternura, gentileza, educação. Eles satisfazem os, aparentemente, mais insignificantes desejos um do outro, os gostos, as necessidades, sem esperar que seja o outro a pedir, porque esta palavra «pedir» nem deveria existir entre eles.
Os amigos verdadeiros, que realmente se amam com “Amor-de-Amigos”, têm todo o tempo do mundo para se satisfazerem nos mais pequenos pormenores. É por isso que uma amizade assim não está ao alcance de personalidades instáveis, «ditas «fracas», embora por vezes queiram parecer “fortes». A amizade praticada entre quem verdadeiramente se ama, com um sincero e verdadeiro amor, é muito exigente, rigorosa, mas por isso mesmo, indestrutível.
Resistir à tentação de violar os valores sagrados da amizade, como a lealdade, a solidariedade, a sinceridade, a honestidade, a reciprocidade, a cumplicidade, a confiança, a ternura, o carinho, entre outros, para satisfazer situações, interesses e pessoas, cujas causas e desígnios são repreensíveis e efémeros, revela total fragilidade das pessoas que, sob a capa da «firmeza», da personalidade dita «forte», procuram pela humilhação, pela indiferença, pela arrogância, pela agressividade, dominar quem, durante certo tempo, ajudou, quantas vezes, a sair das crises. A amizade sustentada num profundo “Amor-de-Amigo” é indestrutível e eterna; é inegociável, intocável e sagrada.

Bibliografiaa

CHODRON, Pema, (2007). Quando Tudo se Desfaz. Palavras de coragem para tempos difíceis. Trad. Maria Augusta Júdice. Porto: ASA editores.
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 

Portugal: www.caminha2000.com (Link Cidadania)

domingo, 15 de julho de 2012

Fragilidades Humanas

No decorrer das nossas vidas deparamo-nos com imensas situações que, pela positiva, e/ou pela negativa, nos afetam permanentemente e, quantas vezes, para o resto da existência. Os valores e sentimentos que cultivamos e defendemos são dimensões que tanto podem conduzir à felicidade, como à desventura.
Poderá ser insuficiente, para vivermos felizes, a posse de determinados bens materiais e/ou a realização profissional, a obtenção de um estatuto social de prestígio, títulos e honrarias. Por outro lado, muitos bens imateriais são essenciais para a felicidade e dignidade humanas.
Conquistar e consolidar um amigo verdadeiro, leal, solidário e confidente, pode demorar muito tempo, mas é um bem tão importante que muito dificilmente alguém conseguirá viver feliz sem ele. Perder um amigo, acontece, muitas vezes, em poucos segundos, a partir do momento em que se verifica que já não existe o SAL da vida: Solidariedade, Amizade e Lealdade.
A Amizade incondicional de um amigo é uma riqueza inestimável, eventualmente, a par de outros bens, um dos valores mais personalizados. Por isso, a Amizade de um verdadeiro amigo, devemos preservá-la, lutar com “unhas e dentes”, contra tudo e contra todos que no-la queiram tirar ou diminuí-la.
Uma afeição verdadeira, alicerçada nos valores da Solidariedade, da Amizade, da Lealdade, da Confiabilidade e da Reciprocidade profundas, será sempre muito difícil de destruir, todavia, se tais valores não existem ou deles não estamos seguros, então viver-se-á numa falsa e impostora “amizade”, o que, quando descoberta, provoca profunda mágoa, dor e tristeza. Pode, inclusivamente, conduzir à depressão e, em última instância, ao suicídio da pessoa traída, nos seus valores e sentimentos mais nobres.
A radicalidade de um “Amor-de-Amigo” não é compatível com posições que ofendem aquele sentimento tão nobre, com atitudes e comportamentos de permanente indiferença para o com amigo e agradabilidade sistemática para com aqueles que sabemos terem ofendido o nosso verdadeiro protetor.
Em boa verdade é impossível ser-se solidário com quem não é solidário connosco ou com os nossos amigos, com quem se relaciona com aqueles que nos ofendem, a nós ou ao nosso amigo. Quando existe este duplo posicionamento, infelizmente, vai resultando enquanto as pessoas não se apercebem dele e quem o usa, está a ser desleal para com o amigo verdadeiro.
Por vezes, ganha-se um amigo e com ele convivemos determinado tempo da nossa vida, até que, pelas mais diversas e, eventualmente, fúteis circunstâncias, decidimos abandonar tal amigo, mesmo sabendo que estamos a desconsiderá-lo, magoá-lo e a humilhá-lo, que ele não merece certas atitudes de indiferença, desprezo e até de ódio disfarçado da nossa parte.
Entretanto, encontramos outras pessoas que nos podem ser, num dado e muito específico momento, materialmente mais “necessárias”, para atingirmos determinados objetivos e, estas pessoas, assim “angariadas” e/ou “descidas à terra”, qual “Salvadoras da Pátria”, passam, então, para primeiro plano, enquanto que a/o verdadeira/o amiga/o é atirada/o para a “prateleira dos desprezados”, dos “substituíveis”, enfim, dos “descartáveis”
Mas o mundo é realmente muito pequeno e, a torná-lo cada vez mais uma aldeia de interdependências, está todo o processo de globalização. O mundo começa a estar repleto de “esquinas”. A vida prega-nos partidas e o “destino”, por vezes, é irónico e cruel. Manter os amigos com provas dadas, é uma capacidade que se tem de aperfeiçoar, conscientemente, para evitar vivermos ao sabor das correntes, onde todos navegam e procuram salvar a pele, na hora do naufrágio.
Quando, por qualquer motivo, estamos bem na vida, ou julgamos que o estamos, entendemos que já não voltamos a precisar de quem foi nosso amigo, de quem sempre esteve ao nosso lado, mas que deixou de ter interesse para nós, porque, consideramos, então, que já não precisamos mais desse amigo, eis que, numa reviravolta do “mar da vida”, ficarmos numa situação de grande fragilidade humana, moral, sentimental e material.
Inevitavelmente recordamos aqueles que foram nossos verdadeiros amigos que, durante uma fase da nossa vida, nos ajudaram em tudo o que necessitamos, que estiveram ao nosso lado nas horas boas, mas também nos momentos mais difíceis da vida, mas que, quando julgamos que não iriamos precisar mais deles, os afastamos cruelmente, por vezes através de estratégias meticulosamente calculadas, até com a ajuda da/o/s nova/o/s supostas/o/s amigas/o/s, onde não faltam a injustiça, a ingratidão e a humilhação, para quem as sofre no mais fundo da sua dignidade e dos seus sentimentos.
Podemos viver muitos anos com um estatuto de “superioridade” social, financeira, profissional e até etária, esta em função de uma ainda relativa juventude. Acreditamos que os amigos mais maduros, acabam por “desaparecer” fisicamente, primeiro. Podemos pensar que nunca mais vamos “aterrar” no território dos “comuns e pacatos mortais”, onde “residia” esse amigo.
Somos tentados, então, a agir com, indiferença e insensibilidade contra os mais fracos, mesmo que numa determinada fase das nossas vidas, quando, realmente, estávamos na “mó de baixo” esses tais, amigos verdadeiros, que agora nos parecem frágeis, nos tenham apoiado incondicionalmente, nos tenham aberto os seus corações e entregue os seus mais nobres sentimentos.
Mas, como em tudo na vida, “Não há bem que sempre dure; nem mal que nunca acabe”. Fazem-se grandes “castelos” em cima das areias movediças das ilusões da vida. Trocam-se amizades sólidas, solidárias e leais, por bajulações, aparências e circunstancialismos momentâneos.
Deixamo-nos seduzir por futilidades, por ofertas momentâneas de colaboração (e que nós até precisamos, justamente, dada a nossa fragilidade, ignorando que tais pessoas, que sabem aparecer na hora certa, já nos ofenderam ou ofenderam os nossos verdadeiros amigos), por vernizes, por punhos de renda, que escodem, em muitas pessoas a hipocrisia, a manipulação e a conquista fácil de supostas amizades.
Mas isso acabará um dia. Acordaremos, então, para uma dolorosa realidade que, de fato, não pensamos pudesse vir a acontecer, e logo connosco. Deixamo-nos inebriar pelas aparências, queremos juntarmo-nos às maiorias, mesmo que isso vá contra os mais elementares princípios da nossa dignidade.
Esquecemo-nos que quanto mais tempo permanecermos nesta situação, muito menos hipóteses teremos de sairmos dessa “lama” de umas certas amizades impostoras, dissimuladas, maledicentes e implacavelmente estigmatizantes para o resto da nossa vida.
Ignoramos que, entretanto, os nossos verdadeiros amigos que, em relação a eles, tudo fizemos para, cirurgicamente, os afastar, desconsiderar, ridicularizar, humilhar e magoar, estão sofrendo porque se sentiram traídos, trocados, abandonados. A fragilidade dos nossos valores “bateu no fundo do poço” da incompreensão, da insensibilidade, da ingratidão. Somos muito fracos.
Recordaremos, então, todo um passado de amizade pura e solidária que os amigos agora desprezados, nos proporcionaram. Poderá ser tarde para recuperar os amigos, os princípios, os valores e os sentimentos. Tudo isto faz parte da fragilidade humana, contra a qual teremos de lutar, especialmente se a nossa vida e a nossa relação com o “Outro”, que queremos ter por Amigo, for de Solidariedade, Amizade e Lealdade, SAL da vida.
No fim da existência, e para aqueles que de alguma forma e por circunstâncias diversas connosco conviveram, será feito o balanço, eventualmente transmitido de uns para outros, podendo, chegar, inclusivamente, ao conhecimento daqueles que nos eram mais próximos: pais, cônjuge, filhos, amigos, colegas.
As ações, realmente, ficam com quem as praticou, mas o julgamento, justo ou injusto, será feito, desde logo a começar pelo “Tribunal da nossa Consciência”, ao qual não conseguiremos escapar, porque do passado ninguém consegue fugir.
A sentença ditada pelo “Tribunal da Consciência” será rigorosa, a pena consistirá em receberem, na mesma moeda, tudo o que fizeram, de bom ou de mal, certamente. Este Tribunal colocará, então, a nu, toda a nossa fragilidade e, eventualmente, considerará esta nossa fraqueza, como uma possível atenuante, porém, a culpa, o remorso, o sofrimento, isso não mais nos abandonará para o resto da vida.
Podem os racionalistas, os materialistas os positivistas e todas as pessoas insensíveis a determinados princípios, valores e sentimentos, pensar que isto são teorias, “delírios” de quem alguma vez se sentiu desprezado, traído, humilhado. Mas não devem ignorar que, ao pensarem assim também revelam uma flagrante e indisfarçável fragilidade, encapuzada, nas alegadas atitudes práticas, de uma vida real, concreta e objetiva. São as fragilidades Humanas.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Portugal: www.caminha2000.com (Link Cidadania)