domingo, 21 de julho de 2013

Relação Profissional e Amizade Pessoal

 
O exercício de uma atividade profissional, em contexto de trabalho, em equipa, implica, por parte dos seus membros, a maior colaboração possível entre eles, tendo em vista alcançar determinados objetivos que a todos beneficiam: instituição, empresários, trabalhadores, clientes e fornecedores. A regra de ouro, eventualmente, entre outras, será, portanto, a coesão da equipa, a lealdade pessoal e profissional dos seus membros.
É certo que, estará provado, a mistura entre amizade pessoal e o relacionamento profissional não produzirá os melhores resultados, na medida em que os contextos de relacionamento são diferentes: enquanto uma relação, uma amizade verdadeira, leal, solidária, em princípio, deverá ser para sempre; uma relação profissional será mantida enquanto durar o trabalho de equipa, e/ou no seio de uma mesma instituição.
É verdade que, a partir de uma relação profissional, permanente, se podem estabelecer laços de amizade que perduram para além daquela circunstância, inclusive, podem resultar num enlace matrimonial. Mas também se admite que uma relação profissional desleal provoca, inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, um desgaste emocional que afeta a amizade pessoal.
A questão que se coloca é a seguinte: o que será mais importante, uma relação pessoal de sincera amizade, com aquele amar próprio do “Amor-de-Amigo”, em que: «Amar outra pessoa, também significa desejar-lhe o melhor, olhar por ela, tratá-la de forma excepcional, dar-lhe o melhor de nós mesmos. Significa a outra nossa alma gémea da amizade sincera e dos valores a ela associados.» (cf. (ROJAS, 1994), ou uma, quantas vezes, “amizade” ou relação profissional casuística, oportunista, interesseira, hipócrita e leviana?
Em qualquer dos contextos – pessoal, profissional, político, social, religioso e outros – é essencial para uma boa relação a interiorização e boas-práticas de lealdade, porque: «Ser leal é estar comprometido com algo em que acreditamos. E, se acreditamos, queremos que continue, queremos conservar aquela crença, aquele estado criado no grupo. A condição de estabilidade assim compreendida tem sido fugidia.» (Ávila, 2005:12).
Epicuro, filósofo grego, nascido na Ilha de Samos, em 341 a.C., ilha grega no leste do mar Egeu, afirmava, já ao seu tempo, que: «A amizade e a lealdade residem numa identidade de almas raramente encontrada.» (http://pensador.uol.com.br/frase/MTI5MTk/, consultado em 04.09.2011).
Estes dois nobilíssimos valores, - Amizade e Lealdade - que tanto dignificam o ser humano, são indissociáveis, porque um implica o outro, em quaisquer situações, isto é, não se pode ser amigo e manifestar amizade pessoal e ao mesmo tempo ser-se incoerente em contexto profissional. Poderá ser muito complexo levar para o trabalho a amizade pessoal, na medida em que esta é um valor que não pode ser colocado ao serviço do todo, é um sentimento que apenas diz respeito a dois amigos, os quais não devem permitir que alguém se valha desta amizade para outros fins: influências à custa daqueles amigos, exibições e autopromoções.
O ideal será, portanto, a ampliação, consolidação e preservação de uma verdadeira amizade pessoal, e evitar a todo o custo que esta venha a ser prejudicada por comportamentos profissionais inadequados e até injustos, mantendo-se sempre, em todas as situações, uma absoluta lealdade, porque assim se poderá conservar a confiança, a fidelidade, a cumplicidade e a coesão. Colocar acima de um Amor-de-Amigo”, outros interesses, situações e pessoas, poderá constituir um autêntico suicídio nas restantes relações.
A lealdade no trabalho exige reciprocidade, isto é, a lealdade de um colaborador só se justifica se o colega adoptar idêntico comportamento, - reciprocidade - de contrário e quando se verificar a infidelidade, então o melhor será a desvinculação do compromisso de retribuição, mantendo-se, todavia, relações de cordialidade, educação, respeito e colaboração, profissionais, sob pena dos objetivos serem prejudicados e tudo ficar em causa, incluindo postos de trabalho.
A inexistência de comportamentos leais, solidários, cúmplices, em contexto profissional, envolve, eventualmente, um afastamento pessoal, social e relacional fora da instituição, o que nada tem a ver com a amizade estritamente pessoal.
Parece incompatível querer ser-se amigo e bem relacionado fora da instituição, mas com comportamentos encapuzados no âmbito profissional. A coerência, a verdade, a frontalidade, serão sempre a chave das atitudes corretas e do sucesso das relações.
Claro que é difícil conciliar comportamentos, baseados numa verdadeira amizade pessoal, com os que resultam da atividade profissional. As barreiras a vencer, por vezes, são muitas e, aparentemente, intransponíveis. É nestas circunstâncias que: «Aprendemos muito mais quando temos de enfrentar obstáculos pela frente, ou quando estes não são nenhuns. Uma vida com relações difíceis, preenchida de obstáculos e perdas, representa sempre uma oportunidade para o crescimento da alma.» (BRIAN, 2000:64).
A componente tempo profissional, corresponde, sensivelmente, a pouco mais do que um terço da vida de cada pessoa. Adotar atitudes profissionais que prejudicam uma relação pessoal de amizade sincera, revela-se improcedente, até pela razão de que muito dificilmente dois ou mais colegas de trabalho vão conviver toda uma vida enquanto tais. Hoje, os empregos para toda a vida são, praticamente, inexistentes, logo, não se justificam comportamentos incorretos que afetam valores extra-profissionais.
A preservação da verdadeira amizade é, portanto, uma prioridade em quaisquer níveis de relacionamento. Naturalmente que a manutenção de uma amizade sincera, pura e que se deseja para toda a vida, envolve alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, felicidade e desventura.
Mas a nossa existência humana é assim mesmo: «O sofrimento faz parte da vida e não temos de sentir que ele acontece por termos sido nós pessoalmente a dar um passo errado. Na realidade, aliás, quando sentimos sofrimento, pensamos que algo está errado. Como estamos dependentes da esperança, sentimos que podemos sintonizar a nossa experiência, animá-la ou alterá-la de algum modo e continuamos a sofrer imenso.» (CHODRON, 2007:61).
Resulta que será incompreensível todo e qualquer comportamento profissional que venha a agravar ainda mais a vida extra-profissional, concluindo-se que para atenuar, ou evitar efeitos nocivos na amizade de um ou mais colegas de trabalho, estes devem ter atitudes de grande abertura, transparência, ajuda mútua e, principalmente, honestidade intelectual, lealdade pessoal, comunhão, tanto quanto possível de juízos de valor, quando justos, verdadeiros e pertinentes.
O relacionamento profissional que contrarie determinadas regras, princípios, valores e condutas, está condenado ao fracasso, à desilusão, à desmotivação e à improdutividade, o que, uma vez mais, se reflete na relação de amizade pessoal, nos sentimentos de “amor-de-amigo”, de carinho, de estima, de consideração.
Caminha-se, então, para a hipocrisia, para o cinismo, para o “faz-de-conta”, para uma “paz-podre”, que conduz à infelicidade, à doença, à morte psicológica e física das pessoas sobre quem recaem os comportamentos desleais dos colegas.
A relação pessoal de amizade extra-profissional é o “motor” que faz movimentar os mais nobres princípios, valores e sentimentos: Amor, lealdade, companheirismo, justiça, cumplicidade, motivação, alegria, comunhão de objetivos.
Como ideia central poder-se-á reter que a amizade pessoal, quando assente num grande e indestrutível “Amor-de-Amigo”, jamais deverá ser exposta e muito menos misturada com outras relações, a começar no contexto de trabalho e noutras atividades que, de alguma forma, atraiçoem aquele sentimento tão profundo, porque a amizade assumida entre dois amigos que, descomplexadamente, se querem muito bem, independentemente de estatutos, faixas etárias, património e outros valores materiais.
Por isso as relações profissionais, também estas, devem pautar-se pela transparência, pela verdade, pela solidariedade e pela reciprocidade e, então sim, poderá acontecer que desta surja uma relação pessoal. O contrário, uma relação pessoal, sincera, íntima, esta no sentido da cumplicidade, da confidência de situações que afetam os amigos, deve ser sempre preservada e evitar recorrer a esta relação privilegiada em contextos profissionais.
Não se devem misturar os planos, porque em contexto profissional, as funções estão estabelecidas, é só cumprir com as regras: cada pessoa tem as suas competências; exerce as suas capacidades o melhor que sabe e que pode; não tem de levar para o trabalho o que é de natureza particular e, de igual forma, não deve transportar para casa, para o seio de amigos, as dificuldades laborais e provocar a degradação das relações pessoais.
Não se defende que tudo seja, ou deva ser, estanque na vida. O que se preconiza é que se evite “misturar” princípios, valores, sentimentos e emoções em quaisquer contextos. Que se acautele toda e qualquer possibilidade de magoarmos os nossos verdadeiros amigos, aqueles de quem temos sobejas provas de que realmente estão sempre connosco, do nosso lado, preocupados com o nosso bem-estar. Temos de aprender a conhecer os nossos amigos do coração e não custará nada, se realmente os queremos como amigos, compreendê-los, considerá-los, estimá-los, acarinhá-los.
A amizade pessoal é um bem preciosíssimo. Quem tem uma amizade profunda, com um amigo verdadeiro, seguramente que, nas dificuldades da vida, terá sempre a seu lado uma pessoa doadora, carinhosa, meiga e que atenuará o sofrimento, qualquer que este seja. Por tudo isto é que a relação pessoal, em circunstância alguma poderá ser prejudicada pela ligação profissional.

Bibliografia

ÁVILA, Lauro António Lacerda de (2005). Lealdade nas Atuais Relações de Trabalho, Vale do Rio dos Sinos - Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Cadernos IHU, Ano 3, Nº 14 - 2005
BRIAN L. Weiss, M.D. (2000). A Divina Sabedoria dos Mestres. Um Guia para a Felicidade, alegria e Paz Interior. Trad. António Reca de Sousa. Cascais: Pergaminho.
CHODRON, Pema, (2007). Quando Tudo se Desfaz. Palavras de coragem para tempos difíceis. Trad. Maria Augusta Júdice. Porto: ASA editores.
ROJAS, Enrique, (1994). O Homem Light. Tradução Pe. Virgílio Miranda Neves. Madrid: Ediciones Temas de Hoy, S.A.
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

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domingo, 14 de julho de 2013

Competência Comunicacional


Independentemente e/ou conjuntamente com habilitações académicas, experiências, situações e estatutos económico-políticos, exige-se, em todas as profissões, atividades e intervenções, competência, eficácia, resolução de problemas, harmonia, compreensão e resultados. Hoje vive-se num mundo progressivamente avançado, num tempo e num espaço, incompatíveis com o marasmo, com a indiferença, com o desleixo. 
Produtividade, competitividade, qualidade e resultados positivos, face aos objetivos prefixados, são palavras-chave que, seguramente, se devem aplicar à comunicação, esta suportada no diálogo competente, implicando aqui proficiência, um conceito mais profundo, envolvendo valores e princípios, não tanto materiais, mas, isso sim, mais ao nível das atitudes e dos sentimentos que, em cada momento, é necessário revelar, sem complexos.
O paradigma comunicacional pressupõe competência, porque se trata de um processo permanentemente vivenciado pelas pessoas, na medida em que estas ocupam parte significativa do seu tempo a comunicar, seja qual for o tipo de linguagem utilizado: verbal e/ou não-verbal, o que contribui para a ocorrência de situações problemáticas, ou solucionadoras de questões diversas, quantas vezes resultantes da comunicação incompetente, porque ambígua, porque agressiva, manipuladora ou passiva.
Na realidade: «A comunicação é um processo complexo porque envolve muitas formas de manifestações e de expressão, com diferentes finalidades. Ela é resultante da expressão do conhecimento, da inteligência e da emoção, e pode ser afetada por diversos fatores ambientais. A comunicação está presente em todas as situações da vida – na convivência familiar, no trabalho, na participação comunitária, no amor e na amizade, nos negócios, no lazer, no ensino – e, em cada uma delas, requer diferentes maneiras de expressão. Significa dizer que – para bem da felicidade geral de todos – as pessoas devem desenvolver e aperfeiçoar constantemente várias competências de comunicação …» (RESENDE, 2000: 95-96).
Ser competente na comunicação impõe, desde logo, aos vários interlocutores, uma atitude comunicacional assertiva, isto é, pela positiva, pelo respeito, pela verdade, pela tolerância, pelo diálogo, que conduzem a um resultado do tipo ganha/ganha, ou seja, nenhum dos intervenientes perde tudo, mas também nenhum deles ganha tudo, porque todos cedem a favor de todos.
Analisada a comunicação por esta perspectiva, reconhecendo-se, embora, não ser a única possível, o conceito de competência comunicacional envolve o princípio do diálogo, com as características referidas e o resultado previsível, segundo a fórmula do “ganha/ganha”. Uma comunicação, onde existe diálogo, que atinja aquele resultado, pode considerar-se competente.
Naturalmente que para haver competência na comunicação, para além do recurso ao diálogo assertivo, que incluirá uma escuta ativa e um retorno inequívoco da compreensão dos temas, abordagens, informações, ordens e conclusões, trazidas ao processo, é indispensável que se desenvolvam outras competências, envolventes ao ato comunicacional, supondo que este utiliza os dois tipos de linguagem: verbal e não-verbal. Assim, por exemplo, é importante, na competência comunicacional, o domínio de competências técnicas, intelectuais, cognitivas, relacionais, sócio-politicas, didático-pedagógicas, metodológicas, entre outras.
A comunicação é, apenas, uma das muitas dimensões humanas, logo, a sua eficácia, seguramente, vai depender da competência com que são exercidas as múltiplas dimensões da pessoa, todavia, mesmo na dimensão espiritual, portanto, inefável, imaterial e subjetiva, é possível ser-se competente, se forem atingidos resultados que proporcionem bem-estar individual e colectivo, independentemente de serem ou não quantificáveis.
Avaliar, através de um determinado equipamento e/ou instrumento, com uma unidade de medida universalmente reconhecida e validada, resultados que envolvem dimensões subjetivas do homem, é uma tarefa discutível: como medir a felicidade, o amor, a tristeza, a alegria? O resultado da dimensão religiosa do indivíduo, como deverá ser expresso: quantidade de orações, de penitências, de atos de caridade, participação em cerimónias litúrgicas, em rituais?
Muito difícil, polémica e inconclusiva, seria a discussão sobre uma análise objetiva, expressa em resultados concretos, medíveis e universais, em domínios que envolvem grande subjetividade. Apesar de todas as dificuldades, cada pessoa poderá entender determinadas situações, acontecimentos e factos como um resultado, obtido através das suas intervenções competentes.
Se o conceito de resultado for utilizado em sentido lato, como um valor, material ou imaterial, a que se chegar, após um percurso desenvolvido e com uma metodologia sistematizada, então torna-se mais pacífico aceitar o conceito de competência, nos termos que se seguem: «Competência é a transformação de conhecimentos, aptidões, habilidades, interesses, vontade, etc., em resultados práticos. Ter conhecimento e experiência e não saber aplicá-los em favor de um objectivo, de uma necessidade, de um compromisso, significa não ser competente, no sentido aqui destacado.» (Ibid.: 32).
Neste enquadramento conceptual é possível ser-se competente, ou incompetente, também na comunicação interpessoal. Conclui-se, então, sobre as vantagens da comunicação competente, qualquer que seja a atividade, objetivos e intervenientes.
O resultado a que se chega, através do diálogo, numa negociação, será, pelo menos em parte, consequência da competência comunicacional e argumentativa de cada interveniente. Obviamente que nem toda a capacidade persuasiva, nem os argumentos, aparentemente mais poderosos, podem fazer vencimento, perante um interlocutor que, de igual forma, tem as suas razões que considera verdadeiras, adequadas e as melhores, para a resolução do conflito em apreço.
Encontrar o ponto de equilíbrio pode revelar-se um caminho difícil que, uma vez mais, um diálogo assertivo, em todos os seus sentidos, incluindo aqui a atitude conciliadora, tolerante e democrática, conjugada com a capacidade de cada uma das partes interessadas se colocar no papel da outra. A perspectiva poderá ser a competência de se implementar a estratégia do “ganha/ganha”. Ser competente significará, então, aceitar a distribuição equitativa e justa dos recursos disponíveis, e/ou dos valores em discussão.

Bibliografia

RESENDE, Enio, (2000). O Livro das Competências. Desenvolvimento das Competências: A melhor Auto-Ajuda para Pessoas, Organizações e Sociedade. Rio de Janeiro: Qualitymark.
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 

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domingo, 7 de julho de 2013

Educação para a Cidadania Contemporânea


A Escola do futuro, tal como o professor que a vier a integrar, devem conhecer as diversas culturas, pelo menos aquelas que transportam os alunos que a frequentam, tornando-se fundamental entender os seus valores, os modelos de socialização, estilos de aprendizagem e suas inter-relações, a língua, os problemas económicos, sociais, políticos e religiosos.
A educação, através da Escola, deve reforçar algumas qualidades sem as quais não sobreviverá no mundo contemporâneo. Valorizar a autonomia pessoal, a busca do verdadeiro conhecimento (até onde for possível chegar à verdade), a generosidade e a coragem. Como formar este professor, é uma tarefa que se impõe aos governos e também aos próprios, e que passa por um novo conceito: formação ao longo da vida, com a vida e para a vida; formação contínua.
Assiste-se, atualmente, a conflitos regionais, que nos impressionam e envergonham, e por isso, a formação deste “Cidadão do Mundo” constitui um indeclinável imperativo, que aos governantes de todo o mundo se exige que ponham em prática, porque o currículo para a Cidadania pressupõe toda uma dimensão económica, social, política, religiosa e cultural, que cruza diferentes objetivos e áreas de conteúdos, assinalada com idêntica ênfase pelo pensamento moderno e pós-moderno.
Por outro lado, cabe ao estudante, como principal agente da elaboração do seu próprio projeto de vida, ter a honestidade intelectual de se auto-avaliar nas suas capacidades, nos seus legítimos e íntimos desejos, nas suas mais profundas aspirações. É certo que neste processo de construção de um projeto de vida, os jovens necessitam dos apoios indispensáveis da família, dos professores e serviços especializados.
Neste mundo da pós-modernidade existe um campo infinito de conceitos, temáticas e assuntos, nas mais diversificadas áreas do conhecimento e da técnica, que podem e devem ser trabalhados de uma forma mais intensa e, justamente, adequada a esta sociedade contemporânea, tão exigente e, por vezes, tão intolerante.
Nesta perspectiva, um dos conceitos que mais pode influenciar no bem-estar geral da sociedade, o que melhor significado dá ao sentido da vida humana, naquilo que ela comporta do ser e do agir, em conformidade com os grandes princípios e valores ético-morais, é o conceito da Cidadania que, não é igual em todo o mundo, porque ao longo da história e das culturas, tem merecido diversas abordagens e interpretações: «A cidadania activa através da participação popular é considerado um princípio democrático, é a realização concreta da soberania popular, é muito mais que uma actividade eleitoral que se esgota apenas na escolha do voto, a cidadania activa a que me refiro supõe a participação da população de forma livre, soberana, visando uma transformação, consciente e comprometida com a sociedade.» (BARÃO 1998:38).
Com efeito, ouve-se, e invoca-se, diariamente, esta palavra mágica, porém, os comportamentos que ela postula não têm sido compatíveis com a dignidade do conceito, e por muito que o mundo se desenvolva, em termos científicos e tecnológicos, as inovações sejam cada vez mais, ao ponto de se tornarem realidades, a maior parte, desejos utópicos do homem, nada mais será importante se ele, o homem, não conseguir acompanhar toda esta panóplia de determinismos, (naturais e/ou por si impostos) com rigor, educação, respeito pelo outro, cumpridor dos seus deveres e responsabilidades.
Considera-se essencial para a sociedade, aprofundar o mais possível toda uma estratégia e metodologias adequadas, em ordem à valorização da educação para a cidadania, tendo esta como objetivo a preparação da criança, do jovem e do adulto, para a participação responsável dos cidadãos na vida pública do país, através de processos de representação política e do empenhamento das Instituições da sociedade civil, tendo como base os princípios e valores fundamentais da Democracia. Como é óbvio, esta participação implica um conjunto de conhecimentos, competências, capacidades e atitudes, voltadas para a intervenção ativa, e que também cabe à escola transmitir aos cidadãos.
 A educação, por meio dos seus currículos e procedimentos da vida escolar, tem um papel de grande importância e responsabilidade no desenvolvimento das competências cívicas dos indivíduos, o que é decisivo para o Estado de Direito Democrático.
Justifica-se, mais uma vez, a necessidade de os professores se empenharem apenas em atividades docentes, curriculares e extracurriculares, porque a educação para a cidadania democrática é, sem dúvida, fundamental neste novo mundo, repleto de desafios, de interrogações e de complexidade.
A cidadania abrange uma série de questões essenciais para a vida em sociedade, nomeadamente: o pluralismo político-ideológico, a diversidade cultural, a resolução de problemas e conflitos de forma pacífica; a cultura de um espírito de tolerância, de equilíbrio entre a mudança e a tradição.
A educação para a cidadania revela-se, portanto, de uma importância extrema e exige-se que lhe seja dada uma atenção especial, de imediato à interiorização e praxis de comportamentos assentes na afetividade, a par com os paradigmas racionais porque, atualmente, a dimensão cognitiva ou o saber teórico não são suficientes. Na verdade, as vivências pessoais, emocionais, afetivas e cívicas são, igualmente, muito importantes.
O Professor-formador-educador experiente, sabe que o currículo para a cidadania pressupõe uma abrangência social e política, que visa preparar os jovens para o confronto com uma sociedade aberta, pluri-étnico-intercultural, porque não se pode ignorar que as mudanças envolvem e afetam profundamente os domínios social, cívico, cultural, político e até religioso.
É neste contexto educativo, que se revela fundamental as denominadas atividades extracurriculares que o professor do século XXI, certamente, se empenhará, se lhe forem dadas as condições para desenvolver currículos e conteúdos de âmbito informal porque, concordando-se ou não: «As actividades extracurriculares constituem uma óptima oportunidade para a escola e os professores demonstrarem cuidado. A atmosfera informal que normalmente caracteriza estes momentos dá aos estudantes e professores a possibilidade de interagir fora do esquema hierárquico que costuma caracterizar a relação professor-aluno. Também o facto de estarem ambos, professor e aluno, empenhados em tarefas com um objectivo comum (como, por exemplo, a produção de um jornal escolar) tende a aproximá-los de uma forma que as actividades da sala de aula raramente proporcionam.» (HARGREAVES, et. al. 2001:87).
Deve ser cada vez mais significativa a preocupação com a preparação dos docentes, não apenas na perspectiva académica, materializada na obtenção de um determinado grau, mesmo que seja na área da educação, na medida em que tal distinção não constitui requisito suficiente para se considerar um professor, um profissional.
A formação contínua é fundamental, porém, depende da dedicação de cada um na sua própria profissão e, antes de tudo, mais importante que formar é formar-se, até porque todo o conhecimento é, também, auto-conhecimento, e que toda a formação deverá ser auto-formação, ao longo da vida, no ativo e/ou na reforma.
Surge, então, a necessidade de um novo interveniente no processo educativo-formativo: o professor-formador. A terminologia pode parecer pouco usual, e nem sempre a separação do professor e do formador é assim tão nítida, porque o termo “formador” continua a merecer uma conotação que não se distancia, ainda hoje, dos sistemas de formação tradicionais, porém, com o avanço tecnológico, designadamente nos espaços de produção, desenvolveram-se novas necessidades que alteram, significativamente, a prática de formação e o papel do formador-educador o qual não é, nem pode sê-lo no futuro, rotineiro e repetitivo transmissor de conhecimentos, de conteúdos normativos, previamente selecionados e posteriormente avaliados, a partir da repetição dos conhecimentos memorizados, embora nem sempre bem compreendidos e, eventualmente, sem aplicação prática.
Muito mais profundamente: «É preciso que o educador assuma a sua responsabilidade política, com competência técnico-científica, no contexto de uma pedagogia voltada para a formação da cidadela ampliada, rompendo a mistificação da ideologia da cidadania, em consonância com a praxis revolucionária da luta de classes, na conquista de uma sociedade justa e igualitária.» (DEBREY 1999:650).
O formador tem de se metamorfosear num orientador, num conselheiro, num organizador de aprendizagens, num colaborador e programador de saberes, em contextos de formação, também eles possibilitadores de transformação.
Poder-se-á aceitar que as denominações de professor (no sentido de investigador, teorizador, divulgador e construtor de novos conhecimentos) e formador (na perspectiva totalizante, de educar, preparar e formar, integralmente, o indivíduo para a vida) serão susceptíveis de um processo eclético, que conduza a uma nova terminologia, a partir da construção deste novo interveniente.
Trata-se do Professor-Formador, que urge reconhecer, porque, o tradicional professor, desenvolve: «uma profissão que hoje em dia se considera de risco e/ou está em risco, caso os professores continuem a afirmar-se como transmissores de conhecimentos memorizáveis ou como burocratas incapazes de tomar iniciativas pedagógicas reflectidas, singulares e baseadas em valores humanistas e democráticos.» (ROCHA 2005:2). 

Bibliografia

BARÃO, G. V. (1998). Educação e Cidadania: a Formação do Cidadão Activo. Campinas: Pontifícia Universidade Católica de Campinas – Faculdade de Educação, (Monografia para título de licenciamento em Pedagogia).
DEBREY, J. C. A. (1999). “Cidadania e Educação”, in Fragmentos de Cultura. Goiânia – Brasil: Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás – Sociedade Goiana de Cultura, Vol. 9, (3), pp. 473-762
HARGREAVES, A.; EARL, L.; RYAN, J. (2001). Educação para a Mudança. Reinventar a escola para os jovens adolescentes. Trad. Inês Simões. Porto: Porto Editora
ROCHA, A. F. S. (2005). Abandono Escolar: Respostas Educativas. (Curso de Pós-Graduação em Administração Escolar). Vila Nova de Gaia: ISPGaya – Instituto Superior Politécnico Gaya. (Não publicado)

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 

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domingo, 30 de junho de 2013

A Escola do Século XXI


A escola do futuro, qualquer que seja o seu nível, e que tenha por objetivo educar e formar o cidadão do mundo, não pode continuar a rejeitar o professor crítico, reflexivo, caraterizado por três tipos de desenvolvimento: pessoal, profissional e organizacional, produzindo a transformação da cultura escolar, que inclui a implementação e consolidação de novas práticas participativas e de gestão democrática.
Além disso, necessita de analisar as condições de produção do seu trabalho, tendo em conta as circunstâncias sociais, políticas e económicas, que interferem na sua prática pedagógica, porque numa sociedade étinico-intercultural é essencial a reflexão sobre a dimensão política do ato educativo, na medida em que: «Sobre a educação para o século XXI é apontada a necessidade de educação para a diversidade e para a cidadania, assumindo o sistema educativo a responsabilidade de preparar cada pessoa para esta participação mostrando-lhe os seus direitos e deveres, mas também desenvolvendo as suas competências e estimulando o trabalho em equipa na escola.» (GUEDES & MIRANDA, 2005:19).
Neste sentido estratégico revela-se de fundamental importância uma metodologia de trabalho centrada na prática, partindo de problemas que se apresentam na sua situação concreta, contribuindo para o desenvolvimento profissional enquanto professor, permitindo um maior envolvimento para aprofundar a capacidade de análise crítica e das condições em que exerce a sua actividade, procurando a cumplicidade da escola, gerando assim mais e melhor conhecimento.
Uma tal estratégia, suportada na dupla metodologia investigação-acção e observação-participação, é incompatível com tarefas meramente administrativas e rotineiras que, por vezes, as escolas exigem aos seus professores que assim se tornam funcionários administrativo-burocráticos.
Deixe-se ao professor a difícil, mas muito importante, tarefa da investigação, pois só assim poderá aumentar ou interpretar os conhecimentos. Para isso é essencial que ele tenha condições de grande envolvimento, porque a técnica da observação-participante: «Consiste na inserção do observador no grupo observado, o que permite uma análise global e intensiva do objecto de estudo.» (ALMEIDA & PINTO, 1995:105). 
Formar o cidadão do mundo, para a mudança que se vem operando ao longo dos séculos, que no período de transição para o século XXI se fez sentir com uma extraordinária velocidade, exige professores/formadores/educadores exclusivamente ao serviço dos objetivos educacionais, em ordem à construção de um mundo mais humanizado, em todos os setores das diversas atividades humanas.
Impõe-se aos responsáveis pela organização do sistema educativo que criem todas as condições, necessárias e bastantes, para que se possa beneficiar do trabalho do professor que pensa: «Professor reflexivo, que medite sobre as suas próprias práticas, apoiando-se na experiência, na investigação, noutros recursos disponíveis e importantes para a avaliação do seu desenvolvimento profissional, nomeadamente no seu próprio projecto de formação, desenvolvendo competências sociais e profissionais, numa perspectiva de formação ao longo da vida, participando em projectos de investigação relacionados com o ensino, aprendizagem e desenvolvimento dos alunos.» (SILVA, 2005:25).
Discute-se, atualmente, um pouco por todo o mundo, o sistema educativo ideal ou, pelo menos, o mais perfeito possível. Alteram-se processos de avaliação, introduzem-se novos conteúdos programáticos, exigem-se professores competentes, dedicados, em regime de exclusividade na escola onde estão colocados, e determina-se que executem tarefas que seriam melhor realizadas por outros profissionais.
Por outro lado, quando os resultados das avaliações nacionais são, globalmente, fracos, procura-se, sempre, encontrar alguns responsáveis pelo setor, ou seja, os agentes intervenientes no sistema educativo, ficando o insucesso a dever-se ao Ministério, aos alunos, aos pais e aos professores, esquecendo-se que, a sociedade, no seu todo, é igualmente culpável. Em todo o caso, é com muita frequência que, parte significativa do insucesso, se atribui aos professores, quantas vezes, injustamente.
É uma situação que não pode ser aceite e há fortes razões para se concordar com o seguinte raciocínio: «Os professores vivem numa encruzilhada (…). Alguns chegam a apelar para que os professores deixem de assumir a posição, se é que ainda têm, de que são os detentores da verdade científica, humanística e artística e adoptem uma atitude socrática: humildade perante a vastidão e a constante criação do saber; quando se trata de definir as novas funções dos professores sucedem-se as ideias de que estes devem ser catalisadores da procura do conhecimento; gestores da informação; mediadores entre o aluno e o mundo caótico da informação; auxiliadores na estruturação da diversidade das experiências; mestres no sentido socrático, isto é, partes activas na procura do saber, tendo como única certeza as limitações do seu próprio saber.» (ARAÚJO, 2005:RIT-8). 
As preocupações avolumam-se ainda mais quando a reflexão envolve a própria instituição Escola, na medida em que se verifica, com relativa frequência, um manifesto desinteresse, quando confrontada com atividades materialmente lucrativas. A mentalidade que parece imperar, em grandes círculos da sociedade, afigura-se ir no sentido do abandono escolar, a favor das atividades que proporcionam remunerações substanciais e enriquecimento rápido e significativo.
Eventualmente, a Escola não tem sido capaz de cativar jovens e adultos. Na verdade: «Quando pensamos nas nossas escolas não apenas como instrutivas do raciocínio lógico ou das capacidades linguísticas, concluímos que há urgência de as tornar educativas, motivadoras e sedutoras. (…) Desta forma há necessidade de novas tentativas centradas na orientação dos percursos individuais no saber, na facilitação da aprendizagem personalizada, mas também em redes interactivas e à distância» (MOREIRA, 2000:180-81).
Impõe-se, cada vez com mais acuidade, uma Escola educativo-formativa no sentido de educar e formar cidadãos com: princípios e valores, determinados por objetivos coletivos, sem prejuízo das legítimas aspirações individuais, com a salvaguarda de não colidirem com os superiores, bem como, igualmente, legítimos interesses de todos, onde, afinal, o indivíduo se inclui e é parte integrante, portanto, beneficiário dos progressos que afectam o todo.
Pode-se concordar, sem grandes dificuldades, com a seguinte análise, justamente, de quem tem longa experiência de vida profissional docente: «As desigualdades, as tensões inter-étnicas, a competição desenfreada, a sobrevalorização dos valores materiais têm promovido um abandono escolar crescente, sistemático e localizado nos grandes centros urbanos e naqueles que são economicamente excluídos. As respostas educativas dadas nas últimas décadas apontam, essencialmente, para: a) alargamento progressivo da escolaridade obrigatória básica; b) Desenvolvimento de novas atitudes e processos de educação para todos e formação ao longo da vida; c) Defesa dos valores da tolerância e de envolvimento cívico.» (ROCHA, 2005:2).
Reconhecendo-se, muito embora e respeitando outras opiniões, que por muito bem elaborados que estejam os programas de formação inicial de professores, também se pode admitir que a preparação académica já não confere, por si só, um saber total, que se possa utilizar ao longo de toda a carreira.
Pelo contrário, o professor para uma Nova Escola e para formar este cidadão do mundo, vai ter que prosseguir os seus estudos, realizar quantitativa e qualitativamente a investigação inerente aos domínios que pretende transmitir e orientar, até porque o conhecimento, a ciência e a tecnologia estão a progredir de tal forma que já é difícil acompanhar a sua evolução.
Hoje, mais do que nunca, uma das finalidades das formações: inicial e contínua do professor é incrementar neles as qualidades de natureza ética, intelectual e afetiva. Tal como o médico, o advogado, o arquiteto e outras profissões liberais, também o professor, até por maioria de razão e motivos óbvios, tem de se manter, permanentemente, atualizado, porque é ele que vai ministrar a formação inicial, exatamente, àqueles profissionais liberais.

Bibliografia

ALMEIDA, J. F., PINTO, J. M. (1995). A Investigação nas Ciências Sociais (5ª ed.). Lisboa: Editorial Presença.
ARAÚJO, M. I. (2005:Rit-8). Novas tecnologias nas Escolas. Vila Nova de Gaia: ISPGaya – Instituto Superior Politécnico Gaya. (Curso ISC: 3º ano. “Projectos e Tecnologias Educativas”)
GUEDES, J. A. D. e MIRANDA, M. R. (2005). A Capacidade de Auto-aprendizagem do Professor, no domínio da Formação e Desenvolvimento Profissional dos Professores. (Curso de Pós-Graduação em Administração Escolar). Vila Nova de Gaia: ISPGaya – Instituto Superior Politécnico Gaya.
MOREIRA, V. (2000). Escola do Futuro, Sedução ou Inquietação? As Novas Tecnologias e o Reencantamento da Escola. Porto: Porto Editora.
ROCHA, A. F. S. (2005). Abandono Escolar: Respostas Educativas. (Curso de Pós-Graduação em Administração Escolar). Vila Nova de Gaia: ISPGaya – Instituto Superior Politécnico Gaya. (Não publicado)
SILVA, E. D. M. (2005) O Professor Reflexivo. (Curso de Pós-Graduação em Administração Escolar). Vila Nova de Gaia: ISPGaya – Instituto Superior Politécnico Gaya.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
 
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domingo, 23 de junho de 2013

Educação e Formação


Coloque-se, num duplo centro, dois elementos insubstituíveis e privilegiados: professor-formador; aluno/formando, quaisquer que sejam as situações de um e de outro. Mais complexamente, admitam-se a inversão e o poder dos intervenientes: hoje, professor; amanhã, aluno; depois, formador, mais tarde, formando. Os ciclos e alternâncias devem suceder-se ao longo da vida, deste novo cidadão do mundo, o qual nunca estará numa posição de dominância definitiva.
Medite-se, por agora, na sublime e nobre condição do professor/formador/educador, na perspectiva, práxis e interiorização de um verdadeiro apostolado, porque em boa verdade, ser professor/educador não é apenas sinónimo de um bom ensinante, de um conceituado técnico-especialista.
Muito mais do que isso, ele deverá ser um agente de proximidade, de contágio, atento aos sinais da alteridade dos seus alunos/educandos, um gestor hábil na manutenção dos equilíbrios necessários, sempre difíceis, entre desejo de influência, inerente ao ato pedagógico e o risco da manipulação.
Aliás, e para uma melhor contextualização, julga-se ser conveniente iniciar-se esta reflexão a partir do conceito de educação o qual: «Designa uma postura pedagógica de valorização do ensino humanístico e da cultura geral. Segundo esse enfoque, considera-se que o educando chegará à sua plena realização como pessoa através do saber, do conhecimento, atingido por meio do esforço.» (SILVA 1988:79).
Além do mais, terá que ser tolerante, paciente, atento, facilitador e rigoroso, eticamente parceiro no projeto educativo/formativo, porque as respostas sociais e educativas, reclamadas pela contemporaneidade, convocam-nos para a necessidade de desenvolver um pensamento cada vez mais elaborado, porque mais complexo, sustentado num processo paciente de ensino/aprendizagem que se vai (e deve) desenvolver ao longo da vida.
É fundamental ter-se presente que: «O desenvolvimento profissional envolve todas as experiências espontâneas de aprendizagem e as actividades conscientemente planificadas, realizadas para o benefício directo ou indirecto do indivíduo, do grupo ou da escola e que contribuem através destes, para a qualidade da educação na sala de aula. É um processo através do qual os professores, enquanto agentes de mudança, revêem, renovam, ampliam o seu compromisso com os propósitos morais do ensino.» (GUEDES & MIRANDA 2005:2).
A formação que se impõe, para o futuro, deve surgir como um projeto estruturante de uma cultura profissional, assente na atitude metodológica reflexiva, tendo por objetivos o rigor e o sentido de humanidade.
O processo que pode suportar um tal projeto, materializado num sistema de ensino/aprendizagem prático, realista e rigoroso, sendo fascinante, não é fácil, na medida em que implica “aprender-a-prender”, exige trabalho, esforço, paciência, disciplina e abnegação, um verdadeiro apostolado, uma cruzada sem fim, no tempo e no espaço, embora com objetivos concretos.
A aprendizagem significa, também, algum risco de errância, de aventura e de abertura ao diferente. Implica, ainda, um esforço, face ao ritmo alucinante da produção científica, que é paradigma do tempo pós-moderno.
É por isso que se exige, como requisito fundamental, o imperativo da promoção de uma vigorosa cultura de aprendizagem permanente, transformando a informação em conhecimento útil, funcional, que responda às solicitações da vida prática quotidiana, alimentando, porém, uma referência obrigatória do sentido que deve prender a uma bem determinada e, paradoxalmente, realística dose de utopia humana.
No processo de formação ao longo da vida, que a todos diz respeito, o professor/formador não é um aprendiz qualquer, na medida em que lhe cabe liderar, responsavelmente, os processos de aprendizagem e projetos concebidos por outros seres humanos, seus semelhantes. O estatuto ético-profissional justifica a disponibilidade e determinação para percorrer um caminho de formação, quantas vezes solitário e pessoal.
Nesse sentido, exige-se que a formação seja valorizada e usufruída como um direito, como mais uma oportunidade do exercício da autonomia e maturidade profissionais. Este processo de formação, ao longo da vida, pressupõe: forte envolvimento, sem cedências a facilitismos; um permanente espírito de curiosidade sócio-científica e técnico-cultural; uma consciência da importância daquilo que surpreende e que é necessário cultivar com atenção, no silêncio intelectual, sem revelações precipitadas, porque infundadas; enfim, adoptar a flexibilidade mental e exercer a difícil ginástica do espírito, praticando aquele princípio cartesiano da “dúvida metódica”, para não haver incomodidade quando surgem interpelações para as quais ainda não existem respostas e soluções exequíveis. A humildade que a prudência aconselha, será a atitude correcta e apreciada.
E se um dos objetivos da educação poderá equivaler a um produto, com o qual é necessário lidar, com competências e planificações, capazes de levar a resultados previamente conhecidos e calculados, então um daqueles objetivos da educação é obter um bom produto final, consubstanciado na pessoa, no cidadão, no profissional: «Educar vai ser então esse esforço para levar à reflexão sobre a escala de valores que melhor corresponda às exigências da pessoa humana, visando um aprimoramento não apenas no pensar, mas especialmente no agir do homem.» (WERNECK 1994:74).
Paralelamente, ser professor, poderá significar: tomar decisões com capacidade crítica e criativa; ser capaz de utilizar conhecimentos, experiências e valores, em contexto pedagógico; utilizar conhecimentos científicos na tomada de resoluções, tal como qualquer outro profissional autónomo, independentemente de regulamentação oficial, implicando um comportamento profissional, relacionado com a capacidade de, a partir da sua formação inicial, desenvolver e ampliar o seu campo de saber, e de desempenhar as funções sociais, e até políticas, que a sociedade dele espera.
Se se considerar a experiência, como sendo uma das primeiras fontes da educação, então o professor, em determinada fase da sua vida profissional, é sujeito do seu próprio desenvolvimento, em que a reflexão sobre a experiência é uma prática fundamental, isto é, um investigador na sala de aula, em vez de um técnico, ou seja: ele, o professor, será um prático reflexivo, porque a teoria por si só, é insuficiente para orientar a prática docente.
Até porque: a escola produz uma cultura interna, que lhe é própria e que exprime valores, crenças, atitudes daqueles que nela atuam, e também segundo uma sofisticada orientação ideológica, assente numa legislação que tendo uma carga subjetiva inerente, é suscetível de várias interpretações.
Refletir sobre as vantagens de um esforço de auto-formação, de um currículo mais espaçoso, onde caibam também a educação dos valores, o humanismo de alunos e professores e, também, entender a sala de aula enquanto espaço privilegiado de interação, entre o vivido e o novo, um cruzamento de vivências, de culturas e de diversidade.

Bibliografia

GUEDES, J. A. D. & Miranda, M. R. (2005). A Capacidade de Auto-aprendizagem do Professor, no domínio da Formação e Desenvolvimento Profissional dos Professores. (Curso de Pós-Graduação em Administração Escolar). Vila Nova de Gaia: ISPGaya – Instituto Superior Politécnico Gaya.
REIMÃO, C. (2005). “Ética da Profissão Docente”, 10ªs Jornadas Psicopedagógicas de Gaia. Resumo das Intervenções sobre o tema: “Deontologia e Desempenho Profissional”, in Psicologia, Educação e Cultura. Carvalhos: Colégio Internato dos Carvalhos. Vol. X, (1), Maio-2006, pp. 229-236
SILVA, E. D. M. (2005) O Professor Reflexivo. (Curso de Pós-Graduação em Administração Escolar). Vila Nova de Gaia: ISPGaya – Instituto Superior Politécnico Gaya. (Não publicado)
WERNECK. V. (1994). “Pessoa e Educação”, in Revista da Universidade Católica de Petrópolis. Petrópolis: Universidade Católica, Vol. 2 (6) Janeiro-Abril, pp.67-78

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

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domingo, 16 de junho de 2013

Filosofia para o Projeto de Vida


A dualidade que é patente existir no ser humano, no quadro de um mundo físico, visível, e de um mundo interior, invisível, tem conduzido à necessidade de um continuado esclarecimento destes dois espaços, tão distintos quanto complementares.
E se o mundo físico, que envolve o homem e ele próprio, na sua materialidade objetiva, igualmente é parte importante desse mundo visível, cada vez mais conhecido, pelo contributo dado pela ciência e pela técnica, a verdade é que o seu mundo interior, ou as suas dimensões imaterial e subjetiva não estão, por enquanto, suficientemente, esclarecidas. A angústia que de facto atormenta o poder, quase ilimitado, do homem, reside, justamente, no insondável que ainda se verifica na sua interioridade imaterial.
Se muito se deve à ciência e à técnica, quanto ao desenvolvimento, ao progresso e a um certo e relativo bem-estar material da humanidade, sem dúvida necessários à própria condição humana, e até à própria dignidade de cada pessoa, da mesma forma se pode atribuir à Filosofia uma função nada desprezível, desde logo na disciplina do pensamento rigoroso, ordenado e triunfador do homem. Por isso é tão importante na construção do projeto de vida, esta componente do conhecimento reflexivo que, justamente, bem conduzido, contribui para o bem-estar individual e coletivo.
A racionalidade do projeto de vida, obviamente, considera todos os elementos e recursos intervenientes nesse projeto, e a sua construção e decisão de implementação exigem a convocação e integração da ciência, da técnica e da Filosofia, entre outras áreas das ciências sociais e humanas. É necessário ter-se uma visão de conjunto, na maior parte das situações de vida e, muitas vezes, é insuficiente o domínio de apenas uma parcela da realidade, porque essa parcela fará, necessariamente, parte de um todo. A ciência não possibilita a visão da totalidade, nem é esse o seu objetivo.
Será, naturalmente, numa perspectiva globalizante que se considera importante, convocar a Filosofia para a construção do projeto de vida que, em determinada fase da sua execução, exige maturidade, sabedoria e prudência, aliás, se não houver o bom senso e a humildade de se reconhecer que aquelas qualidades, não sendo de natureza científica são, todavia, essenciais ao sucesso do desenvolvimento, então: «Os nossos conhecimentos destroem-nos. Embebedam-nos com o poder que nos dão. A única salvação está na sabedoria.» (DURANT, 1988:8).
Compreende-se, embora não se aceite, que num mundo, excessivamente dominado pelos paradigmas científicos e tecnológicos, muitos setores do universo político, empresarial e económico, não valorizem, como seria adequado, as potencialidades da Filosofia, preconceito que é agravado por uma mentalidade, segundo a qual: «A filosofia não enche a nossa carteira, não nos ergue às dignidades do Estado; é até bastante descuidosa destas coisas. Mas de que vale engordar a carteira, subir a altos postos e permanecer na ignorância ingénua, desapetrechado de espírito, brutal na conduta, instável no carácter, caótico nos desejos e cegamente infeliz?» (Id. Ibid.:7).
E se: por um lado, sem quaisquer preconceitos, nem complexos, há quem condene, nestes tempos modernos, um novo valor, ou uma nova e fortíssima dinâmica, que se alastra por todo o mundo, e que para já se convencionou designar por globalização, por enquanto, nos domínios da ciência, da tecnologia, do comércio, do capital, do conhecimento e da informação; por outro lado, ainda não se aceita, como parte interessada no sucesso do projeto de vida e de desenvolvimento dos cidadãos, individualmente considerados e das comunidades no seu todo, o contributo da Filosofia, de resto, Ciência, Tecnologia, Globalização e Filosofia não são incompatíveis, bem pelo contrário, podem complementar-se.
A Filosofia, cujo estudo e prática se deseja e apela para que sejam estimulados, o mais cedo possível, na vida das pessoas, dará um contributo inestimável para que, num futuro próximo: o fosso entre ricos e pobres seja mais pequeno; para que os conflitos se atenuem e venham a ser eliminados da face da Terra; e, finalmente, todos os homens possam viver com a dignidade a que têm direito, com as melhores condições de vida. É necessário refletir muito nas situações que, atualmente, menorizam este animal superior chamado Homem.
O Criador colocou na Terra tudo o que é necessário à vida, da qual é parte integrante, e interessada, o homem, este, na perspectiva teológica: criado à imagem e semelhança, não de qualquer outro animal, mas sim de um ente divino, superior e absoluto, seu exclusivo criador: Deus.
A Filosofia pode ajudar, pelo menos, a refletir nesta condição única, excecional e suprema que goza o homem, o que justifica a sua necessidade: «Só por isso a Filosofia tem garantida a sua presença no mundo, à procura do esclarecimento das ideias, como o único e efectivo caminho para a solução dos problemas da vida humana, na sua essência, cumprindo esta missão de ajudar o homem, em primeiro lugar, a tomar consciência do que seja a força das ideias. As ideias caracterizam os sentimentos; as ideias determinam a vontade; da clareza das ideias depende, enfim, a firmeza das acções.» (MENDONÇA, 1996:34).

Bibliografia

DURANT, Will, (1988). Filosofia da Vida. Os Problemas Filosóficos da Existência Humana, Trad. Monteiro Lobato, Lisboa: Livros do Brasil.
MENDONÇA, Eduardo Prado de, (1996). O Mundo Precisa de Filosofia, 11ª edição, Rio de Janeiro RJ: Agir

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
 
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