domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Homem: Núcleo Fundamental da Política

 
O homem é um fim e não um meio para a concretização de uma dignidade universalmente única e, simultaneamente, o lugar exclusivo da eticidade. A pessoa humana é, desde logo, uma realidade Ética, o centro de irradiação dos valores morais e, na sua transmissão, cada sujeito humano é, também, um elo da corrente intersubjetiva, que num comportamento de reciprocidade proporciona a difusão dos princípios fundamentais da convivência humana.
A Ética é, portanto, a base normativa da tarefa do homem-ser-homem, inviolável, intimamente pessoal, a que nenhuma autoridade terrena tem acesso. A Ética como disciplina normativa, do foro íntimo de cada ser humano, subordina a si todas as demais disciplinas práticas, e tanto mais quanto mais íntima e direta é a relação destas com o humano.
O homem é um “ser-com-os-outros”, numa atitude dialógica permanente e, como tal, palco de inúmeras atividades, especificamente humanas. A atividade política é, neste contexto heterogéneo, uma vertente ou dimensão do homem que não o globalizando ou substancializando, não deixa, porém, de ser um componente importante, na caraterização do seu todo.
A política radica no aspeto social do homem, constitui a síntese de ação e instituição em ordem à convivência social, no seu mais alto nível, referenciada no Poder. A comunidade política existe por causa do bem-comum, no qual está a sua plena justificação e sentido. A política é tanto mais nobre quanto mais e melhor resolver os problemas dos cidadãos.
Sendo a política uma dimensão eminentemente humana, então o homem é o seu núcleo fundamentador e difusor, centro da comunidade política e, perante esta, o homem torna-se cidadão com obrigações e responsabilidades, em que os interesses particulares se submetem ao interesse geral, materializado no bem-comum, a que toda a comunidade, sem exceção, tem direito.
O poder político é oriundo do homem, o vínculo natural que garante a coesão do corpo social, como tal também ele justificado, desde que organizado para o bem-comum, este, essência da legitimação daquele. A comunidade política, como realidade histórica, assume diversas formas na sua estrutura e, atualmente, nela se pode distinguir três aspetos fundamentais: 1) o Bem-Comum; 2) o Direito; 3) a Autoridade, que, no seu conjunto, definem o Estado.
Muito sinteticamente dir-se-á que: o Bem-Comum é a finalidade do Estado; o Direito objetiva e define o poder político, através da Lei à qual devem obedecer a Administração e os particulares. A Lei fundamental define o Estado de Direito, que a partir daquela funciona com as leis ordinárias, em estrita observância dos seus princípios definidores e orientadores.
O Estado de Direito implica, ainda, a separação dos poderes: legislativo, Executivo e Judicial, bem como o reconhecimento dos direitos e liberdades fundamentais. Finalmente, na composição do Estado, surge a Autoridade que se reveste de uma exigência imanente da comunidade política, a fim de coordenar, de forma livre e responsável, os esforços dos cidadãos em ordem ao Bem-Comum. A Autoridade funda-se na natureza humana, pertence à ordem fixada por Deus e, assim, pertence aos cidadãos eleger, livremente, o seu governo e a determinação do regime político mais adequado à prossecução do Bem-Comum.
A Política e a Ética não podem ser aspetos incompatíveis na dinâmica sociomoral que ao homem cabe promover. Na verdade, as relações Ética-Política podem ser analisadas numa perspectiva puramente histórica, pelo que se pode afirmar que: “na origem da Ética política está a cultura greco-romana, na simbiose da filosofia grega com o direito romano”, de resto, já em Platão se verifica uma primeira síntese da teoria política.
Nem sempre foram de igual forma as relações entre a Ética e a Política: tendo uns, defendido o primado daquela (Platão, Santo Agostinho); outros, preferem a política (Aristóteles, Maquiavel) e, finalmente, há aqueles que conciliam as duas componentes, quer o social, quer o político, reduzindo-os às fronteiras do humano e do secular, sem qualquer abertura a Deus e ao seu projeto (Hobbes, Rousseau). Mais recentemente, Kant manifesta-se a favor da Lei Moral, como imperativo categórico, que determina ao homem a vontade à ação, independentemente de todos os motivos materiais.
Nos dias atuais, coloca-se, também, a questão de se saber se o progresso moral e espiritual acompanham o progresso técnico-material. Com efeito, a descoberta de técnicas que ainda há bem poucas décadas seriam uma utopia, e a consequente aplicação de práticas, revelam até que ponto pode a grandeza do homem chegar, todavia, tal dimensão será ela, por si só, dignificante do homem como pessoa humana, ou conduzirá, pelo contrário, à escravidão e humilhação do mesmo homem, que a desenvolveu?
Naturalmente que tais posições pessimistas e derrotistas são contrárias ao otimismo religioso e, então, poder-se-ia valorizar a tecnologia, o progresso material, acompanhando-os, em igual dimensão, da práxis Ética, colocando em relevo as virtualidades dos atos moralmente bons, positivamente apoiados na certeza da consciência moral, defendendo, constantemente, os mais elementares direitos naturais e valores humanos, como o direito à saúde, à liberdade de consciência e de religião, o direito de livre escolha da educação que os pais pretendem para os seus filhos, o direito de associação desde que em ordem ao Bem-Comum.
A relação entre a Ética e a Política parte, também e desde sempre, da família, núcleo anterior a todo o direito positivo, célula fundamentadora da sociedade. A Ética na família deve sobrepor-se à política na família, quando tal política colide com os princípios éticos, isto é, quando a natureza daquela é puramente ideológico-material.
Afinal, é na família de hoje que reside o governo de amanhã, e são as pessoas responsáveis do presente que devem preparar os dirigentes do futuro, possibilitando à família as condições morais, culturais, religiosas e materiais para que num ambiente de harmonia e amor conjugal se preparem para dar continuidade ao projeto verdadeiramente humano, no plano sagrado traçado por Deus.
Ainda numa apreciação política, sob o ponto de vista ético, igualmente se pode salientar a importância da ética sobre a técnica, na medida em que parece que grande parte das estratégias políticas atuais, pretendem fundamentar na técnica as suas medidas, procurando reduzir ao projeto tecnológico toda a dimensão dos interesses do homem, fomentando-se bastante uma nova mentalidade tecnocrata, ou seja, o culto, o religioso, o sentimental, o pensador, são indivíduos que em anda contribuem para o bem-estar e riqueza materiais da humanidade e, como tal, parasitários dos inventos e técnicas!
Pode afigurar-se que, nesta possível intoxicação mental reside grande parte dos males que afligem a humanidade e, desde já, proporciona: a proliferação de situações que em início do novo século XXI e de um recente milénio, constituem uma verdadeira praga, entre estas a fome (quando se delapidam verbas fabulosas em armamento); o desemprego galopante (só em Portugal 14% em Fevereiro de 2012); falta de habitação condigna, acessível a todas as pessoas; os conflitos regionais mas internacionalizados.
A técnica, a ciência e toda a tecnologia que as envolvem, certamente que se justificam, porém, devem ser sempre acompanhadas e controladas pela Ética. Se assim um dia vier a acontecer, então, felizes os vindouros, porque serão sinais inequívocos que os grandes princípios, valores e sentimentos, voltaram às consciências das pessoas verdadeiramente humanas.
É indiscutível que nas várias facetas da atividade humana existe sempre uma maior ou menor dose da componente política, de acordo com uma ou outra ideologia, sob um ou outro rótulo, mais ou menos sonante, mais ou menos representativo e, neste âmbito, a proliferação de vários excessos, tais como indicam os inúmeros sufixos terminados em “ismos”, que por esse mundo fora proliferam. Neste enquadramento se situam muitos dos atuais “socialismos”, mas muito poucos haverá em conformidade com a vontade e mensagem Evangélica, que convida à fraternidade, à liberdade e à igualdade, que apela à unidade.
Que melhor socialização do que aquela que conduz à plena personalização, à equidade de oportunidades. O que mais pode preocupar é quando os sistemas radicais de certos “socialismos” correspondem, aos seus antípodas do “capitalismo selvagem”, porque se teme que, nem um nem outro, tenham como ponto de referência o homem integral e, pelo contrário, este será utilizado como uma peça da engrenagem “coletivista” ou um “instrumento” para acumulação de riqueza, sujeito de deveres, vítima de obrigações desumanas, da opressão egoísta de uma minoria detentora do poder especulativo da economia e das finanças.
Invoca-se, hoje, as opções socialistas de militantes cristãos e esta tese doutrinária pode, de facto, ser levada à prática, porque na verdade o movimento socialista puro nasceu no operariado oprimido, explorado, escravizado, humilhado, e mesmo vendido. Um socialismo social e democrático, justo e humanista. É necessário um comportamento genuinamente humano, de um “ser-homem-com-os-outros-homens” e, nesta atitude, deve incorporar-se a presença da Divindade, no dinamismo operário, pois Ela é tão necessária quanto urgente, principalmente no seio dos mais fortes.
O mundo não carece de uma “onda messiânica”, mas do simples gesto de “nos darmos as mãos”, de comungarmos dos mesmos ideais de Bem-Comum. O homem é um ser que deve transcender-se, ultrapassar a sua própria finitude, o mal e a infelicidade, porque esta é a sua vontade mais profunda, embora, e infelizmente, muitas vezes, ignorada. É, precisamente, no desembocar de uma corrente privilegiada que surge o misterioso fenómeno da conceção de Deus, é nesta altura que exponencialmente e com toda a liberdade pode surgir o ato de fé, ou seja, de conhecimento e reconhecimento da Verdade buscada pelo homem sobre o homem.
É, portanto, na perceção da existência divina que toda a política poderá ser conduzida, harmonicamente, considerando, na devida conta, os interesses de cada um e a estabilidade do todo, premiando os que honesta e dedicadamente desenvolvem a sua atividade, dando oportunidade àqueles que, por diversos motivos, não conseguiram, ainda, integrar-se numa sociedade que se pretende digna, com possibilidade de amor, de defesa dos valores absolutos, consubstanciados num Deus-Amor. Uma política de trabalho, conhecimento e amor, numa disciplina moral que engloba toda a atividade humana.
É preciso que os políticos tentem uma “aventura de salvação”, e com eles arrastem os seus apoiantes, uma aventura de salvação pelas estradas que conduzem ao Bem-Comum e que desde logo se iniciam nos “carreiros” da: tolerância, respeito, amor, paz e felicidade. Estes “carreiros” quais “afluentes” dos rios, seguramente que convergem para a dignidade da pessoa humana. 

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 

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domingo, 27 de janeiro de 2013

As Cartas de Schiller sobre a Educação Estética


O autor das “Cartas sobre a Educação Estética da Humanidade”, transmite, nesta sua obra, um depoimento da sua própria vivência e inteligência, dando forma à sua interpretação do mundo humano, apontando o rumo para uma nova humanidade, através de um estado estético que ele designou por “Terceiro Caráter”.
Schiller mostra inequivocamente o seu entusiasmo pelo belo e pela arte, que ele relaciona intimamente com a felicidade e com a política, defendendo a posse da cultura pelo homem, já que só ela o pode encher na sua totalidade e, assim, se enobrecendo, atingirá a liberdade plena, em êxtase de maravilha estética. Schiller considera que a necessidade material é um mal social, que destrói, sistematicamente, os povos e a sua liberdade, pelo que a sua ascensão ao mundo das ideias e à razão levá-los-ia a abandonar a realidade objectiva.
Ele defende que é necessário conseguir-se a harmonia dos indistintos e das forças, que congregam a totalidade do carácter, por isso, entende que a liberdade provém da cultura estética, que existe pela união do impulso objectivo e do impulso formal, na unidade das ideias, que tem a sua base no impulso do jogo do homem, que o leva assim a tornar-se homem completo pela união da razão e da sensibilidade.
Nas suas primeiras cartas é aglutinante o tratamento de uma certa filosofia de estado, o qual é para Schiller aquele em que o homem é natureza, interessando o estado que insere o homem como um ser moral. É pela mediação entre estes dois estados que surge o Estado Estético que provém da transformação do homem físico em homem moral, através do “Terceiro Caráter”.
É interessante sublinhar que neste último estado, admitido por Schiller, o comportamento moral é natureza e os impulsos naturais concordam com a razão. O autor pretende que o estado deve ter como objectivo fundamental a unidade, não desprezando, no entanto, a multiplicidade, devendo procurar estabelecer um reino de moral, sem marginalizar o reino sensível dos indivíduos singulares.
Nas suas Cartas Schiller critica fortemente a sociedade do seu tempo e, apesar de ter sido galardoado pela posição assumida antes da Revolução Francesa, não acolheu com entusiasmo os factos políticos, passados na altura.
É duro nas suas considerações relativamente aos antagonismos que geram conflitos. Enaltece o homem grego e o seu ideal, encontrando nele um conjunto de virtudes perfeitamente contrastantes com o homem da sua época, que está alienado e fragmentado na sua individualidade pessoal.
Todavia, considera esta fragmentação como o meio adequado para a evolução da espécie, sendo pelo equilíbrio que a felicidade se obtém, propondo que não nos devemos considerar degraus para aproveitamento de gerações futuras porque são de sacrifício.
Acredita que o estado que chama de atual não pode remediar os males que causou nem que o estado ideal possa gerar uma humanidade de moralmente perfeita, pois é esta que deve criar o Estado Ideal. O estado deve abandonar por completo o barbarismo, a conflituosidade, padrões de perda do valor humano, procurando melhorá-lo pela sublimação do poder estético, pela Arte. O mesmo Estado deve exaltar o artista, atribuindo-lhe o estatuto de guia de certo grau de espiritualidade, que atinja o Bem e a Verdade, através da Beleza.
O idealista não pretende a comunhão do espírito e da matéria, mas sim a separação da ideia da realidade. Na opinião do autor, são a brutalidade física do selvagem e a decadência do bárbaro culto, que sufocam a beleza. Para Schiller, a pessoa e o Estado são conceitos formativos da natureza humana, aos quais correspondem dois impulsos fundamentais: o impulso material ou objetivo e o formal ou subjetivo.
O impulso material vem dos sentidos que o converte em matéria, e é através dele que despertam as atitudes da humanidade que não se completam; o impulso formal provém da natureza racional do homem, e que o leva à liberdade, ajudando-o a afirmar-se como pessoa e a libertá-lo do quotidiano, fazendo com que ele ascenda a uma vida superior.
No impulso do jogo, a Beleza completa o homem pela união da sensibilidade e da razão. No fenómeno, o belo é a forma viva e a beleza transforma-se em liberdade. Para se obter o equilíbrio entre o impulso sensível e o formal é necessário que atue o impulso lúdico, o qual dá ao homem a liberdade ao emancipar-se do natural e da razão.
Se tal impulso se desfaz, resultam duas classes de beleza: se a preponderância é da matéria verifica-se uma beleza melodiosa; se é a forma que predomina, há uma beleza enérgica. Com a perda do equilíbrio o homem também perde a liberdade, pois de um impulso fundamental se torna imperativo, o homem sente-se coagido, violentado, porque a sua liberdade só existe na atuação conjunta das suas duas naturezas.
O estado estético é o intermédio a esse equilíbrio, porque nele atuam conjuntamente a sensibilidade e a razão, ou seja, a Beleza. Para Schiller, não é possível atingir-se a liberdade sem se enveredar elo estético, através da beleza, porque só a Estética nos conduz ao infinito, ao absoluto. É a Beleza que estabelece a totalidade do humanismo e, nesse sentido, só a educação estética pode dar à humanidade, qualquer que seja o tipo de sociedade, a harmonia de que precisa e da qual o indivíduo é o seu suporte.
É a Beleza que une a sociedade, porque ela diz respeito a todos. Sob o aspecto político a liberdade e a igualdade não provem um estado, como o resultado da Revolução Francesa, acrescentando na última carta que no estado estético cada um é um cidadão livre.
Parece existir na obra de Schiller uma convergência especulativa da poesia e da moral, na qual o seu ideal estético pode ser considerado como estrutura necessária ao estabelecimento de uma sociedade política, onde a natureza humana deveria conter no seu seio o “Homem Estético”, isto é, aquele que se pode tornar, ele mesmo, numa obra de arte, em forma viva, em “bela alma”.
O homem deveria elevar-se do meio físico, que o procura escravizar, ao estado lúdico em que ele é soberano e coincidente no seu todo. Ao desligar-se da realidade e ao não subjugar-se aos seus efeitos, conquista a liberdade pela arte, subindo a um Olimpo de Virtudes.
Da obra de Schiller deduz-se que a arte possui um estatuto normativo ideal, que culmina as suas manifestações espirituais numa oposição à matéria destruidora da liberdade. Para se ser livre, basta sê-lo espiritualmente e, por isso, nem as cadeias que limitam a acção do homem físico, nem as regras de um Estado organizado prejudicam a liberdade de que um homem pode constantemente usufruir.
O homem deverá inverter o seu sentido final, colocando-se ao seu próprio serviço e retirando-se toda a carga negativa com que contamina qualquer comunidade, mais ou menos predisposta a uma idolatria e, distanciando tal contexto, ao homem surge uma liberdade que não é só dele, mas também de todos quantos inspirados pela natureza, desta conseguindo obter, por representação, uma obra de arte.
E não será só o artista que o consegue, pois o homem comum é, também, agente, embora quase inconsciente da beleza que o toma, o seu próprio corpo é uma exteriorização da beleza, uma obra de arte, conforme afirma Schiller, só que, quando mergulhado nas massas humildes e brutais perde o seu valor estético. O prazer estético estará assim naufragado num mar revolto de consciências anormais, e quanto seria benéfico para o homem conseguir energia de tal tempestade, dignificando o seu comportamento pelo abraçar do “Terceiro Caráter”.
O Estado deve estar subordinado aos ditames da moral, criando-se através do estético uma civilização ideal. É necessária uma maior humanidade, não resultante de guerras ou revoluções anárquicas, mas conseguida pela força da Moral. Schiller indica o rumo para tal, pela “Educação Estética”, talvez utópica, mas premente num mundo pleno de contradições e de desgraças, não obstante os progressos da técnica, bastando que o homem seja capaz de pôr à prova e ao seu serviço todos os dons que Deus lhe deu.
As “Cartas” de Schiller são uma obra filosófica e a arte foi a primeira exteriorização cultural do homem. A Estética é um caminho que nos conduz a uma felicidade moral, a uma compreensão da humanidade, a uma intersubjetividade tolerante.

Bibliografia
 
DUCASSÉ, P., (s.d.). As Grandes Correntes da Filosofia. 5ª Ed. Lisboa: Publicações Europa-América
HADJINICOLAOO, N., (1978). História das Artes e Movimentos Sociais. Lisboa: Edições 70
MARCUSE, H., (s.d.). A Dimensão Estética. Lisboa: Edições 70
PLAZAOLA, Juan, (1973). Introdución a la Estética. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos
SCHILLER, Johann Christoph Friedrich von, (s.d.). Cartas Sobre a Educação Estética da Humanidade. Buenos Aires: Ed. Aguilar. 
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 
 
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domingo, 20 de janeiro de 2013

Desvelamento do Ser


O Ser é a ideia mais abstrata de todas e a menos compreensiva, porque ela é obtida depois de abstrairmos de tudo o que há de individual, concreto e quantitativo na realidade, de modo a ficarmos apenas com a realidade enquanto realidade.
Muito genericamente dir-se-ia que o Ser é tudo o que existe ou pode vir a existir, logo, opõe-se ao nada e o nada apenas pode ser concebido pelo Ser de que é negação. O pensamento é, assim, o primeiro grau da realidade, embora realidade subjectiva.
Na hierarquia do Ser distinguimos três graus: o Ser possível; o Ser existente e o Ser necessário – este existe por si e cuja essência é a própria existência. O Ser só o é enquanto lhe reconhecemos os seus atributos, isto é, unidade, transcendência e analogia.
Mas o Ser em si, tal e qual como ele é, constitui, hoje, um tema apaixonante, misterioso, quem sabe se sagrado e eternamente insondável e indecifrável, apesar dele se nos desvelar nos mais insignificantes actos da natureza, como as fases de desenvolvimento de uma planta, em todo o seu ciclo vegetal, como na vida do homem a partir do memento da sua concepção num acto sexual de amor, ódio, sadismo, violação ou vingança, até à sua morte biológica.
Mas no Ser último que transcende as fases cíclicas da natureza, causa das causas, necessário e suficiente, infinito e invisível, neste Ser desconhecido pela ciência, é que interessa meditar e tentar conhecê-lo melhor o que, naturalmente, só será possível para além do mundo terreno e concreto que nos cerca, logo, o homem não atinge o Ser pela via científica ou especulativa, mas tão só pela fé, pela convicção profundamente religiosa.
Com efeito, verificamos, constantemente, o desvelamento do ser em todas as coisas, inclusivamente neste acto de escrever. Ele revela-se em mim como fonte de inspiração, de meditação, de acção, de fé, todavia eu não o vejo, não o consigo imaginar consubstanciado numa qualquer forma material ou delimitado no espaço e, apesar de tudo, acredito no Ser que eu sou e no Ser que faz com que eu seja aquilo que julgo ser.
Perante a grandiosidade deste facto, eu não posso deixar de me considerar tão pequenino, tão insignificante, tão imperfeito, face à magnitude do Ser Supremo que me dá o Ser concreto e abstracto, material e espiritual. Esse Ser Supremo em que eu acredito, ao qual procuro obedecer, ainda que na prática do mal, esse Ser só poderá existir como cúpula de todos os seres e então, tenho de o reconhecer em Deus.
O homem de hoje preocupa-se pouco com o Ser enquanto Ser Homem à imagem e/ou semelhança do seu Criador e não se apercebe do valor ético-social que representa ser Homem enquanto modelo do Ser Supremo, daí que a crise espiritual seja constante no seu Ser verdadeiro, porque o ser que julga ser, não é mais que um “ser máscara”, uma ilusão materializada num comportamento mesquinho, egoísta e desonesto. É este Ser que o homem do princípio do século XXI, do terceiro milénio, após o nascimento de Cristo, procura exibir em todos os momentos, espaços e situações que se lhe proporcionam.
O desvelamento do Ser Verdadeiro e Supremo apenas existe a partir d’Ele, porque só Ele é Ser Omnisciente, Omnipotente, Criador de todos os outros seres e sacrificado pelo ideal de ser Homem à sua semelhança. O Ser a que me refiro concretiza-se em Jesus Cristo, verdadeiro Ser que se desvela em todos os mistérios, manifesta-se em todas as coisas e interioriza-se na minha consciência para me aconselhar, para me guiar, enfim, para me fazer mais Ser e n’Ele me desvelar também.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
 
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domingo, 13 de janeiro de 2013

Trabalho: Dignidade, Justiça e Cultura


Na obra que serve a presente reflexão, António Sérgio, descreve como a partir do “Self-government” se podem criar tipos de escolas mais abrangentes, à semelhança de um Estado.
Acompanhou depois todo o processo que se desenvolveu a partir de três cidades escolares a funcionar numa escola normal em Nova Platz – Estado de Nova York. De modalidades tais como a “Júnior Republic”, onde se instituíram leis necessárias à defesa da propriedade e o deferimento de julgamento e punição de delinquentes, verificou que as regras eram melhor executadas quando instituídas pelos estudantes do que impostas autocraticamente.
A Cidade-Escolar passou a organizar-se na sociedade dos estudantes à maneira de um município norte-americano, com as suas câmaras, presidente, etc. Vários estados podem reunir-se numa nação ou confederação.
A forma rudimentar do sistema é o das Aldeias Escolares. No Município Escolar preparam-se as crianças para receber a ideia de Município. Aqui propõe-se-lhes uma noção concreta do governo democrático o qual terá por funções: fazer leis para cooperação dos cidadãos; vigiar em comum pelo seu cumprimento; elaborar um plano de governo que é votado pelos alunos; ensinar os alunos a fazerem petições e nestas a indicarem os objectivos principais.
No funcionamento dos Municípios Escolares são importantes os forais nos quais constam as regras fundamentais, nomeadamente: objectivos, lei geral, coisas proibidas, deveres, punições, etc. O capítulo termina com uma advertência (1984: 58): «Daí a necessidade fundamental de impedir que nas escolas surjam partidos imperados nas clientelas das políticas da nação, a fim de que preparem cidadãos dispostos a atender antes de tudo aos interesses reais do Município.»
António Sérgio encaminha-se para o final da obra, considerando o “self-government” e o “self-support” (1984:69) afirmando que: «o verdadeiro educador há-de ser um vidente, um percursor, um profeta», sujeitando as crianças às exigências espontâneas, naturais e ideais de uma sociedade progressiva.
O trabalho é aqui encarado como uma divisa que suporta as condições de dignidade, de esforço pessoal criador e disciplinado, de justiça e de cultura. Os artigos produzidos na República, quer nos campos, quer nas oficinas são vendidos dentro dela ou para fora.
Desenvolve-se, depois, todo o processo organizativo, que conduz, inclusivamente, se for o caso, à reabilitação, perante os cidadãos e o instrutor, de todo aquele que não se esforça por cumprir as regras trabalhando, tal como se passa na vida real, em sociedade.
Destaca-se, pedindo ao leitor (1984:83-84) que «... se coloque neste ponto de vista ao medir o valor pedagógico  de autonomia ligada ao trabalho profissional.» Sérgio conclui a obra com o seguinte comentário: «Os remédios são, evidentemente, uma escola de trabalho e de autonomia, do labor profissional e de iniciativa – uma escola civil para a vida: é essa mesma que vos proponho. Dessa escola não vai banida – bem ao contrário – a educação estética e filosófica: só nela a arte, a ciência e a filosofia tomam vida, deixam de ser um cadáver mumificado numa sebenta.»

Bibliografia

SÉRGIO, António, (1984). Educação Cívica. Lisboa: ICLP/ME.
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 

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domingo, 6 de janeiro de 2013

Um Mundo com Ética


Atualmente a Ética terá de ser a disciplina nuclear em todos os currículos escolares, sejam de natureza técnica, cultural ou científica. Há que ressuscitar a moral fundamental de há dois milénios. Urge dinamizar as Igrejas no mundo, no sentido da concretização da mais íntima união da Igreja com toda a família humana, porque ela é a vocação do homem, porque o homem é criado à imagem de Deus e Este é Supremo Bem, cúpula celestial de todas as cúpulas terrenas.
É dever dos crentes cooperarem na construção da ordem internacional, com verdadeiro respeito pelas liberdades legítimas e na amigável fraternidade de todos. A salvação do mundo poderá residir na capacidade de intervenção ética dos crentes, sem fanatismos, sem complexos, sem preconceitos, mas, antes, numa abertura antropológica, com novos estilos de vida do homem, como autor de cultura; permanentemente promovendo o progresso cultural, com fé, em obediência à mensagem religiosa; em harmonia entre os diversos estratos humanos, enfim, numa verdadeira filosofia ético-social e política.
A prevalência da dignidade humana não é incompatível com o desenvolvimento da vida económica, social e política, bem pelo contrário, este progresso é, apenas, um dos aspetos caracterizadores da condição humana, porque o homem é o único ser capaz de, técnica e conscientemente, viver numa ordem económica e social.
Certamente que em tal crescimento: coexistem o luxo e a miséria; a opulência e a escassez; o poder e a submissão; a justiça e a iniquidade, e isto, precisamente, porque o homem não tem querido assumir as posições coerentes com o seu elevado estatuto, isto é, o homem do poder, da decisão, titular dos meios, ainda não pôs ao serviço da comunidade em geral, todas as potencialidades do progresso científico, técnico e económico.
A finalidade fundamental da produção não poderá ser, apenas, o mero aumento de produtos, nem o lucro, nem o poderio, mas o serviço de homem, do homem total, em ordem às suas necessidades materiais, às suas exigências intelectuais, morais, espirituais e religiosas, independentemente da sua posição geográfica, raça, credo ou política.
No aspeto económico é candente uma solução para o problema do controle do respetivo desenvolvimento, sem submissão a grupos ou indivíduos poderosos, bem pelo contrário, é necessário que em todas as plataformas da sociedade intervenham, na sua direção, o maior número possível de pessoas.
A irradicação das desigualdades económicas é outra das medidas que terá de ser imediatamente tomada, para satisfação das exigências da justiça e da equidade, evitando-se toda e qualquer discriminação, quanto às condições de trabalho e remuneração.
É preciso adaptar todo o processo de trabalho produtivo às necessidades da pessoa humana e às formas de vida, protegendo-se, desde logo, e em primeiro lugar, as mães, atendendo ao seu profundo contributo para a harmonia familiar e na preparação daquela/e/s que, no futuro, serão dirigentes das respetivas comunidades e, finalmente, considerando o sublime estatuto materno que assiste à mulher.
A construção de uma nova comunidade internacional, passa, assim, por profundas alterações da sociedade, na qual devem desempenhar papel preponderante todas as pessoas de Boa-Vontade, desligadas das correntes pseudo-progressistas, mas ávidas de concórdia, gananciosas pela paz, lutadoras pela prosperidade, combatentes contra a fome, a doença, a miséria, enfim, guerreiras da paz.
Seguramente que tais pessoas não são providenciais, elas existem em todos os cantos do mundo, em todas as raças, em todas as religiões. Certamente que a maioria dessas pessoas são fieis depositárias da palavra de Deus, seguidoras da mensagem Divina.
Naturalmente que o foco de irradiação deste movimento ressuscitador da palavra divina é a Igreja e o Diálogo entre as pessoas e a edificação do mundo para o Supremo e Absoluto Bem: Deus. 
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
 
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domingo, 30 de dezembro de 2012

Construir a Paz


Regra geral: toda a pessoa, verdadeiramente humana; as famílias; as instituições; as comunidades; as sociedades; os povos; as nações de todo o mundo perseguem objetivos, desejam alcançá-los e consolidá-los para viverem com a maior estabilidade possível, com qualidade de vida, com tranquilidade, na maior felicidade exequível, enfim, com Paz.
Na verdade, o Papa Paulo VI, em sua primeira mensagem para o dia de Ano Novo, dizia: «Dirigimo-nos a todos os homens de boa vontade, para os exortar a celebrar o Dia da Paz, em todo o mundo, no primeiro dia do ano civil, 1 de Janeiro de 1968. Desejaríamos que depois, cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processar-se da história no futuro.» (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_Mundial_da_Paz, consultado em 25.11.2012).
Muitos são os valores que acompanham a existência humana, ainda que as culturas, histórias, civilizações tenham, e pratiquem, os valores que consideram próprios de cada povo. Praticamente, é impossível conseguir adaptar-se valores e as respetivas boas-práticas, comuns a todas as pessoas e embora se deseje acreditar que haverá valores que toda a gente gostaria de possuir e usufruir plenamente, como por exemplo: saúde, trabalho, família, solidariedade, justiça, felicidade e Paz, o certo é que não é seguro que assim seja.
A Paz não é apenas e/ou necessariamente a ausência de guerra. Ela envolve por si só outros valores, outras práticas, de tal forma que se não existirem e não forem fruídos, então a Paz será, tão só, uma condição em que se vive, mas que não traz à pessoa humana, a tranquilidade para viver feliz, com entusiasmo, dinamismo e projetos de vida. A Paz, no conceito de ausência de guerra, é muito pouco. A Paz tem de comportar outras exigências, dimensões e realizações para que contribua para a dignidade humana.
É rigorosamente verdade que o mundo é um aglomerado de seres, de fenómenos, de mistérios. O ser humano é, porventura, no campo do que já é conhecido, o mais evoluído de todos, aquele que verdadeiramente constrói, desenvolve e desfruta de uma cultura, desde logo, na sua própria educação, formação ao longo de toda a vida, sem que alguma vez se sinta plenamente realizado, feliz, todavia, poderá encontra alguma tranquilidade, uma sensação de bem-estar, de conforto material e espiritual.
Se assim for, então, parta-se da aceitação de que a Paz deve começar em cada pessoa e depois, qual vento circulante, expandir-se para as outras pessoas, cada uma destas, igualmente se esforçando por construir a sua própria Paz, continuando a envolver sempre mais pessoas, povos e nações. Resulta que a grande estratégia será a soma das Pazes individuais para se erigir a Paz mundial, porque é necessário o contributo de todos, em liberdade e com responsabilidade.
Com efeito: «A Paz é a prática da consciência plena, a prática de estar ciente dos nossos próprios pensamentos, das nossas ações e das consequências das nossas ações. A consciência plena é simultaneamente simples e profunda. Quando somos plenamente conscientes e cultivamos a compaixão da nossa vida diária, diminuímos a violência a cada dia que passa. Temos um efeito positivo na nossa família, nos amigos e na sociedade» (HANH, 2003:11).
Este valor inestimável, procurado pela esmagadora maioria das pessoas, povos e nações, encontra sempre imensos obstáculos, porque a Paz tem de começar a existir no espírito de cada indivíduo, é ele que tudo deve fazer para “contaminar” os outros, qual bola de neve.
Enquanto não forem erradicados objetivos individuais de puro egoísmo, do poder-pelo-poder, de domínio arrogante, prepotente, ditatorial e desumano; enquanto predominar o ter sobre o ser; a perseguição sobre a reconciliação; a vingança sobre o perdão; a hipocrisia sobre a lealdade; a ambiguidade sobre a solidariedade, a Paz é, praticamente, uma utopia.
Claro que toda a utopia, mais tarde ou mais cedo, ao longo da história da humanidade, pode-se tornar realidade, tudo dependendo da determinação de cada pessoa em “lutar” pela sua própria Paz e ajudar os seus semelhantes a conquistar e praticar este supremo bem.
É fundamental que se tenha a coragem e também a humildade de se autoavaliar, reconhecer que se errou e corrigir tudo o que intencionalmente, ou não, foi realizado para prejudicar outras pessoas, para humilhar, desconsiderar, magoar e desgostar. Enquanto esta situação perdurar em cada pessoa, ela não terá Paz consigo própria, logo, não está em condições de contribuir para uma verdadeira Paz alargada a toda a gente.
Portanto, é condição “sine qua non” que se comece por avaliar o grau de culpabilidade na ausência da Paz individual porque: «A verdadeira culpa é o remorso que sentimos quando magoamos aqueles que amamos; ela nos faz ter vontade de corrigir as coisas no nosso relacionamento com os outros. A falsa culpa é o medo da punção que está mais ligada à necessidade de nos protegermos depois que fazemos algo errado. A falsa culpa raramente beneficia o nosso relacionamento com os outros. Na verdade, ela em geral nos prejudica e nos torna pessoas de convivência mais difícil.» (BAKER, 2005:79).
Comemora-se mais uma efeméride relativa ao “Dia Mundial da Paz”, no início de cada ano, mais concretamente, no dia 01 de Janeiro, dia de Ano Novo. Os apelos à Paz vêm de todos os quadrantes: religiosos, políticos, económicos, empresariais. Considera-se, então, naquele dia, a Paz como um desígnio universal a alcançar e consolidar.
As promessas de tudo se fazer, a partir das mais altas instâncias, nacionais e internacionais, são uma atitude que se deve aplaudir e, com mais veemência, quando depois se concretizam no terreno. Mas a Paz que se deseja para todos, será que existe em cada pessoa anónima e nas que fazem os apelos mais lancinantes, para que ela se concretize?
A realidade é bem diferente porque: «Todos nós sonhamos com uma vida melhor, uma sociedade melhor. Contudo, tornou-se difícil passar um dia que seja sem nos desiludirmos, sem nos sentirmos desapontados, sem nos sentirmos sugados pelas pessoas mesquinhas e egoístas que nos rodeiam. Parece que uma grande maioria das pessoas só está interessada nos seus ganhos pessoais. Tornaram-se rudes e arrogantes, críticas e insensíveis. As suas acções não só nos deprimem, como também nos fazem sentir que não podemos fazer nada para mudar este estado de coisas e que apenas os que estão no poder têm capacidade de fazer a diferença.» (BRIAN, 2000:138).
Seguramente que a Paz é um bem supremo, um valor, um desígnio, enfim, eventualmente, o bem último a que o ser humano aspira e que persegue, incessantemente, até nas expressões mais simples como: “Deixem-me em Paz” se confirma este desejo universal. Mas a Paz é um objetivo difícil de alcançar, não necessariamente porque o ser humano não tenha inteligência e meios para dela se aproximar, mas porque os conflitos internos em cada pessoa estão sempre latentes.
Evidentemente que nenhuma das posições individuais – pessimismo – otimismo – quando exageradas poderá conduzir, com segurança, à Paz mas, provavelmente, um otimismo moderado, realista, racional e também com um pouco de sentimento e emoção, ajuda imenso, pelo menos a acreditar, a ter fé na possibilidade da Paz, com todos os outros valores e oportunidades que ela proporciona no mundo.
A Paz interior, sempre em construção, sempre a melhorar, sempre a dar mais felicidade a quem por ela “luta”, será o rumo a seguir, objetivo a alcançar. Para o efeito aponta-se, de facto, uma atitude otimista, realista, com esperança, com determinação, com capacidade de adaptação, com serenidade e com sentido da realização do potencial de transformação.
Seguramente, não um otimismo santificado, ingénuo e “cor-de-rosa”, porque este pode levar ao desespero, na medida em que o mundo, indiscutivelmente, não é fácil, nem imutável e, muito menos, girando à volta de cada pessoa, de cada interesse. O mundo tem “esquinas muito pontiagudas”, “espinhos venenosos”, e “alçapões sem fundo”, por isso é importante ter-se em atenção esta e outras realidades.
A estratégia para a Paz passa, portanto, pelo otimismo racional, realista, com emoção, sentimento e entusiasmo e, nesse sentido: «Não nos detenhamos na imagem Épinal (Épinal é uma cidade situada no nordeste da França, capital do departamento de Vosges, na região Lorena. A cidade é atravessada pelo rio Mosela. Épinal é a cidade de nascimento de Émile Durkheim e de Marcel Mauss) do otimismo beato. Por trás desse cliché de que gostamos de troçar esconde-se um grande número de qualidades: a esperança, a determinação, a faculdade de adaptação, a lucidez, a serenidade e a força de caráter, o pragmatismo, a coragem e até a audácia, outras tantas qualidades que se encontra no soukha, a verdadeira felicidade». (RICARD, 2003:180).
Está identificado, a partir da determinação pessoa, o rumo a seguir para se chegar ao bom porto da Paz. Um rumo que será estimulante de se seguir, desde já com a força da solidariedade entre todas as pessoas de boa-vontade, porque, afinal, a solidariedade dever ser: «Entendida como sentimento de fraternidade, de adesão, de felicidade e de compreensão que nos impele a cuidar, apoiar e animar mutuamente, é uma força natural que incute confiança, segurança, esperança e fomenta uma perspectiva mais comunitária do mundo menos individualista.» (MARCOS, 2011-122). Sim, a Paz é possível, assim a queiramos todos unidos. Mãos à obra e Paz para todos.

Bibliografia

BAKER, Mark W., (2005). Jesus o Maior Psicólogo que já Existiu.Trad. Cláudia Gerpe Duarte. Rio de Janeiro: Sextante.
BRIAN L. Weiss, M.D. (2000). A Divina Sabedoria dos Mestres. Um Guia para a Felicidade, alegria e Paz Interior. Trad. António Reca de Sousa. Cascais: Pergaminho.
HANH, Thich Nhat, (2004). Criar a Verdadeira Paz. Cascais : Pergaminho
MARCOS, Luís Rojas, (2011). Superar a Adversidade, O Poder da Resiliência. Trad. Maria Mateus. Lisboa: Grupo Planeta.
RICARD, Matthieu, (2005). Em Defesa da Felicidade. Trad. Ana Moura. Cascais: Editora Pergaminho, Ldª.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Portugal: www.caminha2000.com (Link Cidadania)

domingo, 23 de dezembro de 2012

Natal: Renovar a Esperança


Vivenciar, com a dignidade que enobrece a pessoa humana, um período tão especial como este que agora se atravessa, correspondente à quadra Natalícia, é a renovação de um acontecimento que, ano após ano, se repete e que culmina em dois dias de profundo significado para as famílias: o dia de Ceia e o dia de Natal. Cada um com o seu simbolismo, intenso, emocional e místico, porque a sensibilidade para os valores da família fica mais exposta e também mais vulnerável.
A vida humana é curta, demasiado rápida, para que se perca tempo com atividades, comportamentos, interesses e situações que apenas revelam grande falta de sensibilidade e de boas-práticas, no exercício dos valores fundamentais da dignidade da pessoa, que se deseja verdadeiramente humana.
Com efeito: «Viemos cá para estarmos em comunhão, para aprendermos sobre o amor com outros seres humanos que estão no mesmo caminho que nós, que aprendem as mesmas lições. O amor não é um processo intelectual. É sim uma energia dinâmica que entra em nós e flui todo o tempo através de nós, estejamos nós conscientes desse facto ou não. O fundamental é aprendermos a receber amor, assim como a dá-lo. Só podemos compreender a energia envolvente do amor na comunhão com os outros, nas relações, no serviço» (BRIAN, 2000:64).
O aproveitamento deste período para camuflar sentimentos mesquinhos, cínicos e impostores, trocando-os, hipocritamente, durante alguns dias, por aqueles que se deveriam sentir, manifestar e praticar, ao longo do ano inteiro, alegadamente para se “levar a vida”, constitui uma atitude inaceitável e mesmo reprovável, imprópria da superior dimensão de todo o ser humano.
O período natalício deverá compor-se por trezentos e sessenta e cinco dias e, na vivência de cada um deles, o Natal será sempre um dia diferente, renovado, melhorado e que conduza à interiorização e prática de sentimentos puros, do bem, que não se compram, não se negoceiam por qualquer forma, simplesmente se retribuem com a mesma nobreza, desde logo, com amor. Este fortíssimo e insubstituível sentimento, no pressuposto de verdadeiro, incondicional e diariamente reiterado, vencerá todas as barreiras e transportará a humanidade à vitória final: Saúde, Trabalho, Amizade, Paz e Felicidade.
Em cada Natal sempre se promete a reconciliação para, decorridos poucos dias, tudo voltar à mesma situação e poucas serão as pessoas que realmente mudam de atitudes. É certo que o ser humano é fraco, defeituoso e instável, todavia, também é verdade que a força espiritual da pessoa também vence barreiras.
Mas o Natal é, igualmente, um dia especial, principalmente quando  utilizado na reflexão profunda sobre o passado vivido, o presente fugaz e um futuro que se deseja de dignidade e consolidação dos valores mais nobres de toda a pessoa humana, bem formada: «O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza. Se ele interroga sua consciência sobre seus próprios atos, pergunta se não violou essa lei, se não praticou o mal, se fez todo o bem que podia (…) se fez aos outros tudo o que desejava que os outros fizessem por ele (…). Tem fé em Deus, em sua bondade, em sua justiça e em sua sabedoria (…). Tem fé no futuro; por isso coloca os bens espirituais acima dos bens temporais.» (KARDEC, 2010:332).
Assumir o Natal como o primeiro dia do resto da vida, é uma atitude inicial que a partir de agora deve preocupar toda a pessoa. Um primordial dia de solidariedade para com queles que são vítimas de alguma injustiça ou situação; um primeiro dia de amizade, desde já numa dimensão de verdadeiro e sincero “Amor-de-Amigo”, onde cada um dos amigos é parte integrante do outro amigo: nas alegrias como nas tristezas; no sucesso como no fracasso; afinal como duas almas gémeas que se amam; um primeiro dia para o início de uma lealdade sem limites, à prova de qualquer tentação de destruição ou de traição; um primeiro dia de manifestação de gratidão por tudo quanto nos tem sido oferecido, com sinceridade e amizade; um primeiro dia pra a reconciliação de pessoas em geral, dos amigos em particular.
Este tempo festivo, que secularmente se designa por “Quadra Natalícia” deverá ser aproveitado para se fazer um balanço de relacionamentos passados, analisar onde é que se cometeram erros e porquê, em que circunstâncias se praticaram injustiças, incorreções e ingratidões para com aquelas pessoas que sempre estiveram do nosso lado que, incondicionalmente, gostam de nós, nos apoiam em tudo o que lhes é possível, que connosco se solidarizam quando somos humilhados e injustiçados. Pessoas que são como um “Porto Seguro”.
Este é o tempo de fazermos justiça, de nos reconciliarmos com aqueles que, injustamente, maltratamos que, ostensivamente desprezamos que, mais ou menos sub-repticiamente, lhes mostramos e, contra eles praticamos a indiferença, mesmo sabendo e recebendo carinho, respeito, consideração e até um sincero “Amor-de-Amigo”. Este é o tempo de nos arrependermos, de pedirmos perdão àqueles que ofendemos e nos quais provocamos grandes sofrimentos e desgostos.
A dimensão sentimental da pessoa, verdadeiramente humana é, porventura, uma das suas maiores riquezas. O valor do sentimento nobre e puro, que engrandece e respeita, não só quem o possui, mas também quem o recebe, é o fundamento para quem, sinceramente se gosta. O sentimento da amizade é uma dimensão humana que, realmente, poderá ser difícil para quem vive num mundo de aparências, de fingimento, de falsidade, do faz-de-conta.
Os sentimentos verdadeiros, puros, incondicionais, certamente que provocam alegrias e tristezas, dor, sofrimento, desgostos, mas também muita felicidade quando vividos com solidariedade, com amizade, com lealdade, reciprocidade, estima, carinho e respeito, até porque: «A conexão entre duas pessoas só é plenamente exercida quando a intimidade é vivida pela expressão clara dos sentimentos (…). Como Jesus previu, é preciso pureza de coração para construir um relacionamento feliz.» (BAKER, 2001:130).
Esta caraterística inimitável e infalsificável que existe em todos os seres humanos, ou seja, os sentimentos, constitui o núcleo mais intenso que, de alguma forma, comanda a vida. Claro que os sentimentos envolvem, com maior ou menor intensidade, emoções, reações, conflitos e decisões. No sentimento do amor, inclusive ao nível do “Amor-de-Amigo”, ele será tanto mais genuíno, quanto é acompanhado por um outro que não sendo doentio, é a prova da pureza daquele.
Na verdade: «O ciúme é um sentimento inato com um papel importantíssimo na preservação das relações amorosas e do qual ninguém escapa. Mas o ciúme tem muitas formas e pode até ser um elemento de felicidade, na vida do casal.» (TORRALBA, 2010-orelha da contracapa)
Natal é tempo para tudo de bom que se deseja fazer. É tempo para refletir sobre o passado, tentar descobrir as razões porque correram mal certos projetos, porque se chegou a determinadas situações. É tempo para reparar, para reconstruir, para agradecer, para perdoar, para retomar um novo caminho, lutar por uma nova esperança, de contrário: «Quando nos apegamos às nossas opiniões com agressividade, por mais válida que seja a nossa causa, estamos pura e simplesmente a acrescentar mais agressividade ao planeta, e a violência e a dor aumentam. Cultivar a não-agressão é cultivar a paz.» (CHODRON, 1997:141)
Este é o tempo de se criar uma paz genuína entre as pessoas, famílias, vizinhos, comunidades, povos e nações. Hoje, mais do que nunca, face às inúmeras e, possivelmente prolongadas dificuldades, de natureza económica, política, social e axiológica, é indispensável assumir a paz como um desígnio universal, porque: «A verdadeira paz é sempre possível. No entanto requer força e prática, particularmente em tempo de grandes dificuldades. Para alguns a paz e a não-violência são sinónimos de passividade e de fraqueza. Na verdade, praticar a paz e a não-violência estão longe de ser uma atitude passiva. Praticar a paz, fazer a paz viver dentro de nós, é cultivar ativamente a compreensão, o amor e a compaixão, mesmo em situações de confusão e conflito.» (HANH, 2004:8).
Tempo de Natal e da família, no contexto da reunião à volta da mesa da Ceia da Consoada. Dia do nascimento de Jesus Cristo, segundo algumas doutrinas. Dia de alegria para umas pessoas, pelo convívio, pela reaproximação; mas também de tristeza e de saudade para aquelas que perderam ou estão longe dos seus entes queridos que tanto amam.
Dia para amigos desencontrados se compatibilizarem, se amarem como já se amaram no passado, num sincero e inigualável “Amor-de-Amigo”. Dia para se perdoar os erros e se mostrar solidariedade, amizade, lealdade, reciprocidade, confiança, estima, carinho, respeito e comunhão de valores, sentimentos e objetivos comuns. Dia para recuperar alguma felicidade perdida. Dia para fazer as pazes entre amigos que tanto se gostavam e que por influências ou medos se afastaram.
Neste dia de Natal, tão especial para esmagadora maioria das pessoas, a mensagem que se deseja transmitir, vai no sentido da renovação da esperança, em todas as suas dimensões. Esperança na solidariedade entre nações, povos, famílias e amigos. Esperança na (re) conquista e consolidação da amizade. Esperança nas boas-práticas dos valores da solidariedade, da amizade, da lealdade, da humildade, da gratidão, da cumplicidade e da reciprocidade. Esperança na melhoria das condições de vida para todas as pessoas, onde o trabalho digno, reconhecido, valorizado e estável, garanta um futuro de qualidade. Esperança num mundo de paz, no qual a felicidade seja o denominador comum a todas as pessoas, famílias, povos e nações. Esperança na consolidação da dignidade devida a toda a pessoa humana. Esperança numa nova Esperança de vida; finalmente, Esperança na proteção Divina, para que Deus nunca deixe de amparar a humanidade. Estes são os desejos, totalmente sinceros, do autor desta breve reflexão, que os propaga a todas as pessoas, sem exceções. Feliz Natal. Bom Ano Novo.

Bibliografia

BAKER, Mark W., (2005). Jesus o Maior Psicólogo que já Existiu.Trad. Cláudia Gerpe Duarte. Rio de Janeiro: Sextante.
BRIAN L. Weiss, M.D. (2000). A Divina Sabedoria dos Mestres. Um Guia para a Felicidade, alegria e Paz Interior. Trad. António Reca de Sousa. Cascais: Pergaminho.
CHODRON, Pema, (2007). Quando Tudo se Desfaz. Palavras de coragem para tempos difíceis. Trad. Maria Augusta Júdice. Porto: ASA editores.
HANH, Thich Nhat, (2004). Criar a Verdadeira Paz. Cascais : Pergaminho
KARDEC, Allan, (2010). O Evangelho Segundo o Espiritismo: contendo a explicação das máximas morais do Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação nas diversas situações da vida. Trad. de Albertina Escudeiro Sêco. 4ª Edição. Algés/Portugal: Verdade e Luz – Editora e Distribuidora Espírita.
TORRABLDA, Francesc, (2010). A Arte de Saber Escutar. Trad. António Manuel Venda. Lisboa: Guerra e Paz, Editores S.A., in, MARAZZSITI, Donatella. “E Viveram felizes e Ciumentos para Sempre”) 
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
 
Portugal: www.caminha2000.com (Link Cidadania)