domingo, 26 de novembro de 2017

Filosofia Social do Interventor

Refletir e assumir uma praxis perante a sociedade, face a circunstâncias, factos, acontecimentos e situações do âmbito social, constitui uma boa base de formação, para toda a pessoa que pretende intervir com o objetivo de solucionar um problema, que afeta uma outra pessoa, família ou grupo.
Estabelecer os limites, dentro dos quais se concetualiza uma situação social é, objetivamente, impossível, na medida em que, por uma cultura social, quase tudo o que acontece na sociedade, e interfere com as vidas individuais e/ou grupais, pode ser interpretado como uma situação do foro social, considerando aqui a qualificação social como uma carência que urge satisfazer pelas pessoas e/ou pelos Serviços e técnicos competentes do Estado e Instituições Não-Governamentais, vocacionadas para as situações classificadas de sociais.
A pessoa humana dispõe, atualmente, de muitas oportunidades e tem em si imensas capacidades para se realizar, justamente, como pessoa digna e portadora de valores, desde logo, valores sociais. Ao realizar-se numa, ou em diversas das suas dimensões: política, profissional, religiosa, cultural, social, axiológica e outras, certamente que alcança uma bem determinada felicidade; e quando se envolve na participação da resolução de problemas, que afetam as pessoas e grupos mais fracos ou temporariamente fragilizados, seguramente que a bem-aventurança é vivenciada com mais intensidade e objetividade.
Com efeito: «O homem encontra sua felicidade na vida ao consagrar-se a um desígnio comum. Devemos convidar outros a entrar nesse desígnio, mas impõe-se a maior cautela para que este convite não se converta no exercício de um poder inumano.» (KWANT, 1969:209): ([1])
A comunicação e o relacionamento interpessoal, que, cada vez mais, se tem vindo a tentar intensificar no seio das famílias, grupos, comunidades e sociedades alargadas, é uma imposição que de forma quase impercetível envolve as pessoas, ainda que estas, em certas circunstâncias, pareçam demonstrar o contrário, precisamente, pelo facto de que é impossível ao ser humano viver isoladamente.
Todo o conjunto de relações nas sociedades modernas, sempre comporta, com maior ou menor envolvimento, determinados aspetos, pormenores, indícios sociais. Neste sentido a: «Nossa existência é social porque podemos realizar nossas possibilidades só dentro do contexto e através da ajuda do nosso existir junto com outros e também porque não é possível fazer justiça a qualquer classe de valores fora da nossa coexistência com outros. Nossa existência é social porque todos nós vivemos de uma herança comum que impregna tudo o que somos. Ainda nos nossos feitos mais pessoais estamos sustentados por essa herança comum.» (Ibid. 177) ([2])
A condição social do homem implica reflexões metódicas, rigorosas, como se de uma outra qualquer ciência se tratasse. Lidar com o fenómeno social, em sociedades cada vez mais heterogéneas, equivale ao domínio do conhecimento e práticas de natureza científica, principalmente para o técnico e/ou especialista do Serviço Social, desejavelmente complementados com outras faculdades inatas ao nível da sensibilidade, perceção e acutilância para as situações de verdadeiras incongruências sociais, detetadas nos casos de necessidade material, mas que o carenciado não tem qualquer iniciativa, pese embora o facto de possuir condições físicas, intelectuais e profissionais para melhorar, por si próprio e como seria seu desejo, as condições de vida dele mesmo e, quantas vezes daqueles que estão na sua dependência.
São situações desta natureza que os diversos sistemas sociais devem enquadrar de forma justa e, quando e se necessário, sancionatória. Nesse sentido é perfeitamente compreensível o envolvimento do Filósofo Social, através das técnicas e teorias que a Filosofia Social naturalmente proporciona: «A Filosofia Social (tal como a sua disciplina, a História do Pensamento Social) ocupa-se das várias concepções sobre a natureza dos sistemas sociais ou sociedades desejáveis e, por vezes, formula suas próprias propostas sobre o que constitui uma sociedade boa ou desejável. A avaliação do valor, bem como de outras características, das ideologias políticas é uma preocupação usual dos filósofos sociais.» (Ibid:209).
A conceção de ciência como atividade que pressupõe um método e um objeto de estudo, permitindo alcançar resultados rigorosos, objetivos, previsíveis, reversíveis, implicando toda uma metodologia e técnicas científicas, também se aplica à sociedade humana, porém, as dificuldades aqui são bem maiores e, eventualmente, os resultados não serão tão exatos.
O objeto de estudo das Ciências Sociais e Humanas envolve dimensões do próprio ser humano, que comportam variáveis, imprevisibilidades e situações que não são quantificáveis com a mesma objetividade e rigor das alegadas Ciências Exatas.
O técnico de intervenção social tem a sua vida profissional extremamente complicada, como igualmente difícil é a tarefa do investigador social: «(…) o homem sempre foi um descontente e um inquieto; sempre se sentiu em conflito, dividido contra si mesmo e as crenças e as práticas às quais, em todas as sociedades e em todas as civilizações, ele dava mais importância, tinham e têm ainda por objectivo, não suprimir estas divisões inevitáveis, mas atenuar as suas consequências e dar-lhes sentido e uma finalidade, torná-las mais facilmente suportáveis, ou pelo menos reconfortá-lo.» (DURKHEIM, 1970:295).

Bibliografia

KWANT, Remy C., (1969). Filosofía Social. Buenos Aires – México: Ediciones Carlos Lohlé.
DURKHEIM, Emile, (1970).  “A Ciência Social e a Acção”, Trad. Inês Duarte Ferreira, São Paulo: DIFEL – Difusão Editorial.


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


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[1] «El hombre encuentra su felicidad en la vida al consagrarse a un desígnio común. Debemos invitar a otros a entrar en ese designio, pero se impone la mayor cautela para que esa invitación no se convierta en el ejercício de un poder inhumano.»

[2] «Nuestra existência es social porque podemos realizar nuestras posibilidades solo dentro del contexto y también porque no es posible hacer justicia a cualquier classe de valores fuera de nuestra coexistência com otros. Nuestra existencia es social porque todos nosotros vivimos de una herencia común que impregna todo lo que somos. Aun em nuestros hechos más personales estamos sostenidos por esa herencia común.»

domingo, 19 de novembro de 2017

Preparação Axiológica do Interventor Social

A atividade social, globalmente considerada, a partir da preparação e intervenção individual, fora do âmbito dos técnico-especialistas, pressupõe, também, neste contexto, a posse de alguns requisitos inatos e adquiridos, para que a intervenção resulte profícua e solucionadora, dos problemas que lhe estão na origem.
Naturalmente que, mais tarde ou mais cedo, preferencialmente quanto mais cedo melhor, a intervenção do especialista, com suporte técnico-legal, será imprescindível. Entretanto, cada cidadão pode (e deve) preparar-se para acudir àquelas situações que, numa primeira intervenção, são localizadas, controladas e apoiadas empiricamente. Evidentemente que esta preparação sumária se consegue no seio da família, suficientemente estruturada, organizada e consciente de seus deveres.
Resulta daqui reconhecer-se a maior importância, e o papel fundamental, que a família pode exercer na preparação dos seus membros, para boas intervenções sociais, desde já, em relação a outros elementos da família mais extensa, como na pequena comunidade de vizinhos, em que ela está integrada.
A recuperação, com as devidas adaptações, da família tradicional, poderia ser uma via para a interiorização do dever social que a cada indivíduo compete, face ao seu semelhante, porque se tem como cientificamente adquirido que: «Nas sociedades tradicionalistas e estáveis, a família se revela, sempre, instituição forte, de grande influência no todo social, a ponto de haver quem sustente que a sociedade não é resultante do agrupamento de pessoas, mas sim de famílias, tão unas e semelhantes a individualidades se apresentam estas, frente ao conjunto social.» (ROSA, 1972:87).
Indiscutivelmente que faltará provar que o indivíduo, nascido e criado no seio de uma tal família tradicional se garanta, por esse facto, como podendo vir a ser um bom técnico de Serviço Social; a inversa é, igualmente, suscetível de idêntica dúvida, porque se sabe que, atualmente, a família, entendida no seu conceito clássico, estará a atravessar dificuldades.
Assim: «Já na moderna civilização, em que se observa a presença de uma sociedade extremamente dinâmica, operou-se um enfraquecimento dos laços de coesão do grupo familiar, submetido a numerosas tensões oriundas de causas internas e externas, diante da fragmentação de interesses e a expansão do individualismo e em face das inevitáveis influências sócio-económicas do mundo actual.» (Ibid.:87).
Na coerência do raciocínio, igualmente se pode afirmar que um indivíduo nascido e criado no seio de uma tal família moderna, não possa vir a ser um excelente especialista no domínio social. Inofensivamente pode extrair-se a ilação, segundo a qual, independentemente das origens de cada indivíduo, a formação social é fundamental para, em contexto profissional, ou no âmbito dos deveres de cidadania, se exercer responsável e eficazmente uma intervenção social eficiente, casuística ou filantrópico-altruísta.
O homem, na sua liberdade plena, determina-se por princípios e valores, prévia e conscientemente selecionados e assumidos, ainda que, num espírito de integração harmoniosa e inteligente, condicionados por uma cultura, tradições, religião e todo um edifício jurídico-político.
O valor Liberdade, no âmbito de uma Filosofia Humanista-Personalista, implica a observância rigorosa do dever, da responsabilidade, daquele e desta sobressaindo a intervenção social, que constitui uma prerrogativa especial e nobilíssima, quando exercida com sentido de justiça e respeito pela pessoa carenciada de apoio social, seja qual for a natureza daquela e o tipo deste.
É o mínimo que se exige a esta mulher e este homem cultos, da sociedade civilizada e moderna, seguindo, e aceitando, a linha do pensamento, segundo o qual: «A consciência do dever e o sentido de responsabilidade patenteiam a existência de capacidade pessoal de ser origem de um sucesso. Porque a pessoa tem iniciativa e é autora de suas acções, tem que enfrentar as consequências da sua actuação e responder pelo realizado. Por esta via – a da acção – se introduz a medida do bem e do justo. O acto livre recebe o seu sentido plenário, não pela simples actuação, senão pela recta actuação.» (VALLE, 1975:151).
Um espírito construído a partir de uma Filosofia de Valores, objetivamente direcionados para o Serviço Social, facilitará a formação intelectual, axiológica, profissional e prática do técnico interventor na comunidade que, apoiado nos diversos instrumentos de recolha, análise e avaliação de dados, poderá produzir um trabalho rigoroso e justo.
Não basta interpretar e aplicar, literalmente, o preceito jurídico-legal em vigor, se não houver um certo doseamento de uma sensibilidade, assente em valores sociais, para apreciar uma determinada situação; será insuficiente o conhecimento de muitas e belas construções teóricas se na prática elas são inexequíveis, face aos valores que devem ser observados no respeito devido à dignidade da pessoa humana, em todas as suas dimensões: social, cultural, política, religiosa, antropológica, axiológica e outras.
Aliás, uma bem elaborada e interiorizada axiologia social, dinamizada por princípios sinceros de “querer-ajudar” o outro, pode facilitar a tarefa de todos aqueles que, a título profissional ou voluntário, intervêm na sociedade: «Aquele que nega todos os valores, nada mais vendo neles do que ilusão, não poderá deixar de falhar na vida. Aquele que tiver uma errada concepção dos valores, não conseguirá também imprimir à vida o seu verdadeiro e justo sentido. Também esse fatalmente falhará na vida, a não ser que o destino benévolo o preserve de todas as más situações que venha a criar. Pelo contrário, todo aquele que conhecer os verdadeiros valores e, acima de todos, os do bem, e que possuir uma clara consciência valorativa, não só realizará o sentido da vida em geral, como saberá ainda achar sempre a melhor decisão a tomar em todas as suas situações concretas.» (MONCADA 1946:20-21).
É óbvio que em qualquer atividade, profissão, ocupação ou intervenção, é indispensável dominar-se, razoavelmente, os respetivos conhecimentos, técnicas, recursos e instrumentos de recolha e tratamento de dados e avaliação de resultados.
Igualmente evidente é que ao realizar-se uma determinada tarefa, com entusiasmo, empenhamento e até alguma paixão, os objetivos alcançam-se, naturalmente, pela positiva e, tratando-se de resolver situações concretas, que afetam a vida das pessoas, então estas características são muito importantes.
Trabalhar para as pessoas que, por qualquer motivo, estão envolvidas em situações socialmente anormais, é diferente de trabalhar para a construção de uma ponte, de um qualquer equipamento, porque para estes requerem-se conhecimentos, técnicas, materiais, investigação, atualização; para aquelas, exige-se tudo aquilo, mais uma formação no domínio de uma Antropologia dos Valores, na circunstância, Valores Sociais.
Fomentar uma cultura dos valores é, entre outros, um importante desígnio universal. A Intervenção Social e Comunitária deve revestir-se, também, de atos culturais no seu sentido social, despojados de quaisquer indícios elitistas, intelectualistas e exibicionistas, revestidos, isso sim, da simplicidade adequada e generosidade bastante que a pessoa humana merece: «Todo o acto cultural consiste na realização de um valor. Pode tratar-se de um valor de ordem científica, ética, estética ou religiosa (incluindo na ordem ética o domínio social e jurídico).» (Ibid. 245).

Bibliografia

ROSA, Filipe A. de Miranda, (1972). Patologia Social, uma Introdução ao Estudo da Desorganização Social, 4ª Ed., Rio de Janeiro: Zahar Editores.
VALLE, Agustin Basave F. del, (1975). Filosofia do Homem (Fundamentos de Antroposofia Metafísica), Trad. Hugo de Primio Paz, apresentação de Adolpho Crippa, São Paulo: Editora Convívio.
MONCADA, Luis Cabral de, (1946). (Título Desconhecido) Coimbra: Coimbra Editora.


Venade/Caminha/Portugal, 2017

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Jornal: “Terra e Mar”

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domingo, 12 de novembro de 2017

Serviço Social: Uma Arte Altruísta

No conjunto dos mais de cento e noventa países independentes, certamente que a diversidade de regimes sociais atinge um leque bastante alargado, que pode incluir sistemas essencialmente públicos, privados e mistos, além de subsistemas criados e geridos por determinados grupos profissionais, económicos e liberais.
E se no passado, a instituição de um serviço social tinha por objetivo ajudar os pobres, grande parte dos quais não beneficiava de qualquer apoio na educação, na saúde, no emprego, na família ou na velhice, hoje, a cobertura social, em igualdade de condições, mesmo nos países, economicamente, mais desenvolvidos, não se verifica e, pior do que esta realidade é o facto de uns terem privilégios à custa da contribuição de todos, que uma maioria ainda não possui, embora contribua com impostos e descontos diversos, que efetua para o Estado, quantas vezes com sacrifícios diversos, para a alimentação, para a saúde e para a educação do agregado familiar, precisamente para que os primeiros beneficiem de regalias autenticamente luxuosas e ofensivas para aqueles que, trabalhando e descontando uma vida inteira, no final, pouco mais têm do que nada.
E se inicialmente, há cerca de dois milénios, o Serviço Social, então entendido: «Como assistência aos pobres, aos velhos, aos abandonados, era uma responsabilidade da família, do clã ou do grupo» (VIEIRA, 1980:26), de então aos dias de hoje uma profunda evolução se verificou, no sentido positivo, numa grande parte de países, ditos civilizados, e socialmente avançados, todavia, muitos outros existem onde as desigualdades no acesso aos cuidados e assistência sociais, são uma lamentável realidade.
Até ao século XIX, três grandes instituições assumem o protagonismo na implementação de um Serviço Social mais abrangente, relativamente aos pobres, então existentes: a Família, a Igreja e o Estado. Posteriormente vieram juntar-se organizações internacionais, encabeçadas pela própria ONU – Organização das Nações Unidas, através das suas Agências especializadas: para a educação, para a alimentação, para a saúde, para o trabalho, para os refugiados e tantas outras instituições, daquela dependentes, que trabalham com discrição e eficácia.
A diversidade e abrangência dos problemas no mundo atual, e à escala mundial, não se compadecem com formas de assistência social de natureza caritativa, pelo contrário, exigem intervenções técnicas, com a implementação de soluções duradoiras e eficazes.
O técnico de Serviço Social deve possuir uma formação superior qualificada, em simultâneo com uma formação pessoal, caracterizada por bons sentimentos e por uma experiência de vida que facilite, não só a compreensão, como também a intervenção na sociedade em geral e nos casos concretos individuais.
A atividade do Serviço Social postula a existência de técnicas, instrumentos, recursos e boas-práticas, disponíveis para, em cada momento e perante as diferentes situações, intervirem com eficácia e com respeito pela dignidade que é devida a toda a pessoa humana, com atenção reforçada, justamente, para as situações sociais que degradam a condição da pessoa humana.
Na verdade «(…) a finalidade do serviço Social consistiu sempre em prestar ajuda aos que dela necessitam; os objectivos passaram de um reajuste à vida normal para a capacitação do cliente para enfrentar e solucionar seus problemas e para um funcionamento social adequado; a qualidade da ajuda transformou-se de uma ajuda empírica e imediatista para a aplicação de valores, conceitos e conhecimentos, a fim de orientar o agir profissional; a finalidade geral do agir social engloba a promoção de mudanças nas estruturas, funcionamento das instituições sociais e promoção de uma política de desenvolvimento a fim de oferecer maiores oportunidades de desenvolvimento às populações» (Ibid.:100).
A intervenção social e comunitária constitui, atualmente, uma atividade que, para além de riscos diversos que os respetivos técnicos enfrentam, quando em contacto com grupos complexos, sob diferentes perspectivas, comporta, também, uma qualificação extremamente exigente e ainda uma apreciação muito positiva, quando exercida com nobreza de caráter e competência na ação.
O técnico meramente legalista, no sentido da interpretação e aplicação literal da Lei, não será, eventualmente, em muitas situações, o mais competente, se não souber identificar, avaliar e contextualizar as causas de uma dada situação social anómala, como igualmente se tornará ineficaz se desconhecer os instrumentos jurídicos, as estratégias, os recursos e os processos de avaliação, quando decorre a aplicação de uma solução para aquela referida situação anormal. Sempre será necessária uma postura humanista, por vezes, de compaixão. Afinal, são os milhares de casos degradantes que, infelizmente, até justificam muitos empregos.
A análise, avaliação e determinação das medidas para resolver uma concreta situação social nunca deverão ser efetuadas por um único técnico, e até poderá ser desaconselhável qualquer apreciação por um assistente social recém-formado, sem qualquer experiência nestes domínios.
O adequado situar-se-á, sempre, na constituição de equipas formadas por jovens recém-licenciados, portadores de novos conhecimentos, teorias inovadoras e voluntariosa generosidade, com técnicos experientes, portadores de práticas diversas, testadas e comprovadas pelos resultados científicos, sejam eles positivos e/ou negativos.
A natureza sociável do homem implica, necessariamente, relações, situações, intervenções e decisões sociais. A atividade social, na perspectiva de acudir aos pobres, é hoje apenas uma valência de toda a intervenção social e comunitária.
Os problemas que afetam a humanidade podem ser analisados sob diversas vertentes: económica, política, cultural, religiosa, social, cabendo, nesta última, aspetos diversos, de qualquer uma das restantes, justamente porque o homem é um ser social, está organizado em sociedade, mais ou menos estratificada, com mais ou menos classes sociais, com mais ou menos grupos distintos entre si, logo, qualquer situação considerada anormal, face ao conjunto de valores para uma dada sociedade, rapidamente se converte numa questão social, que será analisada, contextualizada e resolvida pelo domínio especializado da questão em apreço.
Uma situação de desemprego é, certamente, uma questão social que poderá ser resolvida pela intervenção nos domínios de: formação profissional; apoios diversos às empresas que admitam desempregados ao seu serviço, agora e entretanto, dotados de melhor formação profissional; manutenção de um sistema de formação ao longo da vida; incentivos aos empregadores enquanto as respetivas empresas funcionarem; num permanente, apertado e rigoroso controlo das partes envolvidas, por entidades isentas e especializadas. Pode entrar aqui, nesta fase do processo, o técnico de Serviço Social, especializado nesta área de funcionamento das comunidades e das instituições.
O serviço de intervenção social e comunitário não pode ser entendido e utilizado apenas para resolver situações anómalas, bem pelo contrário, haverá toda uma atividade a montante, como: prever, prevenir, proteger, evitar, refazer, antecipar por alteração as previsíveis situações que, a concretizarem-se, apontariam para determinadas consequências.
Em divergência com uma certa mentalidade técnico-positivista, o especialista do Serviço Social, no emaranhado e complexidade de situações sociais, é cada vez mais necessário e importante, como outros profissionais das diversas áreas e atividades humanas – um indivíduo pode morrer porque não teve a assistência médica adequada, desde logo, do médico especialista e dos meios necessários à sua cura; mas um outro indivíduo pode, igualmente, morrer porque não lhe foi dada a melhor orientação para a sua integração e/ou reintegração na sociedade, e ter caído no mundo da marginalidade, com a respetiva autodestruição físico-intelectual –.
Pode-se, então, afirmar que: «(…) a finalidade do Serviço Social: alcançar uma vida normal, assistir, curar, prevenir, construir, auxiliar, educar, reeducar e organizar; resolver problemas e aproveitar recursos. A operacionalidade do Serviço Social é um conjunto de esforços ou de trabalhos. Os assistentes sociais percebem que não basta observar para remediar, mas é preciso saber observar para deduzir as causas e saber ajudar.» (Ibid.: 1980:93)

Bibliografia


VIEIRA, Balbina Ottoni, (1980). História do Serviço Social. Contribuição para a construção da sua teoria. 3ª Edição, Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Jornal: “Terra e Mar”

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domingo, 5 de novembro de 2017

Comunidade Social

Os factos sociais constituem uma realidade que vem sendo estudada cientificamente, desde um passado tão longínquo, quanto a ciência e a técnica o têm permitido, porque da história do homem se destacam acontecimentos sociais que integram uma dimensão humana, única na sua organização e desenvolvimento, que é a sociabilidade.
Conhecem-se várias organizações sociais entre as diversas espécies animais, porém, nenhuma com as características da sociedade humana. Ao longo dos séculos a humanidade tem procurado construir teorias, paradigmas, implementar práticas sociais, socializar os seus membros, visando uniformizar comportamentos, adequar posições, melhorar condutas, a partir de regras jurídicas, religiosas, sociais, associativas, policiais e tantas outras que constituem o corpo jurídico-social de um povo.
Sendo a pessoa humana um ser social, ela não consegue viver à margem da sociedade, em condições de poder desfrutar de uma vida compatível com a sua dignidade de pessoa e, quando em situações de marginalidade e/ou exclusão social, a sua existência assume proporções e características inumanas, em certos aspetos, sem a mínima qualidade de vida, com um nível inferior ao de muitos animais selvagens, e até que um acontecimento mais violento o elimine desse mundo de exclusão, por via da sua morte, é preciso conceder-lhe uma nova oportunidade, que o retire daquelas situações, e o integre, novamente, na sociedade organizada a que inicialmente ela pertencia e, apesar de tudo, continua a fazer parte.
Qualquer que seja a atividade do indivíduo, ela sempre vai contribuir, com maior ou menor incidência e impacto, na vida social do próprio e da coletividade da qual é parte integrante, eventualmente, e desde já, na família.
Importará refletir na perspectiva social, esta entendida como a participação de cada um no todo sociável, a partir das próprias especificidades, capacidades, habilidades e empenhamento do indivíduo e sua inserção no grupo de que faz parte, e deste com outros grupos até se estender à sociedade humana, universalmente considerada, nela se incluindo etnias, credos, religiões, ideologias, culturas, valores e filosofias de vida.
A espécie humana é só uma. O mundo em que habita não foi dado em exclusivo a esta ou àquela etnia, logo existe o dever de solidariedade social daqueles que se fixaram em áreas territoriais mais ricas, para com os que não tiveram a mesma sorte.
Valorizar a atividade social que visa proporcionar melhores condições de vida às populações mais desfavorecidas, mais fragilizadas e mais carenciadas, será um objetivo nobre, e da maior relevância de todo o indivíduo, isoladamente considerado e, principalmente dos grupos com poderes e meios para direcionarem suas intervenções, em favor dos mais vulneráveis.
Com tal intencionalidade, devem, desde já, os poderes públicos e privados, legitimamente constituídos e reconhecidos, desenvolver os programas adequados, acionar os recursos suficientes, para que a dimensão social da pessoa humana possa entrar em ação, produzindo, de imediato, as situações mínimas, dignas de uma verdadeira solidariedade e bem-estar sociais.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Jornal: “Terra e Mar”

domingo, 29 de outubro de 2017

Percurso Normal da Pessoa Humana

Do nascimento à morte, a vida do ser humano desenvolve-se em função de ciclos biológico-mentais, relativamente bem estudados, ao nível das diversas ciências que se ocupam das várias parcelas, e especialidades da realidade humana.
Na verdade, enquanto crianças, ocorrem determinadas situações que implicam correções, compatíveis com uma determinada cultura e respetiva socialização, para que se adquiram os hábitos e pratiquem as ações adequadas, através dos procedimentos que se vão interiorizando, com forte incidência na construção da personalidade, no sentido de melhor adequação às regras, deveres e direitos, em vigor na sociedade.
É fundamental, para o futuro da criança, que desde bem cedo, ela possa adquirir uma personalidade equilibrada, embora em permanente, dinâmica e por vezes dramática construção, para que o seu crescimento, e enquadramento na sociedade se processem sem grandes conflitos: «A personalidade está indubitavelmente relacionada com o desenrolar e o desfecho das nossas vidas. Com a escolha da nossa carreira, dos nossos relacionamentos e com a forma como nos sentimos em relação a nós próprios e aos outros (…)» (LIMA e ALBUQUERQUE, 2006:246).
E, continuando: «Assim, se por exemplo, na adolescência a identificação deixa de estar primariamente centrada nas introjecções parentais para se abrir a padrões culturais e ideológicos mais alargados, na meia-idade os investimentos generativos e a participação activa na cultura são cada vez maiores. Na última fase da nossa vida, os idosos mais integrados e sábios identificam-se com os padrões duradouros que definem a nossa humanidade.» (Ibid.)
Implementado todo o processo de socialização da pessoa humana, o período correspondente à primeira fase de preparação para a vida adulta, ativa e produtiva, prolongar-se-á até ao fim do primeiro terço de vida, ou seja, por volta dos vinte e cinco a trinta anos, considerando-se concluída a formação superior, especializada num determinado domínio do conhecimento técnico-científico.
O jovem terá adquirido, precisamente, à custa do contributo financeiro dos mais velhos, na maioria das situações, uma formação para poder participar na construção de uma sociedade mais justa, solidária e rica, mas também, na sua própria autonomia económico-social, profissional e progressão do seu bem-estar.
Seria correto, e da mais elementar justiça, que o indivíduo, assim formado para a vida e para a sua própria independência, se colocasse ao serviço da comunidade em geral, daqueles que contribuíram para a sua preparação técnica superior, por um determinado período de tempo, num regime de voluntariado, do tipo de serviços prestados à comunidade, em vez de, em muitas situações, iniciar, de imediato, a exploração daqueles a quem em parte deve a sua formação, ou então, com outras perspectivas, abandonar o país que lhe deu a formação e fixar-se no estrangeiro, preparado para a vida, embora à custa do sacrifício dos contribuintes seus concidadãos.
Infelizmente, o que se tem vindo a verificar (2013-2014-2015) é que os nossos jovens, mais qualificados, foram mesmo obrigados a emigrar, inclusive, incentivados por altos responsáveis governamentais, a levar o melhor que possuíam: juventude, generosidade, dinamismo, conhecimentos e elevados níveis intelectuais, que vão colocar ao serviço de outros povos. Trata-se, sem dúvida alguma, de uma deficiente gestão dos nossos melhores recursos humanos, ainda que tal situação possa ser “prestigiante” para Portugal.
Igualmente, e a exemplo do que é investido na educação e formação dos jovens e adultos, também se poderia canalizar verbas suficientes, justamente, para assegurar uma velhice condigna àqueles que trabalharam e descontaram durante décadas das suas vidas, tantas vezes com imensas dificuldades e privações de vária ordem; ora, se a política social não for, igualmente, neste último sentido, os jovens de hoje, recém-formados, têm um dever moral, ético e de solidariedade para com os mais idosos.
Desenvolvida toda uma carreira profissional, seja qual for a atividade e/ou profissão, durante um período obrigatório, e relativamente longo, cerca de metade da vida, que de acordo com as novas perspectivas de longevidade, poderá corresponder a um tempo produtivo, e de comparticipação fiscal-social, eventualmente superior a quarenta anos, segue-se uma nova fase, denominada de reforma/aposentação, e ao consequente afastamento da atividade profissional que exerceu durante aquela longa época.
A pessoa humana, assim desligada, abruptamente, de todo um conjunto de tarefas, rotinas, responsabilidades, poder, estatuto socioprofissional e de intervenção na sociedade, corre sérios riscos de invalidez permanente e/ou morte prematura que, naturalmente, provoca sofrimento e/ou o luto, respetivamente, com eventuais consequências nocivas para todos aqueles que, de alguma forma, dependiam do recém-reformado.
Nem valerá a pena invocar, até por uma questão de alegado preconceito economicista, os encargos que uma pessoa inválida acarreta para ela própria, para a família e para a sociedade, esta e nesta circunstância, representada pelo Estado, através dos respetivos departamentos competentes.
A política correta será o inverso, isto é, manter as pessoas ativas, dando-lhes condições de ocupação condigna, poder de compra para continuarem a ajudar os familiares, a consumirem os artigos produzidos pelas nossas empresas. A questão é, portanto, mais profunda e humana, e assim deve ser analisada e solucionada. Ao recém-aposentado devem ser-lhe dadas novas e específicas oportunidades para se manter ativo, produtivo e contribuinte.
Ele continua a ser uma pessoa de deveres e direitos, com dignidade, jamais um simples número que integra uma qualquer estatística relacionada com a população idosa, inativa e dispendiosa, como muitos responsáveis insinuam pelas práticas que assumem, pelas leis que elaboram, pela marginalização a que remetem centenas de milhares de idosos, só em Portugal, cerca de dois milhões.
O que tem vindo a acontecer em Portugal é algo de inimaginável. Retirar direitos adquiridos, para os quais se contribuiu uma vida inteira, precisamente quando tais direitos são mais necessários para a manutenção da saúde, da alimentação razoável, do conforto habitacional, do lazer apropriado e da dignidade humana, revela bem até onde vai a insensibilidade social, e humanitária, de alguns governantes  que, eleitos de boa-fé pelos seus concidadãos, a partir de projetos eleitorais, depois não cumpridos, se sentem traídos, humilhados e como que atirados para o “lixo da exclusão social etária”. Haja humildade, bom-senso e respeito pelos mais velhos.

Bibliografia

LIMA, Margarida Pedroso e ALBUQUERQUE, Isabel. (2006). “Personalidade na Idade Adulta: O Contributo dos Projectos Pessoais”, in: Psicologia, Educação e Cultura. Carvalhos: Colégio Internato dos Carvalhos. Vol. X (2). Dezembro. Pp. 245-266


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo



domingo, 22 de outubro de 2017

Professores: São Necessários?

O mundo está consciente de que a humanidade se aproxima de uma encruzilhada complexa: em cujo ponto central se interceptam, cruzam e partem cada vez mais caminhos; desconhecendo-se, em muitos deles, a natureza e objetivos a que conduzem; ignora-se o fim, embora se conheça o princípio; são como que uma caminhada sem destino concreto.
E nos domínios da metafísica e da espiritualidade, onde imperam a crença, a fé e o misterioso, como aceitar estes conhecimentos e como transmiti-los? Serão as máquinas inventadas pelo homem competentes para o fazer? Como atitude intelectualmente honesta, e metódica, pode-se dar o benefício da dúvida, e aceitar que constituem mais um bom recurso, a utilizar no ensino à distância, este sim, cada vez mais interessante, e que oferece imensas vantagens.
Educar e formar pessoas humanas implica: conhecimentos, técnicas e avaliações diferentes das que se utilizam na construção de objetos, sejam edifícios, pontes, estradas, máquinas ou simples peças de vestuário, calçado e outras inúmeras coisas materiais. Preparar para a vida individual de cada pessoa, em sociedade humana, não é o mesmo que programar uma máquina.
A pessoa humana comporta, e transporta, princípios, valores, sentimentos emoções e atitudes que possibilitam: o melhor ou pior relacionamento interpessoal; que promove, havendo para isso vontade, a harmonia, a compreensão, a tolerância e a resolução de problemas sócio-culturais, pessoais e do grupo; que enriquecem as dimensões verdadeiramente humanas, como a ética, a religião, a política, a social e a interrelacional, entre outras.
A humanidade entrou no século XXI, envolvida numa eufórica confiança, quase ilimitada, nas capacidades e benefícios da tecnologia e de um bem divulgado cientismo positivista que, alegadamente, tudo resolve, muito embora já se saiba que nem todos os problemas, pelo menos por enquanto, estão acessíveis à ciência.
A auréola técnico-científico-materialista, em que alguns setores da sociedade procuram envolver-se, tem conduzido a situações deprimentes e humilhantes, precisamente para alguns dos povos em todo o mundo, desmistificando, assim, a ideia, segundo a qual, uma educação/formação que integre os domínios sócio-culturais, não tem relevância para o progresso e bem-estar humanos.
A educação/formação do homem contemporâneo, numa perspetiva de futuro, no sentido de se aperfeiçoar e consolidar uma sociedade moderna, justa, tolerante, solidária e produtiva, pressupõe investigação, conhecimento e prática, eventualmente inverificados ou inconfirmados pelos critérios científicos e tecnológicos, mas não menos credíveis, realistas e úteis na vida corrente de cada pessoa.
 A fórmula mágica, qual receita milagrosa, para educar/formar pessoas humanas, a ciência e a técnica ainda não a revelaram inequivocamente, o que não impede de se tentar outras abordagens, e transmitir algumas práticas e valores: quer pela comunicação tradicional; quer pelas boas-práticas de quem pode e deve ministrar tais matérias, inegavelmente, os professores/formadores, encarregados de educação e Igrejas, numa primeira fase da vida da criança, do adolescente e do jovem. Posteriormente, também, ao adulto.
 Educar, ensinar, formar, instruir, preparar para a vida e até para a morte biológica, constituem ações interdependentes, que integram um projeto grandioso, a aplicar numa sociedade humana cada vez mais globalizada, para determinados fins, com uns atores bem escolhidos e, também, outros cada vez mais excluídos, em certas faixas sociais e etárias, do acesso aos bens e valores essenciais, à dignidade da condição da pessoa humana.
Será, contudo, muito difícil, se não mesmo inexequível, eliminar a nobre função do professor, formador, docente, tutor, conselheiro, companheiro e cúmplice pedagógico, do sistema educativo, quaisquer que sejam as suas modalidades: direta, presencial, emocional, afetiva e espiritual ou à distância, com as vantagens práticas de todo o potencial da tecnologia, ao serviço da educação/formação.


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


Portugal: http://www.caminha2000.com (Link’s Cidadania e Tribuna)

domingo, 15 de outubro de 2017

Professor-Paradigma: Sua Formação

       
Demonstrada que está a insubstituabilidade do professor/formador, na sociedade contemporânea, é preciso reconhecer o seu papel na construção de um mundo de Conhecimentos, Cultura, Paz e Felicidade. Nesta fase da vida da humanidade, em que os países se organizam nas mais dignas e distintas instituições, encimadas pela mãe de todas elas – ONU – Organização das Nações Unidas –, onde se congregam todas as nações, supostamente unidas por ideais comuns, um mundo cada vez mais estruturado em grupos internacionais, para várias finalidades, no qual vai ganhando importância um novo conceito: Globalização.
Pensa-se que a preparação dos cidadãos, das comunidades e das sociedades mais alargadas, deverá passar, cada vez mais, pela educação/formação, o mais cedo possível na vida de cada pessoa, prolongando-se até ao fim dessa mesma vida e sem interrupções, através dos diversos e adequados processos: científico, técnicos, pedagógicos e, na fase mais avançada dos alunos/formandos, também de natureza andragógica. (Andragogia - «ciência antiga que estuda a educação para adultos com a finalidade de buscar uma aprendizagem efetiva para o desenvolvimento de habilidades e conhecimento»), (Malcolm Knowle, in: https://www.catho.com.br/carreira-sucesso/gestao-rh/o-que-e-andragogia)
Dificilmente haverá outra alternativa se se pretender um mundo civilizado, de princípios, de valores, de normas libertadoras para a pessoa humana responsável, que possam conduzir à Paz, ao Amor e à Felicidade. Nesse sentido, torna-se imperioso: «Um planejamento educacional que dê conta não só de aumentar as chances de uma cultura enfrentar seus problemas e garantir sua sobrevivência, mas, especialmente, de torná-la capaz de antecipar as condições relevantes para solucioná-los, demanda que saibamos quais são os problemas a serem enfrentados pela cultura, que comportamentos contribuirão para sua solução e, finalmente, qual o ensino necessário para gerar tais comportamentos.» (ZANOTTO, 2000:120).
O professor/formador para um novo mundo que se depara à humanidade, deverá possuir uma preparação bem mais abrangente, na perspetiva de uma polivalência que circunde a sua própria especialização, porque já não basta transmitir, com profunda minúcia e ilustração, os conteúdos de um dado domínio, sem uma visão cultural, do espaço e do tempo, onde tais conhecimentos possam ser aplicados com êxito, se se quiser: “uma visão global para aplicação local”
A formação inicial do professor/formador, sem o suporte de uma interiorização de diversos conhecimentos, princípios e valores, adquiridos pela experiência e formação ao longo da vida, de pouco servirá na formação de um novo cidadão-profissional, por isso: «Garantir ao professor o acesso aos saberes relevantes à sua prática por meio de uma formação adequada, não é, no entanto, suficiente para mudar a sua acção e alterar o método segundo o qual ele tem, de modo árduo e nem sempre bem sucedido, se proposto a ensinar.» (Ibid.:132).
A formação deste professor/formador, para uma sociedade cada vez mais exigente e complexa, não se compadece com a assimilação de algumas teorias, num certo período de frequência universitária, de uma licenciatura bem específica, ou mesmo ao nível de uma pós-graduação, nomeadamente de um mestrado ou doutoramento.
Entra nesta formação, tudo o que ao longo de uma vida se foi adquirindo, aplicando, melhorando, testando e validando. Incentivar, acarinhar e reconhecer, objetivamente, os professores experientes, dando-lhes oportunidades para: não só construírem as suas próprias teses; como também passá-las aos mais novos, que em início de carreira, tantas dificuldades sentem, será, seguramente, uma estratégia educativa que, a muito curto prazo, produzirá excelentes resultados.
 Em bom rigor: «Ninguém se tornará profissional apenas porque sabe sobre os problemas da profissão, por ter estudado algumas teorias a respeito. Não é só frequentando um curso de graduação que o indivíduo se torna profissional. É, sobretudo, comprometendo-se profundamente como construtor de uma praxis que o profissional se forma. A partir da sua prática cabe a ele construir uma teoria (…). Assim, a identificação teoria-prática deve apresentar-se como ato crítico, no qual se demonstra que a prática é racional e necessária e a teoria, realista e racional.» (FÁVERO, 1996:65).
Acentua-se, nitidamente, a vantagem que as modernas sociedades podem obter com a manutenção, em condições adequadas, de professores/formadores experientes, obviamente, em funções de coordenação, de supervisão, de preparação e início de carreira dos novos docentes.
Um recente conceito de professor-orientador, que proporcione aos recém-formados: segurança, confiança, incentivo, apoio em rede, solidariedade a todos os níveis, e em todas as circunstâncias, aliás, é uma primeira conclusão a que chegam os próprios candidatos a professores, na medida em que: «A relação teoria e prática é fundamental porque precisamos de orientação, pois nos primeiros anos sempre encontramos dificuldades, barreiras e obstáculos e a prática nos ajuda a enfrentar o mundo sem medo e com força de vontade.» (ALUNO 3º ano, in: OLIVEIRA, 1994:219).
Vai-se desenhando, assim, um ideal de Professor-Paradigma, em contínua formação, ao longo da vida e, portanto, para além do tempo oficial de uma carreira profissional. Um bem planificado programa, para um novo conceito de professor em construção, rentabilizando, justamente, o professor em idade pós-aposentação, afigura-se como uma alternativa de sucesso, principalmente, na formação dos futuros docentes, formadores e educadores.
Exige-se, todavia, um professor que vivencie, sinta e se emocione, que tenha plena consciência de que: «A sociedade onde vive também não é geral, abstracta e estática, mas é onde transcorre sua existência, onde ele se cria e cria a cultura, entendida como trabalho, organização social e representação simbólica da vida natural e social. A educação se faz, então, para que o homem participe, desenvolva e transforme essa cultura na direcção de um viver mais humano.» (PIMENTEL, 2001:86).
O Professor-Paradigma, para este novo século, para um mundo a caminho da globalização, num número crescente de domínios, também se poderia designar de bom-professor, caraterizando-se este como aquele que: «possui uma prática social mais ativa (participação em movimento docente, profissional, religioso, sindical, partido político, etc.) tem maior facilidade de fazer uma análise das questões da educação dentro do atual contexto…» (CUNHA, 2001:161). Professor-paradigma, Bom-Professor, Professor-ideal, são, apenas, reflexões, projetos e percursos que se desejam, e não objetivos que se possam alcançar, no curto prazo.
Caminha-se para o Professor-Reflexivo, questionador, crítico, construtivo e catalisador das ideias e praxis dos mais novos, com estes se interrelacionando e ajudando a construir novos protótipos, novos ideais e novas utopias, tendo por pano de fundo a perspetiva de uma humanidade mais culta, feliz e em paz.
Na verdade, para ser professor/educador, já não basta ser um bom ensinante, ou um técnico-especialista. Ele terá que ser um agente de proximidade e de contágio, atento aos sinais da alteridade dos seus alunos/educandos, um gestor hábil do equilíbrio necessário, mas sempre difícil, entre o desejo de influência inerente ao ato pedagógico, o risco e a manipulação.
Terá também que ser tolerante e paciente, porque na forma como souber ser atento, condescendente e paciente, depende a lição sobre a atenção, a tolerância e a magnanimidade. Este é o professor que se deseja para o primeiro século deste terceiro milénio. Conjuguem-se as sinergias docentes e que não haja preconceitos contra ideias, projetos e percursos ecléticos.

Bibliografia

CUNHA, Maria Isabel da, (2001). O Bom Professor e a sua Prática, 12ª Ed., Campinas-SP: Papirus, (Colecção Magistério: Formação e trabalho Pedagógico)
FÁVERO, Maria de Lurdes de Albuquerque, (1996). “Universidade e Estágio curricular: Subsídios para Discussão”, in: ALVES, Nilda (Org.), (1996). Formação de Professores: Pensar e Fazer, 4ª Ed., São Paulo: Cortez, “Colecção: Questões da nossa época).
OLIVEIRA, Ana Cristina Baptistella de, (1994). Qual a sua Formação Professor? Campinas-SP: Papirus, (Colecção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico).
PIMENTEL, Maria da Glória, (2001). O Professor em Construção, 7ª edição, Campinas-SP: Papirus. (Colecção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico).
ZANOTTO, Maria de Lourdes Bara, (2000). Formação de Professores: a contribuição da análise do comportamento, São Paulo: EDUC – Editora da PUC-SP


Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo