domingo, 15 de dezembro de 2019

Evolução da História


Parece existir grande consenso sobre a determinação espácio-temporal da génese da História, e que segundo o mesmo assentimento, ela terá surgido da antiga Grécia, a partir de uma tentativa para passar de uma explicação mitológica dos factos para uma interpretação mais racional, mais humana, o que implica que nas origens da História se possa encontrar a influência da Filosofia, tendo sido Heródoto o seu principal impulsionador, que toma a seu cargo a tarefa de consultar as testemunhas oculares dos acontecimentos que narra, resultando numa maior dose de verdade das narrativas, às quais ele próprio resolve chamar de História.
A historiografia grega não ultrapassou muito a crónica, predominando uma orientação filosófica sustentada por Platão e Aristóteles, e porque os principais historiadores, Heródoto e Tucídides não foram capazes de fornecer, em relação ao passado, mais que informações imprecisas.
A finalidade do estudo histórico nos gregos era contribuir para a formação da polis, através da memória da ação do homem no passado, verificando as causas da guerra. De uma maneira geral, os historiadores gregos, já apontados e ainda um outro chamado Políbio, não conseguiram libertar-se, totalmente, dos efeitos da Mitologia e da Filosofia, conferindo às suas narrações um certo cunho determinista, subordinando, excessivamente, a ação do homem ao meio e aos deuses.
Apesar de tudo, os gregos deram passos significativos para a elaboração de uma teoria da história e, paulatinamente, foram passando de um teocentrismo crítico para um antropocentrismo racional, colocando o homem no centro das preocupações filosóficas, sendo de realçar o contributo dos sofistas e de Sócrates.
Na época cristã medieval, a História assume uma nova dimensão, face à influência dos textos sagrados da Bíblia, que se tornaram relevantes para a teoria da história, afirmando-se, claramente, a unidade da espécie humana, a irreversibilidade do tempo, em oposição ao tempo mitológico, cíclico, tornando-se num tempo linear, procurando alcançar uma meta, no sentido do progresso, defendendo-se a dualidade da sua fundação, porque se considera que a História é obra de Deus e do Homem e, finalmente, a defesa do conceito cristão da incomparável dignidade da pessoa humana. Sempre a pessoa em destaque, na sua dimensão mais humanista.
Durante esta época, a História desenvolve-se muito à volta da vida dos santos, é a chamada Hagiografia, e que tinha como principal interesse e objetivo, descrever a vida de grandes homens, cujos exemplos de abnegação e sacrifício, em defesa duma religião e de Cristo, deveriam servir de guias orientadores para os vindouros, tal como os gregos a perspetivaram para a formação dos governantes da polis.
Com o Renascimento a História comporta novas influências, no sentido da revolução da mentalidade, encaminhada agora para que o homem atingisse a maioridade e que, segundo Kant, seria alcançada no século XVIII, com o iluminismo. É assim que o homem se desprende mais da divindade, para se agarrar à vida terrena, reduzindo-se o papel de Deus e dando-se ênfase à condição humana.
É no período das Luzes e, como consequência, de todo um movimento expansionista da Europa que se verificam grandes acontecimentos, dignos de registo histórico: o desenvolvimento das ciências, os grandes inventos, enfim, todo um conjunto de factos que impulsionam as técnicas a todos os níveis. A História teve de acompanhar este movimento ascensional.
No campo religioso acentua-se a mentalidade iniciada no Renascimento, no Humanismo e na Reforma, difunde-se uma religião sem dogmas. Verifica-se um grande desnível entre os séculos XVII e XVIII. No primeiro, o homem é profundamente cristão, dogmático; pelo contrário, o homem do século XVIII é anticristão, defende o direito natural e relega para segundo plano o direito divino.
Estes movimentos repercutem na História algumas dificuldades na sua evolução, já que os iluministas eram a-históricos, não lhes interessando o passado, apenas consideravam o presente, como ponto de partida. Não obstante esta posição anti-histórica, o século XVIII produziu alguns historiadores, tais como David Hume, Condorcet, Montesquieu.
Fizeram-se reflexões sobre a História, pretendeu-se explicar a História através da razão, acentua-se a corrente naturalista. A História vai, assim, evoluindo no sentido mais profano, mais tecnicista para, finalmente, desembocar no positivismo de Augusto Comte, no século XIX e aqui sofre, pela primeira vez, a sua grande transformação: quer no que se refere aos seus objetivos; quer quanto aos métodos. É o Positivismo, período de grande salto histórico, a partir do qual a História entra, definitivamente, no grande mundo das ciências.
Os positivistas exigem da História filiação racional, elevação para além do individual, formulação de leis absolutas, objetivas e universais. Eles, os positivistas, partem das fontes e da sua crítica interna para delas extrair os factos. A erudição afirma-se, a formação profissional do historiador apura-se e desenvolve-se, exaustivamente, a crítica da proveniência, da autenticidade e da exatidão das fontes.
A História torna-se ciência de laboratório, em que o historiador é um observador passivo, uma espécie de fotógrafo do passado, o dado histórico é perfeitamente objetivo, basta apreendê-lo e reconstruir com “tesoura e cola”. A História positivista dá primazia ao facto político e secundariza os aspetos económicos, sociais e culturais.
É uma História factual, que reconhece que os fenómenos políticos dominam os fenómenos profundos da vida económica, intelectual e social. Não obstante as transformações que os positivistas tentaram introduzir, a caraterística da História do século XIX é a da História Normativa, tal como no século XVIII, onde, por vezes, romanesco e histórico se confundem. Esta História é uma história objetiva, individualizante, evoca a Idade Média e glorifica a Pátria.
Valerá a pena tentar interpretar o conceito de História, através de alguns autores, deste século XIX. Assim, para Alexandre Herculano: «História, não tanto dos indivíduos como da nação; História que não ponha à luz do presente o que se deve ver à luz do passado; História que ligue os elementos diversos que constituem a existência de um povo em qualquer época, em vez de ligar um ou dois desses elementos, não com os outros que com ele coexistirem, mas com os seus afins na sucessão dos tempos, graduados pelos topos cronológicos, com massa de papel feita das folhas da arte de verificar as datas.» (HERCULANO, 1842: 37-38; 100-103).
Para outro autor, Hegel, que não sendo propriamente um historiador, deu, no entanto, o seu conceito sobre a História, e que para o qual a História seria a “odisseia do Espírito”. Apesar de tudo, a História ainda não é a História do passado humano, não é a História do homem ou dos homens e, como tal, ela procura evoluir no sentido de cumprir o melhor possível os objetivos que lhe são próprios, pelos métodos científicos que a caracterizam e que melhor se adequem à concretização da sua objetividade.
O século XX ficará na história da História como o século do arranque final de uma nova História, contra uma pseudo-História, contra a História dos privilegiados, contra os métodos tendenciosos, comprometidos e corruptos, utilizados por certo tipo de historiadores.
De facto, a História assumiu, definitivamente, o seu lugar entre as ciências humanas. Uma História que se viu apoiada no início daquele século pela Sociologia de Émile Durkheim,  pela Geografia Humana de Albert Demangeon e Vidal de la Blache, ela evoluiu na Sociologia, na Economia e no Espaço.
Em consequência da grande crise do mundo capitalista de 1929, Lucien Febvre  e Mark Block lançaram a revista "Annales d'histoire économique et sociale”, reagindo, firmemente, ao monopólio da História política institucional, factual e determinista dos positivistas.
É uma História explicativa, renovadora da problemática das suas fontes, técnicas e métodos, captando a realidade social e eleva-se até à história comparada das civilizações. É uma História Total, interessando-se tanto pelo passado como pela atualidade.
Ela trata de promover o conhecimento da situação económica, chama a atenção para os grupos sociais, sua estratificação e relações entre si, para as interações existentes entre os diferentes níveis da realidade histórica – o económico, o social, o cultural, o religioso.
Entretanto, em 1946 os “Annales” tomam nova designação: “Annales, Economies, Sociétés, Civilizations”. Mais do que nunca os “Annales” querem fazer compreender, pôr problemas, construir uma História Problemática.
Uma História regressiva, que permita compreender o presente pelo passado e, igualmente, o passado pelo presente: «De entre as coisas passadas, mesmo aquelas – crenças desaparecidas sem deixar o menor rasto, formas sociais malogradas, técnicas mortas – que, como parece, deixaram de dirigir o presente, iremos considerá-las inúteis para a sua compreensão? Seria esquecer que não há verdadeiro conhecimento sem um certo teclado de comparabilidade ao mesmo tempo diferentes e, contudo, apresentadas. Ninguém poderá dizer que não seja assim.» e, ainda: «A incompreensão do presente, nasce fatalmente, da ignorância do passado» (cf. BLOCK, 1982:39-46)
Uma História explicativa, comparada. Ela renova-se integralmente, quer a nível da problemática, quer a nível da metodologia quer, ainda, pela aparição no campo da História, aliás, já em 1869, Michelet faz uma referência à Nova História, apelando para duas orientações essenciais: uma, História da cultura material, interessando-se pelo clima e alimentação; a outra, uma História mais espiritual, dos costumes, anunciando a História Antropológica.
A Nova História, é a História de todos, de todos os homens, sem privilégios, História de estruturas de movimentos. Esta História destrona facilmente a História Política e aproxima-se da Antropologia, Economia, Geografia, Sociologia, Psicologia, Ciências Exatas.
Segundo Jaime Cortesão: «Uma antiquada conceção, cuja carreira não terminou de todo em Portugal, faz consistir a História na evocação dos homens e dos eventos singulares, faustosa galeria de retratos e painéis de batalhas, a que se acrescenta quando muito o quadro das instituições» (CORTESÃO, 1964:13). Esta História já não tem justificação moral, verídica e científica.
Numa linha de orientação muito semelhante, REGLÁ defende que: «No nosso tempo os historiadores protagonizam uma autêntica revolução metodológica, destinada, primordialmente a alcançar a maior aproximação possível entre a História como ciência e a vida humana como realidade, que consiste em adequar a História à vida.» (1970:13-14).
Por outro lado, Simiand, em 1903 denuncia os três ídolos da tribo dos historiadores: o ídolo político – preocupação geral pela história política; o ídolo individual – hábito de conceber a História como a história dos indivíduos e, por fim, o ídolo cronológico – costume dos historiadores se perderem nos estudos das origens. (cf. SIMIAND, 2003)
Finalmente, a Nova História, relaciona-se com o Marxismo, o qual apela à noção de estrutura, periodizando a História em: Esclavagismo, Feudalismo e Capitalismo que, segundo ele, constitui uma teoria de longa duração.
A Nova História interessa-se pelo que é constante, durante longo espaço de tempo, prefere o facto regular, daí que em 1932, Labrousse distinga três tipos de movimentos: Longa Duração, Oscilação Cíclica e Variações Sazonais. É necessário estudar o que muda lentamente, a estrutura.
Segundo Braudel, pode-se distinguir no tempo histórico três níveis diferentes: «À superfície, uma História dos eventos, inscreve-se no tempo curto; é uma micro-história. A meia encosta, uma história da conjuntura, desenvolve-se a um ritmo mais largo e mais lento. Até hoje ela foi estudada no plano da vida material, dos ciclos ou intercíclos económicos. Para além de tal recitativo da conjuntura, a história estrutural, ou de duração longa, respeita a séculos inteiros, situa-se no limite do movente e do imóvel e, pelos seus valores estáveis durante muito tempo, parece invariável relativamente às outras histórias, que se escoam e realizam mais rapidamente e que, em suma, gravitam em torno dela». (BRAUDEL, 1958, in: GURVITCH, 1977: 92-93).
É possível resumir os três níveis diferentes do tempo histórico, da seguinte forma: a) Acontecimentos – Factos ocasionais, efémeros, aparentemente independentes, localizando-se a tempo curto, ou de curta duração; b) Conjunturas – Acontecimentos que interessam enquanto elementos de uma série que se interrelacionam na medida em que permitem chegar às variações conjunturais. As conjunturas dizem respeito às oscilações cíclicas, ao tempo de média duração. Há conjunturas sociais, políticas, económicas, culturais, religiosas, etc. São pedaços da História; c) Estruturas – São realidades estáveis e permanentes, quase imóveis. Nestas realidades, aceitam-se as sujeições impostas pelo meio geográfico, pelas hierarquias sociais, pelas mentalidades coletivas, pelas necessidades económicas. O estudo da estrutura, é o estudo do residual.
Pode-se considerar, portanto, que a História Tradicional, a História Conjuntural e a História Estrutural, constituem unidades de medida diferentes. A História Tradicional seria a história de boatos; a História Conjuntural, história de blocos e a História Estrutural, história de movimentos plurisseculares.
A evolução historiográfica foi influenciada pela técnica, métodos e vocabulário de sociologia, da linguística, da política, da economia, surgiu a história serial, a história qualitativa e quantitativa.
A Nova História ou História Total, tende para a História Global, com o auxílio das séries e das estatísticas, muito ficando a dever à quantificação que passa da curta para a longa duração.


BLOCK, Marc, (1982). Introdução à História. 4ª Edição. Tradução, Maria Manuel e Rui Grácio. Sintra: Publicações Europa-América
CORTESÃO, Jaime, (1964). Os Factores Democráticos na Formação de Portugal. Lisboa: Livros Horizonte. (1ª ed. 1930).
GURVITCH, Georges, (1977). Histoire et Sociologie, in: Traité de Sociologie. Tomo I. São Paulo-Brasil: Livraria Martins Fontes
HERCULANO, Alexandre, (1842). Cartas sobre a História de Portugal. Opúsculos. Tomo V, 4ª ed. Carta I 37-38; Carta IV 100-103.
REGLÁ, Juan, (1970). Introdução à História. Barcelona: Teide.
SIMIAND, François, (1903). Método Histórico e Ciências Sociais. Tradução, José Leonardo do Nascimento. Bauru/SP: Edusc.2003.

Com o protesto da minha perene GRATIDÃO

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

domingo, 8 de dezembro de 2019

Processos Especiais da História


Podemos afirmar, com a maior segurança, que a história, para além de ser uma ciência e tal como quaisquer outros conhecimentos, verificáveis, reversíveis e dinâmicos, ela, parte do passado para o presente, sempre numa perspectiva da descoberta de factos novos que nos ajudem a melhor compreender os arquétipos do passado. Nesse sentido e com esse desiderato, analisemos os vários processos especiais da História:
 a) Investigação dos Documentos - Os factos passados chegam até aos dias contemporâneos através dos documentos que constituem o traço material daqueles factos sendo, posteriormente, efetuado um trabalho de heurística sobre os testemunhos, que consiste na sua recolha e investigação.
Os documentos podem apresentar-se sob três espécies: 1) Orais, que consistem nas lendas e tradições e se transmitem de gerações em gerações e, por vezes, estão na base de certos costumes; 2) Materiais, que encontram a sua máxima expressão nos monumentos, palácios, templos, túmulos, arcos e pontes, medalhas e moedas, selos, brasões e títulos; 3) Escritos, compostos por memórias oficiais, anais, cartas, ofícios, jornais, crónicas, biografias, inscrições em monumentos, entre outros.
Estes documentos ainda podem classificar-se em: diretos ou conscientes, quando elaborados com o objetivo de fazer História; indiretos ou inconscientes quando, pelo contrário, não lhes preside qualquer intenção histórica. Estes últimos são mais valiosos, porque oferecem mais garantia de veracidade dos factos que mencionam, precisamente por não terem sido elaborados com objetivos históricos.
Para o estudo dos documentos, muito têm contribuído as novas ciências ditas auxiliares da História, tais como a Arqueologia, Medalhística, Numismática, Paleografia, Epigrafia, Diplomática e a Filosofia, entre muitas outras.
b) A Crítica Histórica - Trata-se de outro processo da História que vem, precisamente, complementar o trabalho heurístico feito antes, e julgar do valor dos materiais recolhidos, a fim de determinar o seu significado exato. É um estudo metódico das fontes históricas, procurando a sua autenticidade, o valor do seu testemunho, exigindo discernimento e respeito, opondo-se, quer ao espírito cético, quer ao espírito crédulo.
Tradicionalmente é costume distinguir-se dois tipos de crítica: 1) Crítica Externa ou de Autenticidade, que examina a proveniência dos documentos: verdadeiros ou falsos, originais ou cópias; 2) Crítica Interna ou de Credibilidade ou de Autoridade, que avalia o grau de confiança que se pode dar ao documento, escrito ou material.
Esta divisão da crítica em dois tipos, não deve ser entendida como sendo um mais importante do que o outro, mas no sentido da sua complementaridade, porque os dois tipos da crítica, já referidos, são relevantes para o estudo dos documentos, muito embora se possa realçar o papel da Hermenêutica ou Crítica da Interpretação, através da qual se estabelece o sentido do documento, e precisa o que o seu autor disse ou quis dizer. A Hermenêutica é a ciência da interpretação das fontes em geral, mas com particular incidência sobre os documentos escritos.
c) A Síntese Histórica – Depois da análise, segue-se a síntese e esta compõe-se, essencialmente, de três aspetos fundamentais e que são: 1) Classificação ou agrupamento dos factos, o historiador procura dar uma ordem definitiva aos factos; 2) Interpretação dos factos, o historiador pesquisa os traços gerais e constitui grupos, esforçando-se por preencher as lacunas que se lhe depararem, através de raciocínios construtivos; 3) Explicação dos factos, o historiador visa o estabelecimento dos laços de causalidade.
O historiador tem de penetrar no encadeamento dos factos, porque nenhum facto histórico constitui a causa única e exclusiva do outro facto. A explicação da História consiste na descoberta, apreensão e análise.
A síntese procura, precisamente, apreender as ligações entre conjuntos significativos ou séries evolutivas, as conexões existentes entre as diversas ordens da realidade. A História é arte pelo seu esforço de reconstituição e exposição do passado, reclama do historiador sensibilidade, criação verbal, mestria de estilo claro, simples e concreto.
d) Filosofia da História – Para completar as abordagens do método histórico é necessário encarar o quarto e último processo especial, consubstanciado na Filosofia da História, pelo qual se obtém uma vista de conjunto, no sentido de passar de um conhecimento das causas e leis particulares para a determinação de leis gerais, que regulam o desenvolvimento da humanidade ou, pelo menos, a evolução de um povo. Pretende descobrir o sentido ou a direção e o significado da evolução humana.
A Filosofia da História procura descobrir o que há de comum e essencial nos diversos factos históricos, é como que uma preparação da Sociologia, ou então um trabalho puramente filosófico que procura fornecer e interpretar as razões que orientam a evolução da humanidade, no seu fluir constante.



Com o protesto da minha perene GRATIDÃO

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

TÍTULO NOBILIÁRQUICO DE COMENDADOR, condecorado com a “GRANDE CRUZ DA ORDEM INTERNACIONAL DO MÉRITO DO DESCOBRIDOR DO BRASIL, Pedro Álvares Cabral” pela Sociedade Brasileira de Heráldica e Humanística  http://www.minhodigital.com/news/titulo-nobiliarquico-de

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domingo, 1 de dezembro de 2019

A História Face às Outras Disciplinas


A História atual não é elaborada como o foi no passado mais remoto em que, começando por meros apontamentos de caráter particular, e em certa medida focando factos individuais, descreveu, também, vidas de pessoas, ações de pequenos grupos da aristocracia e um ou outro acontecimento natural.
A História, ao longo da sua própria cronologia, beneficiou de grande evolução, quer quanto ao objeto do seu estudo, quer no que se refere à metodologia que tem vindo a implementar. Os factos históricos são, portanto, os elos da sua infinita cadeia, episódios que estão relacionados com a vida do homem, cujos vestígios ainda hoje se podem encontrar sob vários aspetos, desde o testemunho oral, escrito, ao objeto, aparentemente, mais insignificante.
O documento histórico nem sempre foi analisado com objetividade, coerência e imparcialidade, mas quantas vezes manipulado, deformado ou ignorado, desde que isso beneficiasse os grupos minoritários, ou as pessoas consideradas mais importantes, em termos sócio-económicos.
É certo que a História depende muito do historiador, que a pode elaborar, praticamente, a seu belo prazer ou ao serviço de quem melhor o remunere, porque o facto histórico não pode ser objeto de experiência, e como tal não se repete, dele restando os testemunhos que, sob várias formas, chegam ao conhecimento do historiador.
Os factos históricos são originais e únicos, porque jamais se repetem em idênticas condições de espaço, tempo e circunstâncias, não podendo ser estudados em grupos, mas cada um de “per si”, não conduzindo, por isso, ao estabelecimento de leis fixas e genéricas. É impossível repetir-se, da mesma forma, a segunda Guerra Mundial.
De uma maneira geral, as ciências fundamentam-se nos factos, enquanto que a História se apoia nos documentos, sem os quais não é possível, mas, tal como as ciências experimentais, a História também é uma ciência, em sentido amplo, porquanto tem o seu próprio método e objeto de estudo, pelos quais procura firmar-se. O seu objeto são os factos históricos e o método que utiliza é o intuitivo, compreendendo diversos processos, tais como a investigação dos documentos, crítica histórica, síntese histórica, e finalmente, filosofia da história.


Venade/Caminha – Portugal, 2019

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Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

domingo, 24 de novembro de 2019

O Homem e a História

O homem vive no mundo compreendido num espaço e num tempo, rodeado de seres animais, vegetais e minerais, possivelmente iluminado por “Algo”, de tal forma que lhe permita ser diferente de toda a restante criação e, em certa medida, dominar em seu proveito a própria natureza.
O homem é, portanto, um ser privilegiado, porque dotado de faculdades superiores, e até transcendentais, tem conseguido, ao longo dos milénios, elevar-se no sentido de se assemelhar ao seu Criador que, desconhecendo-O em concreto, n’Ele acredita e d’Ele recebe o suporte espiritual que o torna diferente, superior e dominador.
O homem apresenta, por isso mesmo, um conjunto de fatores evolutivos que lhe permitem, a partir de determinada época, iniciar e desenvolver a sua própria História, não uma história como qualquer narrativa deste ou daquele animal, desta ou daquela ciência, enfim, da história de tudo o que acontece.
A História do homem elaborada pelo próprio homem, e em seu proveito, no fundo, insere-se na História da Humanidade, e, neste contexto, pode-se dizer que a História: «É o estudo dos factos passados, humanos ou naturais, que influenciaram na evolução da humanidade» (RIBEIRO & SILVA, 1972:490).
 Naturalmente que a definição de História, assim sintetizada, poderá parecer muito pouco em termos de História da Humanidade, todavia, afigura-se que encerra grande significado e alcance, na medida em que o homem não pode fazer história sem os factos concretos por ele originados, ou pelos quais veio a ser influenciado, em ordem ao seu próprio desenvolvimento bio-espiritual.
É óbvio que a História da Humanidade é tão antiga quanto o homem, embora, rigorosa e cientificamente não seja conhecida a partir da sua génese, circunstância que impede qualquer tentativa de remontar às origens da humanidade, ficando assim um longo espaço e tempo históricos ignorados pelo homem, acerca da sua própria existência.
Subsistem inúmeros documentos, da mais variada natureza e proveniência, que têm vindo a ser analisados e estudados, por processos altamente científicos, bem como técnicas muito avançadas.
Entre tantos documentos, processos e técnicas, existe, também, um fator que, em certa medida, deve ser considerado pelos historiadores, muito embora com as necessárias cautelas, o qual se costuma denominar por “Fé Histórica”, e que se encontra num documento importantíssimo para a esmagadora maioria da humanidade, cujo suporte material se designa por “Bíblia Sagrada”.
Segundo este valioso documento, é possível situar o homem num espaço e tempo próprios, e dar uma explicação, embora religiosa, do aparecimento do homem, que se verifica numa perspectiva doutrinal, porque na realidade há factos cuja veracidade é garantida pela inspiração. No Génesis, Deus tudo explica e a partir d’Ele tudo se cria ou transforma.

Bibliografia

RIBEIRO, José Bonifácio & SILVA, José, (1972). Compêndio de Filosofia. Lisboa: Livraria Popular de Francisco Franco.


Venade/Caminha – Portugal, 2019

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domingo, 17 de novembro de 2019

Cultura Tradicional Regional


O homem valoriza-se porque a cultura é um processo que se concretiza como um produto do espírito humano, numa como que superformação do caráter, de resto, já há mais de dois mil anos que a cultura era para os gregos a “aristocracia do espírito”. É, por isso, bastante difícil definir a cultura, porque a sua complexidade não permite uma delimitação, que qualquer definição impõe.
Numa perspetiva filosófica e citando António Sérgio o problema da cultura «é uma questão de mentalidade e esta é algo que não se pode ensinar porque constitui o resultado das convicções profundas de cada um»
Por sua vez, Protágoras, afirma que: «O homem é a medida de todas as coisas», enquanto que Platão dizia que «Deus é que deve ser a medida de todas as coisas» para, finalmente, se admitir, com Jorge Dias, que «o coração é que se torna a medida de todas as coisas, até porque o português revela-se de particular singularidade, seja qual for a sua situação no mundo».
A psicologia portuguesa transporta uma série de elementos étnicos, míticos e culturais, da mais diversificada origem, o que, efetivamente, denota o caráter extremamente complexo da cultura portuguesa.
A estrutura greco-latina, as correntes islâmicas e hebraicas transmitidas para o pensamento e a literatura, a profunda religiosidade que ao longo da Idade Média se fez sentir, a epopeia dos descobrimentos, o espírito das Cruzadas e o ideal da dilatação da Fé, pela qual se construiu o Império Colonial, os contactos com povos tão díspares como o africano, o oriental e o americano, são fatores que não podem, de forma alguma, ser ignorados na composição da Cultura Portuguesa, à qual deve juntar-se, como elemento fundamental, o Mar.
O Atlântico Português, a partir do qual se expandiu a Nação Lusitana, daí que a cultura Lusa seja mais marítima que qualquer outra: trata-se de uma cultura expansiva, uma cultura da aventura, do mistério, do risco e da saudade. Uma cultura cujo elemento essencial permitiu escrever páginas históricas indeléveis, cujo expoente literário se materializou em “Os Lusíadas”, que bem se pode dizer ser a Bíblia da Pátria Lusitana, a orientação da aventura de todo o Renascimento.
Logo nos primórdios da sua história, os portugueses tornaram-se num povo de imenso manancial psicológico porque, em boa verdade, eles adaptaram-se a todas as situações, sem que dessa natureza resulte qualquer perda de caráter, qualquer quebra de nacionalismo e, por isso, o português vive no estrangeiro, adaptando-se às normas de trabalho, à língua e até a certos costumes.
 Este povo festeja, periodicamente, de forma bem portuguesa e, ainda mais intensamente, à boa maneira da sua terra natal, alguns dos principais acontecimentos religiosos e profanos: a Ceia de Natal que, em família, se realiza com observância de determinados hábitos gastronómicos muito próprios, ou mesmo a “matança do porco” (agora em desuso, até por motivos legais e de salubridade pública), que muitos concretizam quando integrados em pequenas comunidades estrangeiras, onde outros portugueses residem ou, ainda, a criação de coletividades desportivas, culturais e recreativas, muito embora a saudade da terra natal não o abandone mas, bem pelo contrário, o torna mais melancólico, enigmático, distante, porém, sempre forte.

Bibliografia.

SÉRGIO, António, (1974). Obras Completas: Ensaios, 1ª edição, Tomo VII, Lisboa: Sá da Costa.
SÉRGIO, António, (1976). Obras Completas: Ensaios, 2ª edição, Tomo I, Lisboa: Sá da Costa.


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domingo, 10 de novembro de 2019

O Estado. Exemplo de Pessoa de Excelência?


E se numa conceção clássica se pode definir o Estado como sendo: um grupo de cidadãos (povo); localizados geograficamente num determinado espaço (território); delimitado por fronteiras, internacionalmente reconhecidas; cujo povo comunga de uma cultura, história e língua comuns; tem objetivos e desígnios coletivos, que toda a população defende, então o Estado é constituído por todos aqueles elementos, os quais não têm quaisquer responsabilidades perante o cidadão e a instituição, particularmente considerados.
O Estado abstrato, assim entendido, nem sempre defende os interesses, não promove a justiça, não distribui equitativamente as riquezas nacionais e não pode exigir dos cidadãos e das instituições particulares, isto é, da sociedade civil, o cumprimento de determinadas obrigações. Importa, então, analisar o Estado concreto, objetivo, identificável.
Mas o Estado tem o rosto dos respetivos dirigentes que, antes e depois das correspondentes funções, transitoriamente desempenhadas, justamente à custa da confiança que o cidadão-eleitor neles depositaram, seja no grupo político, seja diretamente no próprio governante.
No exercício das funções que lhes foram cometidas, tais cidadãos, agora investidos de poderes especiais, devem ser os primeiros a cumprir a Lei, com equidade, com tolerância, compreensão e pedagogia preventiva, sem estratégias e processos persecutórios, sem espírito punitivo e, quantas vezes, injusto.
E se: por um lado, o Estado tem de construir e implementar o Paradigma de “Pessoa-de-bem”, a começar nas e entre as suas próprias instituições de base como as Autarquias Locais, criando laços de confiança e credibilidade, adotando uma postura pedagógica, atuando em tempo útil, sem discriminações, independentemente das ideologias político-partidárias dos diversos responsáveis;
 Por outro lado, e nas atuais circunstâncias, o exercício do poder local democrático, nas freguesias rurais e semiurbanas, carece de uma profunda revisão e estruturação. Nesse sentido, o cidadão contemporâneo tem de participar no processo de atualização e ajustamento às realidades existentes, de forma a garantir dignidade, competência, eficácia, iguais direitos e tratamento para com todos os seus concidadãos, independentemente das suas opções político-partidárias.
O Estado, enquanto instituição nacional suprema, é servido por cidadãos que, no exercício das respetivas funções, cumprem ordens, executam a Lei e prestam contas aos seus superiores hierárquicos, e assim sucessivamente, numa cadeia hierárquica, que tem por limite a Lei Fundamental, isto é, o mais alto magistrado do Estado, também presta contas às instituições às quais, constitucionalmente, deve obediência e, finalmente, à própria Lei.
 O paradigma de um Estado “Pessoa-de-bem” passa, igualmente, pela solidariedade institucional entre as diferentes organizações e instituições, de tal forma que, o que é por um agente institucional implementado, qualquer que seja a sua categoria e poder decisório, terminadas que sejam as suas funções e mandato, deve ser assumido pelo seu substituto, para assim haver uma continuidade de ação, podendo, o novo titular daquele cargo, introduzir alterações se, entretanto, surgirem factos ou oportunidades mais favoráveis à instituição, aos seus trabalhadores e utentes, porém, não pode, nem deve, eximir-se ao cumprimento dos compromissos assumidos pelo seu antecessor, tomados no âmbito das suas funções, ao serviço da instituição, perante a sociedade civil, prestadores de serviços, outras instituições e organizações.
O governante, pessoa-de-bem, ancorado numa excelente formação humanista, certamente, terá o maior orgulho, e sentirá prazer em ver os seus concidadãos felizes, em boa harmonia, sentindo-se parte integrante deste sucesso. Este governante, desejavelmente o cidadão do futuro, terá de abdicar de certo tipo de mordomias, benesses, privilégios e impor um espírito de austeridade a si próprio, à sua equipa e também aos seus correligionários políticos, institucionais ou empresariais.
A cidadania também envolve renúncia à sumptuosidade de quem governa, que deve dar o exemplo, de tal forma que as desigualdades se atenuem até onde for possível. Ainda se vive num período em que a cidadania, com todos os seus deveres e direitos, não abrange todos os setores da sociedade, por isso as desigualdades, em diversas áreas e países, ainda prevalecem, conduzindo a horrendos conflitos sociais.
O Estado com rosto tem o dever de ser competente, de zelar pelos legítimos interesses dos seus cidadãos, naturais, residentes, aqui se incluindo todos os imigrantes, e também aqueles que estão na diáspora, mostrando neste domínio, e uma vez mais, que é “Pessoa-de-bem”, isenta, austera e vigilante, face às «engenharias e estratégias financeiras», construídas e levadas a cabo por quem não deseja cumprir com as suas obrigações cívicas.
De igual forma se exigem cidadãos que estejam preparados para assumir todos os seus deveres e direitos de cidadania, contribuindo para uma sociedade mais solidária entre os seus membros, através do trabalho, do estudo e da participação pública.


Com o protesto da minha perene GRATIDÃO

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

TÍTULO NOBILIÁRQUICO DE COMENDADOR, condecorado com a “GRANDE CRUZ DA ORDEM INTERNACIONAL DO MÉRITO DO DESCOBRIDOR DO BRASIL, Pedro Álvares Cabral” pela Sociedade Brasileira de Heráldica e Humanística  http://www.minhodigital.com/news/titulo-nobiliarquico-de

COMENDADOR das Ciências da Educação, Letras, Cultura e Meio Ambiente Newsmaker – Brasil

TÍTULO HONORÍFICO DE EMBAIXADOR DA PAZ pelos «serviços prestados à Humanidade, na Defesa dos Direitos as Mulheres. Argentina»

DOCTOR HONORIS CAUSA EN LITERATURA” pela Academia Latinoamericana de Literatura Moderna y la Sociedad Académica de Historiadores Latinoamericanos.