domingo, 20 de junho de 2021

Maravilhas da Pessoa Humana

 Os avanços surpreendentes da ciência e da técnica, ao longo do último século, têm possibilitado à humanidade desvendar realidades que antes eram consideradas inexistentes, utopias ou até mistérios. A Natureza circundante a todo o ser humano, ainda não é, totalmente, conhecida, porém, muito se tem desbravado para chegar ao nosso conhecimento, aproveitarmo-nos dela e, em alguns domínios, a controlarmos ou, pelo menos, prevermos as suas manifestações, e prevenirmo-nos contra as consequências dos respetivos fenómenos, o que evita, ou atenua, os efeitos catastróficos na sociedade humana.

Ao longo da História do planeta Terra, e de tudo quanto a seu respeito se sabe, tem-se a certeza de que, o ser humano é o que mais tem evoluído, e contribuído para uma permanente alteração das suas condições de vida, criando, transformando, alterando e conquistando situações, saberes e técnicas para adaptar o mundo às suas próprias necessidades, cada vez mais exigentes e sofisticadas, tendo vencido em muitos domínios, continuando porém, incessantemente, na busca de novas soluções, para problemas que ainda estão por resolver, designadamente, a sua própria morte física, o controlo dos fenómenos naturais, a paz no mundo, a sua própria felicidade, entre outros.

A dimensão físico-material da pessoa, e os conhecimentos necessários à melhoria das condições de vida, têm beneficiado de grandes avanços, ao nível da saúde, da longevidade, da erradicação de graves e mortíferas doenças, que durante séculos dizimavam populações inteiras, ao conforto habitacional, aos transportes, ao estudo do universo, enfim, ao bem-estar geral para muitas pessoas, povos e nações.

Haverá, todavia, uma outra dimensão que oferece mais dificuldades ao seu estudo, bem como o consequente conhecimento de realidades que transcendem o mundo físico, que envolve a humanidade. Há como que um mistério acerca da pessoa, relativamente ao ser mais profundo que ela comporta, que não é, materialmente, visível, mas que se manifesta por determinado tipo de emoções, sentimentos e visionamentos, que se poderiam considerar inefáveis, cientificamente inexplicáveis.

Meritoriamente, as ciências com as tecnologias, buscam explicações para determinados fenómenos humanos, reações, consequências, controlo e tratamento, quando necessário, contudo, em muitos casos, não se consegue chegar a uma solução, a uma explicação, a uma fórmula, que a ciência valide, para se resolver no futuro, com a angústia de que, em certas situações-limite, se procuram outros meios, outros “tratamentos”, outras soluções, sendo, aparentemente verdade que, algumas vezes, com sucesso, muitas outras, não.

A posição da pessoa em matérias tão sensíveis e desconhecidas, leva à aceitação do mistério da existência humana, em alguns aspetos da sua vivência, colocando-se, desde há milénios, questões que ainda não têm uma resposta convincente, cientificamente válida, para grandes camadas da sociedade: Quem somos? o que fazemos? Para onde vamos? Qual o nosso destino?

É aqui que entra, para quem é crente, uma outra dimensão, uma outra componente da constituição da pessoa: o espírito, a alma, a consciência, o sobrenatural, afinal, outros elementos, de acordo com as diversas culturas, religiões, crenças, valores, emoções e sentimentos.

Pode-se aceitar essa outra componente, para além da composição físico-material da pessoa, porque ela não envolve nenhum conflito prejudicial à humanidade, apenas discussão científica, ideológico-religiosa, incentivo à investigação, o que até é positivo, desde que no respeito pelas diversas correntes de opinião, e também pela crença e pela fé que muitos têm e defendem, respetivamente, quanto à posição no mundo material em que se encontra a pessoa humana.

Em todo o caso, também se defende que: «Quando o homem perde o seu fundamento divino, a sua vida e toda a sua existência começa a desmoronar-se, a diluir-se, a tornar-se “intranscendente”. Cai por terra aquilo que o torna único e imprescindível. Tudo o que torna a sua dignidade inviolável perde o seu fundamento.» (BERGOGLIO, 2013:125).

É claro que se desconhece se haverá, ou não, neste planeta, ou até noutros, seres tão completos quanto o ser humano e, não havendo tal conhecimento, então uma grande ideia fica patente: a pessoa humana é um ser maravilhoso, misterioso, dotado de capacidades ilimitadas, mas também um ser angustiado porque sabe que ainda não conhece tudo a seu respeito e, recordando Sócrates, o filósofo nascido há quase 2.500 anos, até se pode concordar com ele: “Eu só sei que nada sei”, verdade que permanece como tal, desde há cerca de dois mil e quinhentos anos.

Esta assertiva, de facto, preocupa-nos imenso porque revela a nossa limitação, em certos domínios, a nossa insignificância, porém, seremos humildes quando aceitarmos este pensamento de Sócrates: «A sabedoria está em não acreditares que sabes o que não sabes» (SÓCRATES, in: KARDEC, 2010:51).

Admite-se, para efeitos de estímulo à reflexão, que é através do pensamento organizado, da consciência, esta enquanto: «Identidade Psíquica e Moral: que permanece de forma intacta, inteiramente completa apesar do turbilhão de matéria que passa em nós; ou seja: Eu sou sempre Eu mesmo, conquanto possa até melhorar, aperfeiçoar, evoluir; mas Eu permaneço como Consciência estável, regular, atuante, porém insensível às mudanças da matéria orgânica que se permuta, que se troca, em sua eterna inconstância e variabilidade» (PATROCÍNIO, in: http://fernandorpatrocinio.blogspot.com.br/, 10.01.2013).

A partir daqui, são muitos e diversos os sentimentos, os mais diferentes e díspares possíveis, concluindo-se, muitas vezes, que a própria pessoa nem sequer saber porque reagiu de uma determinada maneira, mas ficando triste, ou alegre, pelos resultados obtidos. Os paradoxos são imensos, o aglomerado de ideias, reações e consequências, multiplicam-se e, no final, a mesma pessoa está pronta para novas situações, emoções, sentimentos e experiências.

Que maravilha é este desencontro de situações que a pessoa experimenta no seu íntimo sem, aparentemente, a intervenção material de algum outro elemento, para além de um eventual facto concreto, que desencadeou tantas reações, sejam físicas, fisiológicas ou sentimentais/emocionais!

Algo escapará às explicações científica e tecnológica, e até de outras áreas, na circunstância, do conhecimento esotérico. É esta angústia maravilhosa que nos faz mover, alimentar a crença, a fé num outro ser que, provavelmente, transcende o ser humano físico-material.

A pessoa humana é, portanto, uma “misteriosa incógnita”, para si própria e para os seus semelhantes. A admirável aflição de: por um lado, saber-se diferente e superior a todos os outros seres, até agora conhecidos que, praticamente, os domina, quase como que deseja, que vai construindo o mundo como pretende, que seja ao seu gosto e que satisfaça as suas necessidades, por mais extravagantes que estas sejam; mas, por outro lado, vive numa certa obsessão em descobrir quem realmente é, o que estará, de facto, a fazer neste mundo, e a dolorosa certeza da morte física que é agravada pela ignorância do seu destino último. É nesta dicotomia, parcialmente inexplicável, que a pessoa vai passando por este mundo.

A problemática existencial do ser humano constitui, efetivamente, o grande dilema, a preocupação maior que ao longo da vida terrena se depara, a quem realmente se considera diferente, superior e maravilhoso, comparativamente com os restantes seres animados conhecidos.

É por isso que tal diferença e superioridade devem ser direcionadas para o bem, para os valores mais altruístas como: a solidariedade, a amizade, a lealdade, a saúde, a família, o trabalho, a paz, a felicidade e a graça de Deus, porque só assim esta vida tem sentido e este ser humano se tornará maravilhoso.

O princípio, segundo o qual: “tudo o que nasce morre”, aplica-se, inexoravelmente, à pessoa humana, e tendo por base de vida esta certeza, então é do mais elementar bom-senso que a existência humana seja desenvolvida com um espírito filantrópico, de amor ao próximo.

 Este sentimento, talvez o mais nobre e sublime que o ser humano consegue vivenciar e revelar, passa por imensas atitudes, desde logo, pelo perdão, no sentido da tolerância, da solidariedade, da ajuda, porque: «A forma mais profunda de perdão é um processo de compreensão que exige esforço e mudança. (…) Quanto mais tomamos consciência de nossos sentimentos e os entendemos, mais podemos mudar de ideias e mais profundamente somos capazes de perdoar. (…) A vida de inúmeras pessoas foi transformada no decorrer da história humana por sentirem-se aceites e perdoadas. (…) O perdão remove os ressentimentos que nos impedem de desenvolver nossa espiritualidade. (…) Aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. Existem ocasiões em que perdoar a nós mesmo é o mais árduo ato de amor.» (BAKER, 2005:83).

As diversas dimensões da pessoa humana, que no domínio material, por exemplo, do saber-fazer, possibilitam produzir objetos, construir monumentos, transportes, pontes, estradas, artefactos para diferentes fins, resolução de problemas de saúde, fabrico de medicamentos, que curam doenças complexas, já é uma inequívoca superioridade, em relação a todos os outros seres conhecidos, mas a dimensão que resulta das suas faculdades psicológicas, intelectuais e espirituais, completa, sem dúvida, a grandiosidade deste ser maravilhoso que é a pessoa verdadeiramente humana. O pensamento humano leva a pessoa para onde esta ambicionar, mas, desejavelmente, para o bem, assim se pretenderia que fosse.

É essencial, porém, compreender-se que a pessoa humana não é um ser perfeito embora, superior a todos os outros seres conhecidos. Com efeito há, ainda, muito por fazer no domínio do aperfeiçoamento das atitudes, dos projetos altruístas, do bem-comum. Há um longo caminho do Bem para percorrer.

Parece um paradoxo que, simultaneamente às práticas malignas, que conduzem à miséria e à morte prematura, também se verifiquem atos de grande nobreza, de inequívoca solidariedade, de amor extremoso e de outros valores, apenas existentes, conscientemente, nos seres humanos.

Esta bipolarização: do bem e do mal, do amor e do ódio, da paz e da guerra, entre outras dicotomias, é uma batalha que urge vencer, no sentido da consolidação dos primeiros termos dos binómios acima identificados, ou seja, que o bem, o amor,  a paz, a saúde, a família estável, o trabalho, a solidariedade, a amizade, a lealdade, a felicidade e a Graça Divina, sejam os elementos fundantes da dignidade humana.

A complexidade do ser humano, também constitui um património inigualável e inimitável. Na verdade, vive-se para o bem e para o mal, mas, em situações-limite, surge a capacidade do perdão, da generosidade, do companheirismo, da tolerância, pelo menos em pessoas com um espírito bem formado, com uma consciência sensível aos dramas.

A pessoa humana é, realmente, um ser maravilhoso, com virtudes e defeitos, cometendo atos de inquestionável e excecional grandeza, quanto outros de desprezível crueldade e mesquinhez, todavia, possui o sentimento mais elevado, notabilíssimo e profundo que algum ser conhecido demonstra ter: o Amor.

Em bom rigor: «O amor é uma energia, a energia mais pura e mais elevada. Nas suas vibrações mais altas, o amor possui sabedoria e consciência. É a energia que une todos os seres. O amor é absoluto e não tem fim. (…) A energia curadora é uma componente da energia espiritual. (…) Quando os médicos referem a ligação entre a mente e o corpo, acredito que o Amor é a energia que estabelece essa ligação» (BRIAN, 2005:132). Parece, portanto, não restarem muitas dúvidas de que a pessoa humana é um ser maravilhoso, proteja-se e engrandeça-se este SER fantástico.

 

Bibliografia

 

BAKER, Mark W., (2005). Jesus o Maior Psicólogo que já Existiu. Tradução, Cláudia Gerpe Duarte. Rio de Janeiro: Sextante.

BERGOGLIO, Jorge, Papa Francisco, (2013). O Verdadeiro Poder é Servir. Por uma Igreja mais humilde. Um novo compromisso de fé e de renovação social. Tradução, Maria João Vieira /Coord.), Ângelo Santana, Margarida Mata Pereira. Braga: Publito.

BRIAN L. Weiss, M.D. (2000). A Divina Sabedoria dos Mestres. Um Guia para a Felicidade, alegria e Paz Interior. Tradução, António Reca de Sousa. Cascais: Pergaminho.

KARDEC, Allan, (2010). O Evangelho Segundo o Espiritismo: contendo a explicação das máximas morais do Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação nas diversas situações da vida. Tradução, Albertina Escudeiro Sêco. 4ª Edição. Algés/Portugal: Verdade e Luz – Editora e Distribuidora Espírita.

PATROCÍNIO, Fernando Rosemberg, (2012). Evidências do Espírito na Matéria, in: http://fernandorpatrocinio.blogspot.com.br/   

 

«Proteja-se. Vamos vencer o vírus. Cuide de si. Cuide de todos». Cumpra, rigorosamente, as instruções das autoridades competentes. Estamos todos de passagem, e no mesmo barco chamado “Planeta Terra” de onde todos, mais tarde ou mais cedo, partiremos, de mãos vazias!!! Tenhamos a HUMILDADE de nos perdoarmos uns aos outros, porque será «o único capital que deixaremos aos vindouros» Alimentemos o nosso espírito com a ORAÇÃO e a bela música.  https://youtu.be/_73aKzuBlDc

 

Venade/Caminha – Portugal, 2021

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Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

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domingo, 13 de junho de 2021

. Rumo ao “Porto Seguro”

Atualmente defende-se, com muita persistência, a necessidade de, nos mais diversos contextos e atividades humanas, encontrar e seguir um rumo, uma estratégia, uma metodologia que conduza as pessoas, as instituições, os povos e as nações a uma situação estável, seja ao nível do emprego, da economia, da paz, da felicidade, enfim, do bem-estar, coletivo, onde todas as pessoas possam ter uma vida condigna com a superior condição da espécie humana.

Nesse sentido: elaboram-se estudos e projetos, fazem-se promessas, tomam-se medidas, as mais drásticas, as mais cruéis, as mais brutais, as mais desumanas, tudo em nome da credibilidade, da confiança, da estabilidade, do bom comportamento, perante as análises de mercados sem rosto, sem sensibilidade social, sem preocupações com a nobreza de um povo milenar.

Os povos de todo o mundo, uns mais do que outros, tudo vêm suportando, com inquestionável estoicismo, com autêntico espírito cívico e com inquebrantável esperança em melhores dias no âmbito da dignidade humana. As pessoas sofrem, contraem doenças do foro neuropsicológico, suicidam-se, vivem sem honra nem glória, sem verem, ao menos, que os seus sacrifícios valeram a pena, quanto mais não fosse, para as gerações mais novas, para os seus descendentes.

A crise é acutilante, impiedosa e poderá permanecer, segundo alguns analistas, por longos anos, o que, a verificar-se, talvez se equipare a um genocídio dos mais fracos, desprotegidos e ignorados, por quem tem a obrigação de os acarinhar, respeitar na sua dignidade, ajudá-los a ter uma vida digna, decente e confortável, tal como eles têm, incluindo as respetivas famílias e amigos, certamente, com toda a legalidade e legitimidade.

A preocupação em resolver as crises: económica, financeira, social e, atualmente, pandémica, (2020-2021) parece evidente, em muitas pessoas, com responsabilidades em diversos setores da atividade humana, na sociedade: na educação, na saúde no emprego. Alguns responsáveis políticos, religiosos, empresariais e diversos mecenas e filantropos, vão dando o seu contributo, que até poderia ser muito mais eficaz, principalmente ao nível dos poderes legislativo, executivo e sancionatório, porém, os resultados tardam a aparecer, quer em quantidade, quer em qualidade.

Mas há como que um esquecimento, uma vergonha encapuzada, um enterrar a cabeça na areia, quanto a reconhecer que existe uma outra crise, talvez bem mais profunda, mais demorada de resolver, porque mais complexa, porque envolve mentalidades, culturas, princípios, valores, sentimentos e emoções. A crise axiológica, ou seja, dos valores, justamente, aquela que poucas pessoas ousam falar nela, todavia, ela está latente e, ao que tudo indica, agrava-se inexoravelmente.

Concorda-se, portanto, que é importante, e urgente, encontrar um rumo claro, que conduza as pessoas, individualmente consideradas e os grupos, para um “Porto Seguro”, onde a tormenta se abrande e a tripulação, desta grande nau que é a sociedade, se sinta segura e possa refazer as suas vidas, com esperança, com projetos exequíveis, com um futuro promissor para toda a humanidade. É preciso encontrar o rumo certo, por quem sabe navegar.

Esta imensa tripulação, de um grande navio, também chamado mundo, deverá preocupar-se, portanto, em dar a sua cooperação, porque cada elemento, no seu posto de trabalho, com as responsabilidades que lhe subjazem, terá uma participação ativa que, por si próprio, contribuirá para um mundo mais justo e solidário. Ninguém pode ficar de fora, nesta viagem.

Adotar um rumo bem definido, que conduza a humanidade para um destino compatível com os mais elementares direitos humanos implica, desde já: comportamentos individuais de bom relacionamento entre todas as pessoas; no respeito pelas ideias, pelas opções e práticas concretas de cada uma, sem se demitir de princípios, valores e sentimentos; também na defesa intransigente das razões que assistem, em relação aos atos praticados, quando estes são sinceramente solidários, concretos e leais para com os restantes semelhantes.

Neste grande navio chamado mundo, a sua tripulação, que é a sociedade, constituída por elementos de várias nações, culturas, religiões, valores e objetivos diferentes, o ponto comum será, de facto, o rumo que todos desejam, aquele que conduza ao “Ancoradouro Estável”. Portanto, é essencial que a coesão seja reforçada, consolidada, até porque: «A dependência saudável nos relacionamentos produz pessoas saudáveis. Precisar dos outros nos torna mais fortes e não carentes.» (BAKER, 2005:151).

Traçar um rumo implica escolhas, meios humanos, equipamentos e recursos financeiros, que devem existir em qualidade e quantidade, a bordo desta grande nau, cujo comandante e adjuntos têm de possuir uma sólida e específica preparação, nas respetivas funções, sentido de grande responsabilidade, espírito de missão bem consolidado, de tal forma que a restante tripulação possa confiar nas qualidades humanas e capacidades técnico-científicas daqueles “Pilotos”.

É indispensável que todos queiram remar para o mesmo lado, para o “Porto Seguro” que, certamente, a maioria dos tripulantes deseja. Por isso, os bons exemplos devem partir do comando, também dos responsáveis intermédios. Entre governantes e governados o relacionamento deve ser correto, amável, solidário, amigável, leal e recíproco.

O projeto é apenas um: chegar ao “Porto Seguro” da dignidade humana e, depois de fundeado o navio, toda a tripulação deve trabalhar para solidificar o bem-comum, a paz e a felicidade. Este é que é o “Rumo” certo, que toda a tripulação mais ambiciona e tem direito.

Quando se pretende e defende um determinado rumo, deve-se ter presente as implicações que tal decisão envolve, na medida em que é necessário assegurar as melhores condições para que o navio possa navegar: com segurança, conforto e bom relacionamento entre toda a tripulação.

Nesse sentido, o comando até poderá prescindir de certas prerrogativas, em benefício da restante tripulação, ou seja: em vez de reivindicar e decretar benefícios, regalias extraordinárias que os demais não têm, deverá melhorar as condições gerais de bem-estar de toda a tripulação, investir onde é necessário, importante e urgente. Claro que deve haver diferenças positivas em função da exigência de conhecimentos e responsabilidades para determinadas funções, até como forma de reconhecimento para uns e incentivo para outros.

O que nunca se pode ignorar é que o navio é o mesmo, o rumo certo é o que todos mais desejam, ou seja: alcançar o “Porto Seguro” da solidariedade, da amizade, da lealdade, da reciprocidade, do bem-comum, da paz e da felicidade, aliás: «Todos nós sonhamos com uma vida melhor, uma sociedade melhor. Contudo torna-se difícil passar um dia que seja sem nos desiludirmos, sem nos sentirmos desapontados, sem nos sentirmos sugados pelas pessoas mesquinhas e egoístas que nos rodeiam. Parece que uma grande maioria de pessoas só está interessada nos seus ganhos pessoais. Tornam-se rudes e arrogantes, críticas e insensíveis. As suas ações não só nos deprimem, como também nos fazem sentir que não podemos fazer nada para mudar este estado de coisas e que apenas os que estão no poder têm a capacidade de fazer a diferença.» (BRIAN, 2000:138).

Afigura-se evidente que o rumo certo para se alcançar o “Porto Seguro” da dignidade da pessoa humana passa, então, por princípios, valores, sentimentos e emoções, por uma cultura axiológica altruísta, humanitária e universal, a partir dos conceitos que lhes estão associados, e das práticas que os confirmam.

A sociedade, tal como a tripulação de um navio, só conseguirá atingir objetivos favoráveis ao bem-comum quando for solidaria, quando os máximos dirigentes, das diferentes atividades humanas: políticas, religiosas, empresariais, económicas e financeiras descerem das suas “Torres de Comando” ao convés e ao porão do navio, aí se inteirarem das condições em que vivem os restantes elementos da tripulação.

Torna-se fútil, e até ofensivo para a tripulação, que o navio seja muito bonito, dispendiosa a sua manutenção, confortáveis e luxuosos alojamentos para os comandantes e apenas para eles, se os restantes elementos da guarnição vivem em condições sub-humanas, agrilhoados no porão, e que em caso de sinistro, nem sequer possuem um colete ou uma boia de salvação para nadarem para a praia mais próxima.

É necessário que quem chega ao governo do navio, primeiro tenha passado pelo porão, pelo convés e, finalmente, atinja o camarote e a torre de comando, para pilotar com segurança, com solidariedade, com equidade e humanismo, rumo ao “Porto Seguro” de um futuro digno para toda a tripulação, sem exceções, onde todos sejam valorizados pelos seus méritos, e avaliados segundo o seu empenhamento e contributo.

É correto e desejável que exista uma hierarquia, numa qualquer organização. É importante que os degraus dessa hierarquia sejam ocupados por quem tem capacidades científicas, técnicas e humanas, faculdades inatas para o exercício de uma cultura axiológica ao serviço de quem mais carece em primeiro lugar, mas também na busca dos recursos necessários para se atingirem os objetivos que melhor sevem a sociedade.

É importante para estes “Comandantes” saberem ouvir as vozes dos “Tripulantes”, porque a virtude de saber escutar os seus semelhantes é fundamental para se conseguir a coesão e os bons resultados, de resto, como é da boa sabedoria popular: “quem escuta com respeito, sabe decidir com justiça”.

Qualquer candidato ao comando de um navio, na circunstância, de uma organização, deve ter a humildade de escutar os seus colaboradores, inteirar-se das suas necessidades, dificuldades, aspirações, porque ao estabelecer o diálogo, pela escuta ativa está, seguramente, no “Rumo Certo”, para resolver problemas que afetam o bem-estar individual e coletivo da tripulação, na circunstância, da sociedade, para a qual se deve desejar o melhor do mundo e por ela tudo tem de se fazer, porque: «Escutar é uma forma de amar. É um modo de mostrar ao outro que o que ele diz tem valor, aquilo que comunica não cai no vazio, que tem interesse. Ao reconhecer isto, o outro sente-se aceite e valorizado como pessoa.» (TORRALBA, 2010:143).

 

Bibliografia

 

BAKER, Mark W., (2005). Jesus o Maior Psicólogo que já Existiu. Tradução, Cláudia Gerpe Duarte. Rio de Janeiro: Sextante.

BRIAN L. Weiss, M.D. (2000). A Divina Sabedoria dos Mestres. Um Guia para a Felicidade, alegria e Paz Interior. Tradução, António Reca de Sousa. Cascais: Pergaminho.

TORRALBA, Francesc, (2010). A Arte de Saber Escutar. Tradução, António Manuel Venda. Lisboa: Guerra e Paz, Editores S.A.

 

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quinta-feira, 10 de junho de 2021

10 de JUNHO. DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES LUSÓFONAS

 LUSITANOS NO MUNDO

Dia de Portugal. Sem dúvida que existimos como: nação soberana, detentora de uma História quase milenar; com uma vertente religiosa-católica, ainda muito acentuada; fronteiras praticamente inalteráveis desde há quase 900 anos; uma zona económica exclusiva, de 200 milhas, das maiores do mundo; uma cultura inequivocamente recheada de valores humanistas, aos quais se junta um regime democrático defensor de amplos direitos, liberdades e garantias, constitucionalmente consagradas na Lei Fundamental Portuguesa.

Dia de Camões. O poeta lusitano, poderemos afirmar, o mestre da língua portuguesa, através da qual descreveu os feitos heroicos dos Descobrimentos Portugueses, na sua obra-prima, mundialmente conhecida e estudada: “Os Lusíadas”. Luís Vaz de Camões, o pai oficial da lusofonia, da língua que hoje é a sexta mais falada em todo o mundo e, ainda, enquanto idioma oficial, nos areópagos internacionais.

Dia das Comunidades Portuguesas. Espalhadas por todo o mundo, a nossa Diáspora, de que tanto nos podemos e devemos orgulhar. Estabelecer o “Dez de Junho” como um dia associado às outras duas situações de grande projeção internacional, é um dever que nos cumpre honrar, que muito nos orgulha, até porque os nossos emigrantes, e os agora, também, luso-descendentes, são já vários milhões, diríamos que um “Outro Portugal”, afirmando-se em todo o globo terrestre.

«Portugal foi tradicionalmente uma terra de emigração, desde o período da expansão imperial e colonial, passando, por exemplo, pela emigração económica para o Brasil no século XIX e pela emigração económica, a partir de 1960, para alguns países da Europa Ocidental. Além dos cerca de dez milhões de Portugueses residentes em Portugal, presume-se existirem quase cinco milhões mais espalhados pelo mundo, quer de primeira geração, quer luso-descendentes recentes, formando assim um total de cerca de quinze milhões de Portugueses. De acordo com dados da Direcção Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas do Ministério dos Negócios Estrangeiros português, os países com maiores comunidades portuguesas são, por ordem crescente de importância demográfica, a França, o Brasil e os Estados Unidos (caso se considerem, no cômputo dos luso-americanos, aqueles que descendem de Portugueses em graus variados).» (in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Di%C3%A1spora_portuguesa#Di.C3.A1spora_portuguesa

O “Dez de Junho”, feriado nacional em Portugal, obviamente que: deve ser vivido com entusiasmo; não, necessariamente, com espírito dos “nacionalismos” exacerbados; não, com alegados “patriotismos” de ocasião; sim, com a simplicidade, humildade e a dignidade que ao longo dos séculos têm constituído o nosso “rótulo” de referência privilegiada.

 

É normal, e salutar, que neste dia, as entidades responsáveis: homenageiem os Portugueses; que lhes atribuam condecorações, essencialmente àqueles que através do trabalho, das letras, das artes, da investigação, do serviço militar, forças de segurança, instituições de utilidade públicas, organizações de diversa natureza e fins, individualidades e, de uma forma geral, todas as pessoas e entidades que tenham ou estejam a contribuir para a dignificação do país.

 

Portugal, hoje, primeiro quarto do Século XXI, por mérito próprio, tem direito a ocupar um lugar de relevo nas mais altas instâncias internacionais, e deve ser frequentemente solicitado, para dar o seu contributo democrático, intelectual e humanitário, até porque se libertou, através de uma “Revolução Pacífica”, de um regime ditatorial, devolvendo ao Povo a Liberdade e os restantes Valores, essenciais à dignidade humana, como também teve a capacidade, e humildade de reconhecer as injustiças que cometeu com os territórios colonizados, devolvendo aos seus autóctones, a sua autonomia, com a consumação da independência total.

Passados que estão mais 878 anos de História, e decorridos que estão mais de 47 anos da reimplantação do regime democrático, os Portugueses: têm todos os motivos para estarem orgulhosos do seu passado, genericamente considerado; têm razões para estarem otimistas quanto ao futuro, que se deseja de desenvolvimento, trabalho e justiça social.

 

Sem quaisquer preconceitos, afastados os comportamentos escravocratas, xenófobos, racistas, narcisistas e ditatoriais, temos todas as condições para aprofundarmos conhecimentos, relacionamentos, intercâmbios em muitos domínios: dos empresariais aos económicos; da educação à investigação; dos políticos aos militares; dos religiosos aos culturais, enfim, somos livres, inteligentes, trabalhadores, hospitaleiros e dignos. Somos, simplesmente, Portugueses.

  

Venade/Caminha – Portugal, 2021

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Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

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domingo, 6 de junho de 2021

Leonardo Coimbra (1883-1936)

«Leonardo José Coimbra - (Borba de Godim, Lixa, 30 de Dezembro de 1883Porto, 2 de Janeiro de 1936) foi um filósofo, professor e político português. Enquanto Ministro da Instrução Pública de um dos governos de Primeira República Portuguesa, lançou as Universidades Populares e a Faculdade de Letras do Porto. Como pensador fundou o movimento “Renascença Portuguesa, e evoluiu do criacionismo para um intelectualismo essencialista e idealista, reconhecendo a necessidade de reintegrar o saber das "mais altas disciplinas espirituais", como a metafísica e a religião (http://pt.wikipedia.org/wiki/Leonardo_Coimbra)

Caráter emotivo, dotes oratórios e a sistematização do seu pensamento, possibilitaram-lhe escrever uma vasta obra, destacando-se o “Criacionismo”, a “Razão Experimental” e a “Rússia de Hoje e o Homem de Sempre”. Da análise das suas obras, poder-se-á extrair o seguinte:

O “Criacionismo” – Consiste na atividade incessante e inesgotável do pensamento humano, atividade de síntese para continuar. O pensamento evolui das noções de Número e Espaço para a Vida, para a Sociedade, para a Pessoa, para a Realidade, que afinal é a Vida, Movimento e Ação. As ciências aproximam-se cada vez mais das realidades.

Filosofia de perspetivas antropológicas com dois termos fundamentais: Homem e Vida -. A Ciência é considerada visão certa e a metafísica reduzida a um complemento da ciência, esta é a síntese de noções e a dialética para o conceito de Pessoa. A Dialética de Noções consiste em chegar à Filosofia pondo de lado os dados da Ciência.

As noções são algo de irredutível em relação às noções anteriores. As Noções são abstratas, quando em ordem às outras que as supõem e se lhes acrescentam, e estas concretas em relação às anteriores. As concretas formam o sistema completo de noções.

O ato de conhecer revela dois elementos irredutíveis: o Sujeito e o Objeto. É indispensável a presença consciente do objeto, o que traduz a presença efetiva do sujeito no ato de conhecer. O conhecimento é uma relação que consiste no Juízo, ou no seu envolvimento.

A Ciência constrói-se por um dinamismo da inteligência, que elabora intuições sensíveis, e opera dialeticamente por sínteses sucessivas e englobantes, produzindo-se uma racionalização que é a Noção. Dado que o pensamento tem uma atividade de síntese, com dinamismo construtivo, dialético, criacionista. Ao nível do Criacionismo o problema de Deus é o problema da moral, do significado humano ou super-humano, mas finito, da moral ou do seu significado absoluto.

Deus é o salto audacioso e só pode ser atingido por um salto ético-religioso. Só a pessoa livre e responsável pode chegar a Ele. O homem é a chave do universo, nele se completa a evolução, e o universo é um saldo de consciências banhadas por Deus.

A dimensão última é o Mistério, perante o qual só fica o valor da Ação Moral, com o recurso à Ética para postular Deus, que fez do universo um oceano nivelado de vida. Deus é harmonia do homem, fonte de ser, um rio que “O” tem na nascente e na foz. Deus é o grande solitário, inacessível para além do Mundo, uma espécie de “Ontológica Saudade”.

O mundo sem Deus para; Deus sem o mundo adormece, porque Ele ao ser amor, precisa de convivência. Deus tem uma dimensão irracional, porque racional por excesso, e Jesus Cristo constitui uma onda de racionalidade. O Criacionismo é, portanto, uma Filosofia da Criatividade Dinâmica do Homem em Liberdade, em Inter-relação com os outros homens, com abertura e convergência para um vértice único, absolutamente perfeito e orientador: Deus.

A “Razão Experimental” – Através desta obra, Leonardo Coimbra traça a linha evolutiva e, simultaneamente, comparativa entre a Ciência e a Filosofia. Se o “Criacionismo” é evolução para a dialética de noções, desta para a pessoa e, finalmente, se chegava ao absoluto pela moral, agora evolui-se da Razão Experimental para o hipotético construtivo, daqui para as hipóteses prováveis ou experiências científicas e, por fim, para a Liberdade Humana.

A experiência humana é irredutível à experiência científica, mas a razão experimental é uma teoria e prática da experiência, porque são duas as atitudes do homem: Teoria que é conhecimento, o saber; e a Prática que é conduta, a ação, o agir. A razão experimental procura criar um vínculo racional entre as experiências e as teorias. A experiência do mundo moderno é sempre científica. A relação que existe entre a Ciência e a Filosofia é que: esta é um ciclista; aquela, o treinador que vai numa mota, à frente do ciclista.

A “Rússia de Hoje e o Homem de Sempre” – É toda uma filosofia da cultura, e uma antropologia filosófica que denuncia o totalitarismo comunista. Do salto ético-religioso, a um lirismo metafísico, impõe-se, agora, a Revelação.

Nesta obra, o sentido da Filosofia deverá permanecer o mesmo. A Filosofia serviria de medianeira entre o Criado e o Incriado, levaria à afirmação do Transcendente, da Divindade, fazendo entrar as disposições morais e o destino pessoal do Homem, o qual perante a vida pode ter três atitudes possíveis: Humanismo Idealista, que é o real idealizado, o homem aspira a este ideal; o Humanismo Cristão, em que o homem tem que emergir a vida na terra, com importância para o trabalho e para a ciência e esta constitui uma promoção do homem católico, o que o homem quer é vida; Humanismo antropológico, que consiste na reforma protestante e ciência, porque esta tornou-se independente da moral, da filosofia e da ética, isto é, tornou-se independente da verdade humana.

Para concluir: através da ciência só é real o que é científico; pela epistemologia o homem é o centro de toda a realidade; e pela ontologia do espírito, o homem encontra o dinamismo da atividade, e o ser gerador dessa atividade.

Na primeira fase, a do Criacionismo, domina a Ciência, e a Filosofia é de um papel secundário; na segunda fase, a da Razão Experimental, verifica-se a parte mais rica, mais autónoma do que a Razão Científica e, finalmente, na terceira fase, constata-se que Leonardo Coimbra nunca reviu os escritos do seu pensamento, que nos seus livros poderia ter revelado toda a sua intuição rica, profunda, sendo a sua obra de difícil interpretação.


Bibliografia


ARRIAGA, José de, (1980). “A Filosofia Portuguesa 1720-1820”, in História da Revolução Portuguesa de 1820, Coleção Filosofia e Ensaios, Lisboa: Guimarães Editores.

GAMA, José, (1983). Filosofia e Poesia no Pensamento de Leonardo Coimbra. In Revista Portuguesa de Filosofia, Tomo XXXIX-4.1983. Braga: Faculdade de Filosofia.

MORUJÃO, Alexandre Fradique, (1983) O Sentido da Filosofia em Leonardo Coimbra, In Revista Portuguesa de Filosofia, Tomo XXXIX-4.1983. Braga: Faculdade de Filosofia.

PRAÇA, J. J. Lopes, (1988). História da Filosofia Em Portugal. 3ª Edição. Lisboa: Guimarães Editores.

SPINELLI, Miguel (1981). A Filosofia de Leonardo Coimbra. O Homem e a Vida. Dois Termos da sua Antropologia Filosófica. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia.

 

Venade/Caminha – Portugal, 2021

Com o protesto da minha permanente GRATIDÃO

 

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

 

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sábado, 29 de maio de 2021

Antero de Quental - (1842-1891)

Antero de Quental

«Antero Tarquínio de Quental (1842-1891) nasceu em Ponta Delgada, Açores. Frequentou a Universidade de Coimbra, tendo passado depois algum tempo em Paris. Viajou pelos Estados Unidos e Canadá, fixando-se em Lisboa. Pertenceu à chamada Geração de Setenta, grupo que pretendia renovar a mentalidade portuguesa, e participou nas Conferências do Casino. Foi amigo, entre outros, de Eça de Queirós e Oliveira Martins. Atacado por uma doença do foro psiquiátrico, regressa aos Açores onde se suicida. As suas obras vão da poesia à reflexão filosófica: Raios de Extinta Luz, Odes Modernas, Primaveras Românticas, Sonetos, Prosas e Cartas (http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/antero.htm).

A sua filosofia constitui uma síntese do pensamento moderno, pretendendo dar soluções das antíteses: determinismo-liberdade; razão-experiência. O seu sistema carateriza-se pelo temperamento das ciências e pela indução se chega ao universo, que é anterior à especulação, o que resulta no “Pampsiquismo” que aliou à filosofia do “Psicodinamismo”, segundo os quais, a força-tipo do universo é o Espírito.

As leis do universo são as leis do Espírito. O espiritualismo resolve-se num “Dinamismo Psíquico. Conciliação do Dinamismo Psíquico e Mecânico, forças perfeitas e imperfeitas. A filosofia científica, opõe-se ao empirismo, o transcendente dá lugar ao realismo, a dedução à indução. Esta filosofia da natureza tem como alma o “Realismo” que assenta no “Mecanicismo”. Em duas obras importantes, a nível filosófico, pode-se delinear um pouco melhor o pensamento de Antero de Quental.

Causas da Decadência dos Povos Peninsulares – Analisa a decadência em três níveis: Moral e Religioso, que tem como causa a Contra-Reforma; Político, que resultou da centralização e absolutismo; económico, cujas consequências se podem atribuir à expansão marítima e na ausência de indústrias.

A Religião era a criação da Península Ibérica, e as pessoas adoravam os santos padroeiros de cada terra. De uma Fé e de um Cristianismo passou-se a um dogmatismo, de sentimento passa-se à institucionalização, o cristão transforma-se em católico.

O Concílio de Trento sujeita o homem na terra ao poder da Igreja, pelo dogma do pecado original, a razão humana torna-se um pecado, uma falta. A Eucaristia é uma sujeição, uma idolatria. Na confissão, a alma é incapaz de comunicar com Deus, sem ser através dos padres. Sujeição dos Governos e das Nações ao poder de Roma. O catolicismo tornou-se o maior inimigo das nações.

Política – O fanatismo e a intolerância geram a indiferença, a inércia política e a redução das liberdades constitucionais, horror ao trabalho, países de ociosos. O socialismo de Antero baseia-se na Justiça, na liberdade de pensamento, na igualdade de oportunidades, revolução em paz, em ordem, em liberdade. Mas a centralização e o poder régio absolutos, que caraterizam o despotismo político, foram outros dos motivos da decadência.

Economia – É manipulada com a eliminação da burguesia dos grandes negócios nacionais, a inexistência de estruturas para a indústria e ausência desta, a Politica de transporte das especiarias orientais, em que Portugal era apenas um intermediário transportador e não o detentor de tais produtos, são outras tantas causas da decadência.

As tendências gerais da Filosofia do Século XIX – Procurou Antero esboçar o seu sistema filosófico, buscando sempre a verdade, que estaria na síntese de ideias contrárias, na conciliação possível entre os opostos e, neste sentido, foi um eclético.

O seu principal problema consistia na conciliação das antinomias: Determinismo-Liberdade; Absoluto-Realidade.

A primeira antinomia (Determinismo-Liberdade), resumia-se ao seguinte problema: «a crise pode exprimir-se por estas antíteses: Espiritualismo e Liberdade por um lado; Mecanicismo e Determinismo, por outro».

 A Filosofia não pode prescindir dos dados da consciência, mas os dados da consciência também não podem anular os factos naturais e históricos, provados e positivos. A Filosofia é sempre um estar a caminho, é algo instável e sempre em atividade. É a dúvida que alimenta a Filosofia e também princípio de solução, porque pelo menos circunscreve o problema.

A Filosofia é uma equação “Pensamento-Realidade”. A Razão é sempre a mesma e a experiência é que muda. Há uma metafísica comum entre todos os sistemas filosóficos, porque procuram uma teoria geral para o universo. A Filosofia moderna avança a partir do progresso da ciência.

As ideias do espírito são as leis do universo. A nova Filosofia funda-se na identidade do ser e do saber. A Ciência desenha com traços finos as leis positivas do universo; a Filosofia interpreta as leis superiormente.

A Espontaneidade – É a ideia-chave de toda a elaboração filosófica de Antero de Quental, sendo a consciência o termo último e a mais enérgica expansão da força espiritual, mas não o espírito. A força da espontaneidade constitui a natureza dos seres e a própria natureza humana. Como critério de verdade e fonte do conhecimento adotou o sentimento moral e o testemunho da consciência.

A Moral – É a perfeição da vida da consciência, que tende para a realização de si mesma como a liberdade, e esta é a autodeterminação de um ser agir, a partir de si próprio. Deus seria o ser mais livre se se pudesse falar de Deus, mas Ele é o ideal de liberdade que atrai o homem. O progresso está dependente da Lei Moral e esta é a perfeita Liberdade, tornando-se o Dever, através desta Lei, “eu-amor”.

A Imortalidade – É a denúncia do egoísmo. O justo libertando-se, liberta a Humanidade. A perfeição ou a perfeita virtude define a Liberdade e se esta é o fim do Universo, a Santidade é o termo final de toda a evolução.

A Missão da Filosofia – É definir o espírito de uma civilização, torná-la consciência de si mesma, de uma construção coletiva. As ideias diretoras da vida devem ser flexíveis, para acompanhar as vicissitudes da vida, e a síntese do pensamento moderno deve ser uma obra coletiva.

 

Bibliografia

 

ARRIAGA, José de, (1980). “A Filosofia Portuguesa 1720-1820”, in: História da Revolução Portuguesa de 1820, Coleção Filosofia e Ensaios, Lisboa: Guimarães Editores.

PRAÇA, J. J. Lopes, (1988). História da Filosofia Em Portugal. 3ª Edição. Lisboa: Guimarães Editores.

RODRIGUES, Anna Maria Moog, (1982) A Filosofia de Antero de Quental. In: Atas do I Congresso Luso-Brasil de Filosofia. Revista Portuguesa de Filosofia – Tomo XXXVIII-II – Separata. Braga: Faculdade de Filosofia.

 

 

Venade/Caminha – Portugal, 2020

 

Com o protesto da minha perene GRATIDÃO

 

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

 

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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